Pagu Pictures
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‘Minha Irmã de Paris’ e o dilema da produção: ser autoral ou comercial?

Produção francesa traz Mathilde Seigner interpretando uma dupla de irmãs gêmeas; uma delas precisa substituir a outra em um filme em andamento

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 de janeiro de 2020 | 06h00

Sucesso na França, a série da Netflix Dix pour Cent, ou Call My Agent – título internacional –, cativou as plateias do país e até do exterior com sua visão dos bastidores da indústria do audiovisual. Astros e estrelas, atores e seus agentes, como é o dia a dia dessas pessoas que parecem viver num mundo à parte? Dix pour Cent com toda certeza foi uma das fontes de inspiração de diretora e roteirista Anne Giafferi para sua comédia Minha Irmã de Paris, em cartaz nos cinemas desde as últimas semanas de 2019.

Anne começou como roteirista de séries. Petits Meurtres en Famille, Fais pas Ci Fais pas Ça, Os Pequenos Crimes de Agatha Christie. Anne adora confrontar a classe média francesa com sua poção sombria, o lado hipócrita que as pessoas tentam esconder (dos outros e delas mesmas). Mas trata o tema pesado como comédias ligeira. O público diverte-se, as emissões apresentam números legais, mesmo que não sejam estouros.

No cinema, ela tenta ir um pouco mais longe. Qui a Envie d’Être Aimé? e poderia ser também seu contrário – Quem não Quer ser Amado(a)?, Amor ao Primeiro Filho e Minha Irmã de Paris. Ela gosta de brincar com os sentimentos, com as relações familiares – outra de suas séries chama-se Irmãos e Irmãs. Irmãs, no caso, interpretadas pela mesma atriz, Mathilde Seigner. Mathilde é irmã de Emmanuelle Seigner, a mulher de Roman Polanski que começou limitada nos filmes do marido e foi ganhando cada vez papéis maiores e melhores. Correspondendo, Emmanuelle conseguiu se impor. De alguma forma conseguiu ofuscar Mathilde, que antes dispunha de mais projeção. Anne oferece agora um ótimo duplo papel a Mathilde. Ela faz uma estrela de cinema e sua irmã gêmea, uma cabeleireira interiorana. Vivem em mundos à parte, existências paralelas. Anne não tem medo do estereótipo. A estrela de cinema faz filmes cabeça e é temperamental. Vive à beira de um ataque de nervos. A cabeleireira, mais simplória, vive de bem com a vida, e o mundo. Seu instituto é uma festa permanente.

No que não deixa de ser uma crítica de Anne Giafferi à indústria do cinema, que valoriza gente jovem e bonita – e discrimina as atrizes maduras, para quem faltam papéis –, Mathilde estrela começa a sobrar na escalação de agentes e produtores. Ela segue, na ficção, o figurino que muitas atrizes reproduzem na realidade. Aplica botox para tentar rejuvenescer. Como ocorre algumas vezes, talvez com certa frequência, a aplicação não dá muito certo. Mathilde, a personagem chama-se Julie, torna-se irreconhecível, e com um filme em andamento.

A solução, em desespero de causa, é chamar a irmã, Laurette, para substituí-la. Entra em cena Mathilde 2, um amor de pessoa. Enquanto a irmã infernizava a vida de todo o mundo, no set, ela é solidária, tem sempre uma palavra amiga de apoio. Adora rir. O drama vira comédia, o set fica mais leve. A felicidade existe, claro que por pouco tempo. A irmã megera volta, e agora?

Pegando carona na série que Anne Giaffieri fez para TV, sobre os pequenos crimes de Agatha Christie, uma solução seria fazer Minha Irmã de Paris incursionar pelo território da dama do mistério. Um assassinato, quem sabe? Seria outro filme, mais virulento do que esse em cartaz. É o problema de Minha Irmã de Paris, que parece não ter outro objetivo senão ser superficialmente satisfatório. O conflito entre as irmãs é tênue, as relações com agente e diretor – como em Dix pour Cent – se fazem presentes, mas também para incrementar o humor, não como a própria razão de ser (desmistificadora) da dramaturgia. O resultado é aquilo que se chama de previsível. Não precisa nem de spoiler. O que você imagina, vai ocorrer.

Pode-se, de qualquer maneira, fazer, a partir desse filme, uma espécie de radiografia do cinema francês. Houve grandes filmes autorais, e o maior deles foi um Jean-Luc Godard que havia concorrido em Cannes, no ano passado. Le Livre d’Image estreou no Brasil como Imagem e Palavra. Outra colagem, como Godard gosta de fazer. Imagens de arquivo, e de outros filmes, ressignificadas, para que ele possa refletir sobre a guerra, o mundo árabe e o próprio cinema. Dividido em partes, o filme encerra-se gloriosamente – L’eternel espoir, a eterna esperança.

Godard, batendo nos 90 anos – mas vai completar somente em dezembro de 2020 –, permanece como relíquia da Nouvelle Vague.

Contemporânea dele. Agnès Varda, também nonagenária, morreu em março de 2019, depois de colher, com Visages, Villages, um dos maiores êxitos de público e crítica de sua carreira. Entre os novos talentos, Cannes, no ano passado, celebrou o poderoso Os Miseráveis, do cineasta francês de origem maliana, Ladj Ly. O filme, na vertente de Parasita, Bacurau e Coringa, inscreve-se na revolta dos excluídos que varreu as telas e se impôs como tendência internacional no ano que passou. Les Misérables concorre no Globo de Ouro de filme internacional no domingo, 5.

Com certeza estará entre os indicados quando a Academia divulgar a lista, no dia 13. Retrato de Uma Mulher em Chamas, de Céline Sciamma, com Adèle Haenel, também já fez sensação – em Cannes e no Mix Brasil. A par desse grande cinema, há uma produção francesa mais palatável – anódina? Nem por isso metalinguagem de Minha Irmã de Paris deixa de ter certo charme.

Veja o trailer de Minha Irmã de Paris:

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