Montreal premia a ousadia de "Lavoura Arcaica"

Quatro anos depois de um embate corporal com a obra de Raduan Nassar, Luiz Fernando Carvalho pôde finalmente colher o primeiro fruto de seu filme de estréia, Lavoura Arcaica: o prêmio de melhor contribuição artística do júri oficial do 25.º Festival de Filmes do Mundo de Montreal. E foi com um largo sorriso que o diretor deixou a cerimônia carregando o pesado troféu dourado, satisfeito com o reconhecimento de uma obra cuja ousadia e radicalidade do fluxo narrativo não teve paralelos entre os 24 filmes da competição. E em seu curto discurso de agradecimento, Luiz Fernando referiu-se ao prêmio como "uma semente para a recuperação da imaginação cinematográfica".De fato, imaginação cinematográfica não foi exatamente o forte da competição oficial ou do júri em sua premiação. O grande prêmio das Américas de melhor filme foi dividido entre o concorrente do Irã, Baran, dirigido por Majid Majidi, e Abandonados, da Hungria, de Arpad Sopsitis. Majidi vem se revelando um habitué da premiação de Montreal - levou o primeiro prêmio com Filhos do Paraíso (97) e A Cor do Paraíso (99). Desta vez, Majidi substituiu o lirismo de seus filmes anteriores pelo relato mais realista e engajado de um romance proibido entre um iraniano e uma jovem de origem afegã. Apesar da empatia provocada pela "mensagem" política, Majidi repete-se e fica muito aquém de seus trabalhos anteriores. Já o concorrente da Hungria é um bem realizado e sombrio painel de crianças em um internato nos anos 60, expondo sem meios-tons a crueldade institucional.O grande prêmio especial do júri foi para o representante argentino El Hijo de la Novia, de Juan Jose Campanella, uma simpática comédia de afetos familiares tendo como pano de fundo a crise econômica do país. De fácil comunicação com o público, Campanella levou também o prêmio de melhor filme da América Latina. A Experiência, concorrente pela Alemanha, de narrativa rigorosamente convencional, propiciou a Oliver Hirschbiegel o prêmio de melhor diretor.Um jovem ator alemão no papel de um punk à deriva levou o prêmio de melhor ator por Engel & Joe, uma escolha no mínimo discutível, e o de melhor atriz foi dividido entre o trio de Betty Fisher e Outras Histórias - Sandrine Kiberlain, Nicole Garcia e Mathilde Seigner em eficiente thriller psicológico de Claude Miller, que arrebatou também o prêmio da crítica internacional.Exibido no terceiro dia da competição, Lavoura Arcaica recebeu aplausos calorosos e críticas muito favoráveis. O jornal La Presse escreveu: "Devemos saudar a audácia de um cineasta que não tem medo de nadar contra a corrente, enquanto Le Devoir enfatizava "a extrema qualidade das imagens e o sopro estranho da obra". La Vanguardia, da Espanha estampou "Montreal descobriu o novo Glauber Rocha". E a publicação Euro Movies International classificou Lavoura Arcaica, exibido como A La Gauche du Pere ou To the Left of the Father "como o filme mais poético de Montreal". Houve, é verdade, restrições quanto à duração do filme - 171 minutos -, mas também o reconhecimento de uma obra radical em sua concepção ao expor um drama universal e atemporal através da justaposição de palavras e imagens tão coladas entre si como o exemplar do livro que Luiz Fernando carregava no bolso do paletó como uma segunda pele. Em Montreal, a história de André (Selton Mello) e sua família de imigrantes libaneses no interior do Brasil firmou-se como uma obra de alto risco de construção autoral. E curiosamente, as questões familiares se revelaram um dos grandes temas da competição: o veterano diretor japonês Kon Ichikawa, de 85 anos, apresentou A Mãe, sobre uma família do século 18 conduzida com surpreendente liberalidade por uma matriarca; Os Dois Pais, de Lou Jian, se fixou em um rapaz que só consegue aproximar-se do austero pai biológico depois de viver uma relação mais afetiva com um tio. Betty Fisher, In the Bedroom (do americano Todd Field) e O Filho da Noiva também se centravam em dramas familiares, os dois primeiros referentes à reação depois da perda de filhos. Pode ser uma coincidência que em tempos tão acelerados e de referenciais tão esgarços, cineastas de vários pontos do mundo estejam se voltando para a família. Apesar da diversidade de abordagens, no entanto, esses retratos familiares vieram pintados com tons bastante convencionais. Também por esse aspecto, Lavoura Arcaica se sobressaiu como um forte exemplo da audácia criativa merecidamente reconhecida.

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