Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Monique Gardenberg termina a filmagem de 'Paraíso Perdido', que tem Seu Jorge no elenco

'Discutir o negro é importante pra gente', diz o cantor e ator

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2017 | 16h00

Na entrevista que deu ao Estado, Cléo Pires manifestou de novo sua eterna gratidão à diretora Monique Gardenberg. Se Monique não insistisse tanto para que ela fizesse Benjamim, talvez Cléo não tivesse se lançado ao desafio de ser atriz. “Ela é um amor. Sempre lembra isso nas entrevistas, como se me devesse alguma coisa. Cléo já tinha luz própria.” Monique conta isso no set do novo longa, que filma em São Paulo. Paraíso Perdido conta uma história do Baixo Augusta. O set, nesse dia, é justamente numa travessa da Rua Augusta.

A produção o identifica como ‘o casarão’. A própria Monique faz as vezes de cicerone para o repórter. “Isso aqui é o camarim da boate. Aquele ali é o cantinho do Teylor”, aponta. Teylor é o personagem de Seu Jorge e daqui a pouco o próprio Seu Jorge está diante do espelho, recitando seu texto. “Prezado público, quando o artista sente necessidade de explicar sua arte para o espectador, um dos dois é burro...” A frase vem da abertura de A Ópera do Malandro, de Chico Buarque, mas Paraíso Perdido não é uma adaptação.

Monique está de volta ao cinema dez anos depois de Ó Paí Ó - e sete depois da série da Globo inspirada no filme. “Depois dessas adaptações (Benjamim e Ó Paí) queria uma coisa bem autoral. Fiz como sempre faço. Coloquei música e deixei a coisa vir.” Não uma música qualquer. Brega. Para se inspirar, Monique ouviu muito Márcio Greyck, Odair José, Gilliard, Reginaldo Rossi, Valdick Soriano. Ao som de Impossível Acreditar Que Perdi Você, veio a primeira imagem. Uma mulher jovem chorando com um teste positivo de gravidez na mão. As cenas foram vindo. “Quando fui ler o que havia escrito, encontrei um rascunho de história muito forte, com sentimentos intensos como amor, ódio, traição, vingança, violência. Dei-me conta de que estava lidando com algo muito poderoso, o mito. Fui à fonte da tragédia grega para estudar a mitologia. O resultado, estou adorando. Paraíso Perdido é um thriller melodramático com uma história saborosa e visceral.”

Essa história remete à excêntrica família de José, interpretado por Erasmo Carlos. José tem os filhos, o filho adotivo (Teylor), os agregados. Marcados por perdas e desencontros, todos tentam ser felizes encerrados na Paraíso Perdido, uma boate parada no tempo, onde cantam música brega (e romântica). “O Teylor é o meu Hermes, mensageiro dos deuses. Teylor une as várias histórias do filme. É quem traz para o boate o policial, para ser o segurança de Ímã, neto do velho José. “Ímã é transgênero e quem faz o papel é o Jaloo. Estou fascinada por ele.” Jaloo, nome artístico de Jaime Mello, é cantor, compositor e DJ. Tem gente apostando nele para ser o grande nome da música eletrônica no Brasil. Monique Gardenberg viu outra coisa - o ator. Seu elenco é de sonho - além de Erasmo Carlos, Jaloo e Seu Jorge, ela tem Júlio Andrade, Hermila Guedes, Marjorie Estiano, Humberto Carrão, Lee Taylor, Felipe Abib, Celso Frateschi e Nicole Puzzi, como a gerente da boate. “Não é o máximo?”, pergunta.

Júlio Andrade já havia deixado o set para fazer a série Sob Pressão, mas ainda teria uma diária - a produção termina neste fim de semana. O assunto cai no filme de Andrucha Waddington. O repórter elogia Júlio Andrade, o grande, e Marjorie Estiano. “E eu não sei? Marjorie virou a musa do meu teatro”, diz Monique. E Seu Jorge? “Havia trabalhado com ele em duas ocasiões: quando apresentamos seu grupo Farofa Carioca no Free Jazz Festival de 1998 e ao interpretar um bandido em fuga no clipe que dirigi de Gabriel o Pensador - A Dança do Desempregado. Aquela imagem dele, amedrontadora, encarando a câmera, com fuzil em punho, nunca me saiu da cabeça. Agora, era a chance que eu tinha de usar o seu talento como cantor e ator para defender o personagem Teylor Made. Num Brasil onde faltam oportunidades, ele vive um negro que tem seu talento reconhecido e a autoestima preservada através do afeto da família de José.”

Coprodução da Casé Filmes e Dueto Filmes, Paraíso Perdido reúne uma equipe técnico/artística de primeira - fotografia de Pedro Farkas, direção de arte de Valdy Lopes (O Escaravelho do Diabo), figurino de Cassio Brasil (Linha de Passe), maquiagem de Rosemary Paiva (Ensaio Sobre a Cegueira). A locação principal, a boate, foi a casa Le Rêve, no Baixo Augusta. “Nossa preparação e filmagem foi a toque de caixa. Augusto Casé, Dueto e toda a equipe toparam a parada de preparar o filme rodando. Foi uma loucura, mas tem valido muito a pena.”

ENTREVISTA - SEU JORGE

Ator, cantor, compositor e multi-instrumentista. Jorge Mário da Silva é tudo isso e muito mais. Jorge quem? Seu Jorge. Ah, bom. Seu Jorge conversou com o repórter no set de Paraíso Perdido.

Cidade de Deus lhe deu projeção, mas não foi seu primeiro filme, não é?

Já tinha feito algumas participações, mas foi o primeiro grande papel num filme importante. Na sequência, Fernando Meirelles me indicou para Wes Anderson e fiz A Vida Marinha de Steve Zissou. Não parei mais.

Como o Paraíso Perdido chegou para você?

A Monique (Gardenberg) me enviou o roteiro, que eu nem precisei ler para aceitar. Conheço a Monique desde que estava no Farofa Carioca e ela nos levou para o Free Jazz. Depois, ela me dirigiu num clipe do Gabriel o Pensador. O papel é muito forte, valoriza o talento e a autoestima do negro. Estou dentro.

Essa questão da negritude é muito atual, esteve no Oscar...

... E é muito importante para a gente. Vou fazer agora outro filme sobre o assunto. Lázaro (Ramos) fez o Namíbia no teatro e agora vai fazer no cinema. Foi outro roteiro que nem precisei ler. Lázaro é uma referência como artista e cidadão. E eu quero estar nessa com ele.

Monique me disse que a música brega lhe deu a inspiração, mas a história de Paraíso Perdido liga-se à mitologia grega. Seu personagem, o Teylor, é o mensageiro dos deuses, Hermes...

...Isto é novo para mim. Já estamos terminando e ela nunca me falou, talvez porque, como deixou claro, queria muito que a gente acrescentasse nossas vivências, de todo o elenco, a personagens bem populares. Mas o Teylor realmente costura as outras tramas, unindo personagens.

Você se considera mais ator ou músico?

Sou um trabalhador da arte. As pessoas acham que o músico não tem regras. Aqui, sou parte de uma equipe. É muito bom estar nesse grupo.

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