Mistério promove "A.I." de Spielberg

Stanley Kubrick conseguiu mais uma vez deixar o mundo todo curioso a respeito de um de seus filmes. Dois anos depois de sua morte, o "mistério kubrickiano" vive na expectativa em torno de A.I., o projeto que planejava havia 20 anos e que foi realizado por Steven Spielberg. A poucos dias da estréia, apenas alguns detalhes começam a aparecer e o diretor faz questão de ressaltar o papel de Kubrick no projeto.Estrelado por Haley Joel Osment (de O Sexto Sentido), William Hurt (de O Beijo da Mulher Aranha) e Jude Law (O Talentoso Ripley), o filme conta a história de David, um menino-robô que é a primeira máquina programada para ter sentimentos humanos reais. A convivência dele com sua família é ameaçada quando os humanos passam a perseguir os robôs em um mundo em que as cidades são alagadas e caóticas. "Os humanos nos fizeram muito espertos, muito rápido e em número muito grande", diz um dos robôs em um trailer de A.I..Com uma estética claramente inspirada em Blade Runner - O Caçador de Andróides, o filme foi baseado livremente em um conto escrito por Brian Aldiss em 1969, chamado Supertoys Last All Summer Long ("superbrinquedos duram o verão inteiro"). Spielberg, que está chamando A.I. de uma "colaboração" entre ele e Kubrick, escreveu o roteiro em cima de um rascunho de 90 páginas, com anotações e desenhos, deixado pelo cineasta de Laranja Mecânica.Os dois já haviam começado a trabalhar juntos no projeto quando Kubrick estava finalizando De Olhos Bem Fechados. O diretor pediu que Spielberg instalasse um fax ao lado de sua cama, para garantir o processo secreto de trabalho. "Acho que ele faria a mesma história que eu, já que me baseei na idéia original dele" disse Spielberg em sua primeira entrevista coletiva para jornalistas do Japão em quase 20 anos, concedida via satélite da Virgínia, onde ele está atualmente rodando Minority Report, com Tom Cruise."Se Stanley estivesse vivo hoje, eu estaria enviando um fax dizendo o quanto eu adorei o filme e o quanto eu estaria me sentindo sortudo de poder assistir a uma história como esta", disse o diretor. Ele também aproveitou para falar sobre a questão do abuso da tecnologia: "Temos que tomar cuidado com o que desejamos e criamos, não podemos querer competir com Deus o tempo todo."A idéia de manter o filme em segredo funcionou bem até agora: a produção chega aos cinemas americanos no dia 29 e, até a semana passada, de acordo com uma pesquisa realizada pela revista Entertainment Weekly, 56% do público nunca tinha ouvido falar em A.I.. A família de Kubrick (seu cunhado, Jan Harlan é o produtor executivo da fita) também está satisfeita com as histórias mirabolantes que têm aparecido na Internet, assim como aconteceu na época de De Olhos Bem Fechados.O mistério em torno de A.I., o envolvimento de Spielberg e a data certa de lançamento (o início do verão e das férias nos Estados Unidos) têm tudo para fazer da produção um dos maiores sucessos do diretor nos últimos tempos. Kubrick, mais uma vez, sabia o que estava fazendo.

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