Leandro Pagliaro/Divulgação
Leandro Pagliaro/Divulgação

'Mise en Scène – A Artesania do Artista' é manifesto em favor da arte

Filme da diretora Manuh Fontes surgiu da necessidade de se falar sobre o processo criativo artístico

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

19 de setembro de 2021 | 05h00

“O filme é um manifesto pela arte”, resumiu a diretora Manuh Fontes sobre seu documentário Mise en Scène – A Artesania do Artista, disponível na Globoplay e que foi exibido no Festival de Cinema Independente de Toronto.

A ideia surgiu de uma conversa com a atriz Maytê Piragibe, que tinha vontade de fazer um filme sobre o processo criativo. O diretor de fotografia Leandro Pagliaro, com quem Fontes havia trabalhado na novela Velho Chico, tinha feito um livro sobre o assunto, chamado O Processo Criativo dos Atores de Dois Irmãos

A própria diretora estava estudando a obra do poeta Rainer Maria Rilke e queria ampliar um pouco o debate, a partir de Cartas do Poeta Sobre a Vida, um guia dividido em temas como morte, vida, natureza, amor e arte. “O que acredito é que, para a arte existir, ela precisa passar por tudo isso. Porque os projetos artísticos nascem, crescem, amadurecem, morrem e nascem de novo”, disse Manuh Fontes em entrevista ao Estadão, por telefone. Seu norte era a frase de Rilke: “Pois arte é infância. Arte significa não saber que o mundo já é, e fazer um”.

Para investigar não somente o processo criativo de artistas como a importância da arte para eles em particular e para o mundo em geral, Manuh Fontes chamou atores com quem já havia trabalhado, porque assim seria mais fácil de entender o universo de cada um e trabalhar os temas sugeridos pelo livro. 

A lista a que ela chegou é mais do que respeitável: Antonio Fagundes, Marco Nanini, Zezé Motta, Cássia Kis, Dira Paes, Gabriel Leone, Bruno Fagundes, Gustavo Miranda, além da própria produtora Maytê Piragibe. Eles falam sobre como eram na infância, as várias maneiras como se expressam, sua relação com seus personagens, com sua imagem e com a morte e sobre o artista como ser político. 

“Eu tinha conhecido a Manuh durante a novela Velho Chico, que foi uma reunião de pessoas muito especiais do Brasil inteiro. Nós tivemos uma grande comunhão artística, e a sensibilidade dessas pessoas já se mostrava no cotidiano ali”, disse Dira Paes em entrevista ao Estadão, por telefone. “Achei uma provocação maravilhosa. Eu vejo o filme como fragmentos dessa arte de interpretar, porque nós somos muito mutantes. É um filme-homenagem a essa disposição de ser o outro – de ser o outro e você também, essa quase esquizofrenia que vivemos quando temos de dar vida a um personagem”, completou a atriz.

Durante três anos, a diretora foi coletando os depoimentos aos poucos, nos intervalos de seus trabalhos, durante a pandemia e a gravidez. Terminou a edição quando estava com um barrigão de nove meses. “Eu acho engrandecedor, ainda mais sendo mulher, dizer que é possível fazer um filme reverberar pelo mundo, tendo dirigido, escrito o roteiro e produzido, ao mesmo tempo que tinha outros trabalhos e estava grávida”, lembrou.

O filme chegou junto com a filha, mas não poderia ter vindo em melhor hora. “Principalmente neste momento, eu acredito que o documentário é um respiro e um sopro de esperança. Falar de arte é falar de algo que está na essência. Acredito muito que todos somos artistas por vocação, independentemente da profissão”, afirmou Fontes. “A Cássia Kis diz em seu depoimento que a arte é beleza. E nós vemos beleza nas coisas, no simples, no dia a dia.”

Dira Paes está convicta de que é impossível um ser humano viver sem arte. “Socialmente somos artistas. E precisamos da arte como elemento que aguça a sensibilidade. Sem sensibilidade, não há como usufruir das funções básicas do nosso corpo humano, da nossa mente humana e da nossa alma humana. É preciso cultuar a sensibilidade.” Um menino arteiro está fazendo arte. Uma comida gostosa é arte. “Existe o pão que nos alimenta, a educação que nos forma, a vacina que nos protege, e existe a arte que é a possibilidade de nos fazer seres livres”, disse Dira Paes. “Nós temos ouvido o mantra das nossas necessidades básicas, e a arte estaria aí como um dos elementos essenciais. Não só para sobreviver, mas para ser feliz.”

E, sendo fundamental para o indivíduo, acreditam as duas, a arte também é fundamental para um país. “Estamos vivendo um momento complexo para a cultura brasileira, com uma falta de incentivo enorme, uma falta de respeito com os artistas, uma falta de reconhecimento. Temos um país riquíssimo culturalmente, então ressaltar a importância da arte neste momento é fundamental. E dar voz aos artistas, não só do filme, e que representam o Brasil, mas aos artistas que existem dentro de nós”, acrescentou Manuh Fontes. “Um país sem cultura é um país sem alma, sem memória.” 

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