'Missão Impossível' é uma lição sobre o uso de trilhas sonoras no cinema

Efeitos sonoros renderam parcerias inesquecíveis para a história do cinema

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2015 | 12h00

Por volta de 1960, a TV ainda era em preto e branco e ainda engatinhava no Brasil. Nos EUA, os westerns e comédias familiares davam as cartas, Big Valley, Maverick, Bat Masterson, cujo tema musical teve uma versão brasileira – “No Velho Oeste ele nasceu/e entre bravos se criou/seu nome lenda se tornou/ Bát Mastersôn, Bát Mastersôn...” Vieram depois os gângsteres e policiais. Com seu toque habitual de sofisticação, Blake Edwards, ao comandar as séries Mr. Lucky e Peter Gunn, encomendou temas musicais a Henry Mancini, seu grande colaborador no cinema.

Os ‘prefixos’ musicais começaram a fazer história na TV. Impossível pensar nas séries originais Os Intocáveis e Missão Impossível sem os temas que anunciavam a chegada de Ethan Hunt e de Elliott Ness. É interessante que Brian De Palma, cinéfilo de carteirinha tenha transposto as duas séries para o cinema. Em Os Intocáveis, dialogou com o cinema de Sergei M. Eisenstein e recriou, na estação de trens, a célebre sequência da escadaria de Odessa. Em Missão Impossível, o primeiro, Tom Cruise invade o laboratório e o décor branco, antisséptico, reenvia a Stanley Kubrick, 2001.

Os temas não eram mais de Henry Mancini. Foram substituídos pelos acordes jazzísticos de Nelson Riddle e Lalo Schifrin. O que era uma frase musical, pouco mais que um acorde de Riddle, ganhou tratamento sinfônico de Ennio Morricone em Os Intocáveis. Riddle, arranjador de Frank Sinatra, era o nome por trás da trilha de outra série mítica da TV, Rota 66. Danny Elfman, ao retrabalhar o tema de Missão Impossível para De Palma chamou a dupla Adam Clayton e Larry Mullen Jr. do U2, para incrementar o som. Magnífico. É que as trilhas sempre fizeram parte da grandeza de filmes viscerais. Colaborações tornaram-se célebres. Eisenstein e Prokofiev, Alfred Hitchcock e Bernard Herrmann, Federico Fellini (e Luchino Visconti) e Nino Rota, Costa-Gavras e Mikis Theodorakis (em Z, principalmente).

Grandes jazzistas fizeram trilhas que entraram para a história da TV. É curioso, mas hoje em dia, quando tem gente que sustenta que a grande dramaturgia está nas séries - premissa no mínimo discutível - , não em Hollywood, elogia-se tudo, menos as trilhas. Fred Steiner em Perry Mason, Mort Stevens e Hawaii Five-O, Dave Grusin e Morgan Arnes em Baretta, Count Basie em MSquad. E os westerns de Hollywood? Como ingressar no universo de Big Country/Da Terra Nascem os Homens, de William Wyler, sem aqueles acordes de Jerome Moross? E o que seria de Vienna/Joan Crawford, em Johnny Guitar, de Nicholas Ray, sem a trilha de Victor Young?

No western, as baladas, a partir de Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, em 1953, passaram a competir com as trilhas. O prólogo de Sem Lei, sem Alma, de John Sturges, não seria o mesmo sem a balada de Frankie Laine – “OK Corral. OK Corral...” nem A Árvore dos Enforcados, de Delmer Daves, teria aquele clima sem o tema de  Max Steiner e Marty Robbins – “The hanging tree...”

Uma nova aventura de Ethan Hunt está (re)começando.Em Missão Impossível – Nação Secreta, Ethan/Cruise descobre que o tal Sindicato está tentando destruir o IMF, e parte para a confronto. Christopher McQuarrie leva os créditos de roteiro e diretor. McQuarrie é homem de confianoa do astro Cruise. Virou saco de pancada dos críticos, que dizem que ele ‘adapta’ todo filme aos preceitos da igreja de Ron Hubbard da qual Cruise é o garoto-propaganda, a tal Cientologia. Mas revejam Jack Reacher – O Último Tiro.

O filme já era melhor do que a maioria escreveu. E o elenco – Rosamund Pike, Werner Herzog, Jai Courtney  -, excepcional. Só mesmo Tom Cruise, consciente do que representa no imaginário do público, para deixar que outros tenhas papeis mais fortes que ele nos próprios filmes. Em Missão Impossível também é assim. Alguém esquece o vilão Philip Seymour Hoffman do 3? Ouçam os acordes de Lalo Schiffrin, que já foram recriados por Danny Elfman e Michael Giacchino, e agora ressurgem arranjados por Joe Kraemer. Missão Impossível 5 chegou. Mas, claro, se é com Cruise, você sabe que nada é impossível. Depois da escalada do prédio mais alto do mundo no 4, de Brad Bird, o astro pendura-se num avião. A adrenalina é (sempre!) garantida.


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