Mistério de Spielberg estréia nos EUA

Amanhã se desfaz o mistério mais intrincado de Hollywood, desde o segredo que havia em torno de De Olhos Bem Fechados. Não por acaso, um projeto do furtivo Stanley Kubrick. O sigilo atual também tem a ver com Kubrick: é Inteligência Artificial (A.I.), o filme que foi projeto do diretor já nos anos 80, em que ele trabalhou brevemente com Steven Spielberg nos anos 90 e que foi concluído apenas pelo autor de E.T. O filme estréia amanhã nos EUA. Quem já viu, afirma que ele mistura a espécie de ficção científica benévola vista pelos olhos de uma criança ao universo mais sombrio de Kubrick. Inteligência Artificial é ambientado num futuro remoto, meados do século 21, em que o aquecimento global liquidou as cidades litorâneas, e os humanos são servidos por robôs-andróides que prestam serviços como limpar a casa, cuidar das crianças e, o que é um tema insólito num filme de Spielberg, dar satisfação sexual aos seus donos. Jude Law (O Talentoso Ripley) faz um personagem chamado Gigolo Joe, um robô que é visto se encontrando com mulheres solitárias em quartos de hotel e seduzindo-as. O protagonista, David Swinton (Haley Joel Osment, de O Sexto Sentido), é um menino-robô de 11 anos, criado pelos cientistas para suavizar a solidão de casais que não podem ter filhos (o que, na época do filme, só é permitido a poucos casais). David tem a característica especial de poder amar, o que desencadeia os conflitos do enredo. Sem piscar - Osment disse que ele e Spielberg começaram a conversar seis meses antes das filmagens começarem. "Só discutimos sobre os temas do filme", afirmou o jovem ator. "Nunca falamos sobre o trabalho. Esses encontros serviram para que eu me sentisse confortável para fazer perguntas e para fazer sugestões quando começamos a filmar." Como Inteligência Artificial é inspirado em Pinóquio, Spielberg recomendou que Osment lesse o livro de Carlo Collodi e visse o filme de Walt Disney. Mas ele afirmou que as conversas com Spielberg sobre a visão de Kubrick foram mais importantes para ele do que Pinóquio. "Há muito de Kubrick no filme", disse Osment. "Sua influência está em toda parte porque Spielberg trabalhou com as anotações, desenhos e storyboards de Kubrick." Comentou-se que Stanley Kubrick pensava num robô para estrelar o filme. Osment revelou que Spielberg se preocupou muito com sua caracterização: "Ele discutiu comigo quanto David seria mecânico. O que não queríamos é que ele fosse totalmente humano. Antes de começar a interagir com sua família humana, seus movimentos teriam de ser básicos, simples. Aos poucos, ele se torna mais flexível, mais humano." Uma das questões foi o fato de, como robô, David não precisar piscar. Para Osment, isso significou ter de controlar o reflexo de piscar. "Não é uma coisa essencial", disse o ator, "então, pode-se aprender a controlar o ato. No começo foi difícil, mas ficou mais fácil a cada dia." Spielberg escreveu o roteiro em quatro meses e imediatamente acelerou a fase de produção do projeto. E em todos os contratos com atores e técnicos, havia uma cláusula que impedia que fossem divulgados detalhes do filme. "Acho que Inteligência Artificial é um filme para meus filhos, concebido de modo inteiramente diferente do que usava nos meus filmes iniciais e que irá exigir um bocado a mais de tolerância da parte deles, para entenderem algumas coisas que poderão estar além do seu alcance, mas que os ajudará a entender algo do que está por vir e que será mais visceralmente interessante para eles", afirmou Spielberg ao The New York Times.

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