Misto de game, ópera e gibi, <i>300</i> estréia nos cinemas do País

Em Berlim, a sessão de gala de 300foi tão apoteótica que o público aplaudiu em cena aberta. Aestréia nos EUA foi outro sucesso além da conta e 300 faturouUS$ 140 milhões em duas semanas, com o estímulo, é possível, dadecisão do governo do Irã - com quem os americanos, leia-seGeorge W. Bush, andam em litígio - de proibir o filme de ZachSnyder, considerado ofensivo aos persas pelo tratamento que dáao personagem de Xerxes, interpretado justamente por RodrigoSantoro. 300 estréia nesta sexta-feira, 30, sob o signo da polêmica.Snyder é mesmo ofensivo com a velha Pérsia, império que originouo Irã moderno? Xerxes, que no filme é pronunciado ?Sércsis?, égay ou ?só? ambivalente? São bons temas de discussão, masexistem outros que devem estar na mira do espectador, atraídopelo gigantesco lançamento em mais de 450 salas. Há dois anos, outra abordagem cinematográfica douniverso visual de Frank Miller já havia resultado em Sin City- Cidade do Pecado, que o próprio Miller co-dirigiu com RobertRodriguez, embora seja do último a concepção geral do filme (etambém foi ele quem chamou Quentin Tarantino para dirigir umaparte). Em 2005, a audácia gráfica de Rodriguez/Miller pareciamarcar um novo limite no desenvolvimento tecnológico do cinema.300 estabelece um novo patamar, pelo menos até que outro filmevenha a se constituir em mais um divisor de águas.HQ virou cult A graphic novel de Frank Miller surgiu há menos de dezanos (em 1998) e imediatamente virou cult. Embora o tempodecorrido seja relativamente curto, o mundo mudou no intervalo,em especial após o fatídico 11 de Setembro, em 2001. Face a esseassustador mundo novo, marcado pelo terrorismo, a pergunta quenão quer calar é - por que adaptar 300 no momento em que osEUA estão em guerra, não com o Irã (mas Bush bem que gostaria) esim, com seu vizinho, o Iraque? Esta guerra está setransformando num imbróglio quase tão grande quanto a do Vietnã,nos anos 60/70. A (dupla) questão é - quem são hoje osespartanos? E quem é ?Sércsis?? Será Bush, mas aí os americanosnão serão os mocinhos? No começo dos anos 60, com direção de Rudolph Maté,houve outra versão da batalha das Termópilas, quando 300soldados de Esparta, liderados pelo rei Leônidas, derrotaram oexército muitas vezes superior de Xerxes. O filme que se chamou, no Brasil, Os 300 de Esparta, era interpretado por RichardEgan e se inscrevia no figurino dos épicos mitológicos que ocinema italiano produzia às dezenas. Leônidas não diferia muitodos Hércules, Ursus e Macistes que davam as cartas em Cinecittà,antes que o ciclo se esgotasse e fosse substituído pelo dospaghetti western. Os 300 de Esparta não entrou para a história - emboraa retrate, em chave aventuresca -, mas foi lançado em DVD noPaís e você pode até compará-lo com a versão de Zach Snyder quetoma de assalto um circuito tão grande no País. É o diretor deMadrugada dos Mortos, que fez baseado no cult The Night ofthe Living Dead, de George Romero. O original de 1968concentrava numa trama de terror (e de mortos-vivos) o impasseque a sociedade americana vivia, com uma guerra externa (noVietnã) e outra interna (provocada pela tensão racial). Naversão recente, os mortos-vivos invadem um shopping, pois ZachSnyder sabe que o consumo é o novo deus que rege a sociedadeglobalizada. Snyder sabe tudo de cinema de terror - e de quadrinhos.Seu desafio é portentoso. Como transpor o visual da graphicnovel de Frank Miller para a tela grande? Com muita pós-produção o que significa que 300 teve uma filmagem, digamos, normal, mastudo foi passado por computadores e processos digitais. RodrigoSantoro, por exemplo, representou o tempo todo com um fundo azul Xerxes é um monstro. O próprio Miller o visualizava dessamaneira. Visualizar. É a palavra-chave em 300. É um game, umaópera ou uma história de quadrinhos em movimento? E suaideologia, é ingênua? Seja o que for, 300 é impressionante.300 (EUA/2006, 117 min.) - Épico. Direção de Zack Snyder. 16 anos. Cotação: Bom

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.