Minúsculo Homem-Formiga cativa pela trama de paternidade

Minúsculo Homem-Formiga cativa pela trama de paternidade

A piada do filme é dotar o herói liliputiano de superpoderes - e isso o longa faz, e bem

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2015 | 04h00

Pode-se começar falando de Homem-Formiga pelo fim. Com uma advertência – quando começarem os créditos, não faça como sempre costuma ocorrer. O público levanta-se e sai correndo das salas. Dessa vez, é bom ficar. Existem duas cenas adicionais durante os créditos. São elas que, verdadeiramente, fecham a história – ou, na verdade, a reabrem. Homem-Formiga já surge com a promessa de uma continuação. Naturalmente que ela depende da bilheteria, mas você pode apostar que teremos, sim, Homem-Formiga 2, 3... A publicidade anuncia – Você nunca viu maior herói que esse. E, naturalmente, trata-se de uma brincadeira, porque o ‘descomunal’, o imensurável Homem-Formiga é só isso mesmo, uma formiguinha no uniforme do Homem de Ferro. A piada do filme é dotar o herói liliputiano de superpoderes. E isso o filme faz, e bem.

Mas teve uma produção tumultuada. Edgar Wright acumulava diversas funções – produtor, roteirista, diretor. Por incompatibilidade criativa, a Marvel exonerou-o da última, mas manteve os créditos de roteirista e produtor associado. Para apagar o incêndio, Peyton Reed foi chamado para assumir a direção. Peyton quem? Você sabe. Ele dirigiu comédias familiares como Sim, Senhor, com Jim Carrey e Zooey Deschanel. E assume agora a função de contar a história do Ant Man. O filme pertence à nova geração dos heróis da Marvel. Esquisito como qualquer guardião da galáxia, é totalmente referencial. O tempo todo fala-se dos Vingadores, da S.H.I.E.L.D e até de filmes como o Titanic de James Cameron.

Tudo isso compõe, digamos, um quadro. Fornece um charme. Mas a história mesmo é de paternidade. Paul Rudd veste o uniforme do Homem-Formiga, e você sabe (o filme explica) que a capacidade de aumentar e diminuir de tamanho, incorporando poderes, está ligada aos experimentos do cientista Michael Douglas (Hank Pym) com átomos. Ele desenvolveu um método de alterar a distância entre os átomos e isso leva à variação de tamanho. Ela é perigosa – depende de um uniforme, e de um capacete, que vai neutralizar os efeitos lesivos dessa compressão/elasticidade no cérebro. Na abertura do filme, o jovem Michael Douglas descobre que empresários mal-intencionados querem se apossar de sua fórmula. Abandona a empresa e se isola. Corte para os dias atuais. Scott Lang/Paul Rudd está preso por ter bancado o Robin Hood, violando códigos de segurança de um conglomerado para devolver dinheiro roubado aos pobres.

Justamente essa sua habilidade de ladrão o leva a ser convocado por Douglas para violar os códigos de segurança da antiga firma – na qual ainda trabalha sua filha, aparentemente associada ao vilão que prossegue com as pesquisas de Douglas, mas precisa do uniforme (do capacete) do seu Homem-Formiga. Tal é a trama geral – Rudd, transformado em Homem-Formiga, precisa roubar algo vital do laboratório do vilão. E o vilão precisa roubar seu uniforme. Só que o uniforme não explica todos os poderes de Rudd. Ele consegue se comunicar com as formigas, inclusive voadoras, e elas formam um exército a seu serviço. Formigas não são individualistas. Trabalham em grupo. Por mais que iniciativas individuais sejam necessárias e bem-vindas em momentos pontuais de Homem-Formiga, a força do filme está no coletivo. Num mundo cada vez mais individualista, a força da Marvel está na celebração do coletivo – dos Vingadores à união de Rudd, Douglas, Evangeline Lilly (a filha) e as formigas.

Existem reforços adicionais, como os três patetas (latinos), todos, como Rudd, saídos da cadeia e que se incorporam ao grupo e viram mocinhos. Lutam contra o mundo do capital e o establishment militar que só pensa em transformar pesquisas em armamentos e se apossar deles. O cartaz com o minúsculo Homem-Formiga montado no Homem de Ferro não é mera coincidência. Todos conhecemos o alter ego do Iron Man – Tony Stark. Tudo isso incrementa a história, mas o tema, a tragédia do filme, é familiar. Passa pelo desejo de Rudd de se converter, aos olhos da filha pequena, no herói que ela pensa que ele é, e no de Douglas de também recuperar a estima de Lilly. A aventura é legal, os efeitos, ótimos, e o elenco cria empatia. O Homem-Formiga é grande diversão. Só tem um problema, que para um popcorn movie, um filme pipoca, nem é problema. Tem gente que duvida da transcendência de super-heróis como o Batman de Christopher Nolan, do Superman de Zach Snyder. O Homem-Formiga não tem a ambição cósmica que anima alguns de seus predecessores – As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e O Incrível Homem que Encolheu, de Jack Arnold.

Mais conteúdo sobre:
homem-formigacinemamarvel

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.