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Mina Shum faz sua jornada de descoberta em 'Meditation Park'

A autora sino-canadense toca o público com o belo filme inspirado em um caso de adultério

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2019 | 03h00

Mina Shum é a primeira a admitir – usando uma metáfora feminina – que o parto de Meditation Park talvez tenha sido fácil demais. “Eu já devia carregar esse filme há muito tempo dentro de mim, mais tempo do que poderia admitir. Demorei apenas um mês para escrever o roteiro e 18 dias para filmar. Tudo bem que eu tinha um elenco excepcional, mas tudo e todos se encaixavam tão bem que... Não sei. Virou uma necessidade de todo mundo fazer esse filme. E o mais importante é que essa necessidade não era só nossa. Meditation Park foi o filme canadense independente de maior bilheteria em 2017. Ou seja, havia um público numeroso esperando pelo que lhe oferecemos.”

No Brasil, ou em São Paulo, não tem sido diferente. Em cartaz no Reserva, Meditation Park tem atraído numerosas plateias de mulheres, e de uma certa idade. Tem a ver com o espírito do próprio filme. Ao repórter, numa entrevista por telefone, Mina Shum disse que se inspirou num ditado cantonês que ouviu a vida inteira, meio sussurrado, como um segredo. “O gato arranjou um novo peixe.” Era a forma como, na sua comunidade sino-canadense, a mãe e as amigas relatavam casos de adultério. O gato era o homem que arranjava uma amante mais nova. Mina não se lembra de haver enfrentado esse problema em casa, mas inspirou-se na mãe para tecer o drama de Meditation Park. Na ficção, Maria, de 60 anos, descobre o adultério do marido, e desmonta-se. Passa a buscar o próprio caminho.

“Maria tem muito de minha mãe, que sempre viveu para o marido e os filhos. Sempre quis contar as histórias dessas mulheres que, de certa forma, abriram mão do seu poder. Hoje, a gente fala muito na luta das mulheres, em mulheres empoderadas, etc. Desde cedo fui estimulada a buscar uma carreira. Converso muito com Sandra, sobre isso. É uma coisa geracional.”

Sandra Oh é atriz no elenco de Mina Shum. “Sandra é amiga e colaboradora faz tempo. Começamos junto e sempre tive um enorme respeito por sua beleza e talento. Pensávamos que talvez essa história não tivesse significado para muita gente, mas era para nossas mães. As mulheres invisíveis, que sempre viveram à sombra, e que, um dia, como Maria, resolvem brilhar.” Shine a light. Maria lança-se no que não deixa de ser uma jornada de descoberta. É interpretada por uma lenda do cinema de artes marciais, Cheng Pei-Pei. “Cheng fez filmes como O Tigre e o Dragão (o clássico de Ang Lee). Para ela, esse papel foi uma mudança e tanto, mas ela soube expressar na tela esse momento de confusão na vida de Maria e a sua necessidade de se reinventar.”

Maria, literalmente, vai para a rua vender tickets de estacionamento. “Para mim, é uma jornada shakespeariana – ser ou não ser? Maria vive esse momento em que está dividida entre suas necessidades e o que a sociedade espera dela. Tive esse insight um dia em que estava no carro com minha mãe e minha irmã. Ela viu essas mulheres que vendiam tickets e disse o tal provérbio do Cantão, sobre o gato e seu novo peixe. Passou-se muito tempo até que a ficha caísse e essa história se tornasse necessária para mim. Agora, posso dizer que o tempo conspirou a favor, porque além de Sandra (Oh) e Cheng (Pei-Pei), fazendo mãe e filha, tive o privilégio de contar com Tzi Ma no papel do pai. Esse homem é uma lenda. Como ‘Hong Kong american’, marcou presença em numerosos filmes e séries, feitos no Oriente e nos EUA. Você escreve o personagem, mas ele só ganha vida quando os atores o tiram do papel. Foi apaixonante ver esse elenco insuflar de drama e humor as cenas e os diálogos que você imaginou.”

Mina tem ganho reconhecimento por filmes como Os Dois Lados da Felicidade e Vida Longa e Prosperidade. “Nunca tenho muita consciência sobre por que quero contar uma história, e não outra, mas acho que o que dá sentido a todos os meus filmes e personagens é essa certeza de que a vida é uma só, e temos de vivê-la com intensidade. Como oriental, sempre fui levada a acreditar na reencarnação, nas vidas passadas e futuras, mas a verdade é que, hoje, sou eu contando a história de Maria e amanhã posso voltar com um gato. Mesmo que volte como outra pessoa, não serei eu, nesse momento particular de nossas vidas, da sua e da minha, conversando nesse instante. Cada momento é único, e precisamos saber disso para não desperdiçar nossas vidas.” 

Mina Shum conta que nunca recebeu tantos e-mails nem comentários nas redes sociais como por esse filme. “Pei-Pei disse uma coisa linda, que deveríamos libertar todas as Marias para fazer desse mundo um lugar melhor.”

A diretora rodou o filme na comunidade em que vive, misturando atores com vizinhos em participações como figurantes. “Era todo mundo tão integrado que meu filho veio me perguntar se poderia vender tickets também? E se poderia abandonar a escola para fazê-lo? Como mãe, eu quero mais que ele estude, que adquira cultura, mas não pelo que isso possa representar como possibilidade de acumulação de dinheiro. Penso sempre na troca. Eu sou produto de uma grande troca, na medida em que carrego a ascendência oriental num país desenvolvido do Ocidente. Vou apoiar tudo o que meu filho quiser fazer para ser um homem melhor. O filme é sobre isso. O que nos faz amadurecer e crescer, e não faz mal que seja da perspectiva de uma mulher de 60 anos.”

 

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