"Minority Report": o futuro sob a ótica de Spielberg

Há anos Philip K. Dick dedicou-se aantecipar o futuro, fornecendo matéria-prima aos diretores queusam a ficção científica para projetar à frente, no tempo,preocupações que são de aqui e agora, em relação à organizaçãosocial e política e ao papel do indivíduo face à máquinarepressora do Estado. Filmes como Blade Runner, o Caçador deAndróides, de Ridley Scott, e O Vingador do Futuro, dePaul Verhoeven, mostraram a viabilidade desse casamento entre oque Dick escreveu e o que diretores visionários colocaram natela. Chega agora a vez de Steven Spielberg. Ele também sebaseou no escritor para fazer Minority Report - A Nova Lei,que estréia amanhã em 300 salas de todo o País.Tratando-se de Spielberg, o diretor que melhorrepresenta o que Hollywood virou, em termos de marketingcultural e artístico, é claro que uma imensa expectativa cercaesse lançamento. Spielberg é um daqueles diretores que até omais desligado espectador de cinema identifica pelo nome. Poisbem, spielbergmaníacos: há uma boa e uma má notícia. A boanotícia é que Minority Report é mais kubrickiano e menossentimental do que o insuportavelmente longo A.I. -Inteligência Artificial, quando Spielberg adaptou a históriaque Stanley Kubrick desistiu de filmar. A má é que MinorityReport investe numa linha de simplificação dramática própriado cinemão, com sua estética rasteira de causa-e-efeito.Minority Report se passa em Washington, em2054, daqui a pouco mais de meio século. No futuro descrito porDick e filmado por Spielberg, o crime foi erradicado, já queexiste uma divisão da polícia sugestivamente chamada depré-crime. Por meio das previsões de três superdotados - osprecogs, um casal de gêmeos e uma garota, todos filhos deviciados -, a divisão, à qual pertence o personagem de TomCruise, consegue antecipar o dia, a hora e até o local em que ocrime será cometido. Por meio de uma corrida contra o tempo, ospoliciais do futuro conseguem abortar a ação criminosa, comoocorre logo no começo, quando um homem dispõe-se a matar amulher adúltera e o amante com quem ela está na cama.O problema moral do sistema é que ele pune as pessoaspelo crime de intenção. Elas não são presas pelo crime quecometeram, mas pelo que queriam cometer, como o Montgomery Cliftdo clássico de George Stevens, Um Lugar ao Sol. Entre aintenção e o resultado, há uma linha tênue que, às vezes, não éultrapassada - e não é justamente pelo personagem de Cruise, oherói da história, quando, graças a uma maquinação paraafastá-lo da divisão, passa a ser perseguido pela intenção dematar. Tudo isso é muito perturbador e o desfecho vem por meiode uma cena em que o vilão - há sempre um vilão no cinemaamericano de ação - é confrontado com a mesma possibilidade deescolha de Cruise, levando ao desfecho apaziguador.Há, digamos, uma intenção de complexidade em MinorityReport, na medida em que o filme discute questões queinteressam a qualquer pessoa preocupada com a escalada daviolência urbana. Mas essa complexidade entra em choque com asimplificação dos códigos hollywoodianos. Assim, cria-se logo desaída um antagonismo entre os personagens de Cruise e ColinFarrell, o jovem procurador que chega para investigar as falhasdo sistema de prevenção ao crime, no fundo para assumir o lugarde Cruise. Farrell cria um personagem com o qual o espectador élevado a antipatizar. Masca neuroticamente, obsessivamente umchiclete. Parece um detalhe irrelevante, mas não é. É por meiodele que Spielberg trabalha as diferenças entre os dois e apontapara uma linha que não é a verdadeira em Minority Report, jáque... É melhor não antecipar, para não tirar a graça donumeroso público que, com certeza, correrá aos cinemas no fim desemana para ver o filme.Assim como investe menos no sentimentalismo, Spielbergtenta dar densidade ao conflito vivido pelo personagem deCruise. Ele sofre duplamente, com a perda do filho e com aseparação da mulher. Ela diz, lá pelas tantas, que se separouporque não agüentava olhar para o marido sem deixar deassociá-lo à figura do filho. O próprio Cruise, dilacerado pelaculpa, droga-se para suportar a dor dessa perda pela qual sesente responsável. Foi sua falha, um momento de distração, quelevou à morte do filho. Na impossibilidade de tê-lo de volta,ele tenta impedir que novos crimes sejam cometidos. O problemasurge quando os precogs antecipam o crime que ele cometerá. Nãoresta ao personagem senão seqüestrar a mais hábil das precogs,na expectativa de tentar decifrar o que não deixa de ser umaarmação para induzi-lo ao crime.Lang e Hitchcock - Como representação do mundo futuro,Minority Report é impressionante. Ridley Scott radicalizou ovisionarismo de Fritz Lang, fazendo da cidade de Blade Runneruma Metropolis ampliada e, num certo sentido, ainda maiscaótica. Spielberg reuniu especialistas de diversas áreas paratentar entender como seria esse futuro. Criou um universo deprédios, rodovias e engenhocas voadoras, que existem tanto comomaquetes quanto efeitos digitalizados. Não surpreende que ocusto de Minority Report tenha ultrapassado os astronômicosUS$ 100 milhões (ao câmbio atual, quase R$ 400 milhões, dinheirosuficiente para financiar a produção de filmes brasileirosdurante anos).Os inimigos do cinema brasileiro ficarão arrepiados aessa simples menção, porque eles querem mais é que Spielberggaste US$ 200 milhões por filme e que o cinema do País depreferência deixe de existir, para que eles possam ver só essesvertiginosos exercícios de tecnologia aos quais a produçãonacional não está habilitada. Enfim, essa é uma discussãocomplexa - mais complexa que Minority Report consegue ser aodiscutir temas como crime e castigo e responsabilidade moral. Ocurioso é que Spielberg, talvez tocado por sua experiênciakubrickiana, tenta aproximar-se das concepções do gênio de2001, Uma Odisséia no Espaço. Há um tema do olho emMinority Report, que evoca Kubrick. Há mesmo uma citaçãodireta de A Laranja Mecânica, quando garras metálicasescancaram os olhos de Cruise, como Kubrick fazia com o Alex deseu filme, interpretado por Malcolm McDowell.Olhos que tudo vêem, olhos que não conseguem fechar-se.São muitas as referências a Kubrick em Minority Report, maselas são contraditas pela iluminação diluída, repleta de filtros- as cenas do shopping parecem filmadas em flou -, em totaldesacordo com o estilo de iluminar do diretor de fantasiasfuturistas como A Laranja e 2001. Há mais referências e nãoapenas cinematográficas. Os precogs possuem nomes quehomenageiam grandes autores de narrativas policiais - AgathaChristie, Dashiell Hammett e Arthur Conan Doyle -, mesmo que amania de Spielberg de entregar tudo mastigado ao espectadorimpossibilite a criação de um clima verdadeiramente angustiantede suspense. Justamente o suspense. Essa palavra, esse clima, éindesligável da experiência cinematográfica de um certo, eimenso, Alfred Hitchcock. Spielberg também homenageia Hitchcockna cena dos guarda-chuvas. Nada disso faz de Minority Reportum filme fundamental, mas ajuda, ocasionalmente, a torná-lomenos aborrecido.

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