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Militância indie

'O Militante' tem seu autor, mas também a marca do produtor Lisandro Alonso

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h14

Para o cinéfilo de carteirinha, a grande credencial de O Militante é um nome na ficha técnica do filme que você poderá resgatar hoje, na repescagem da Mostra. Embora seja uruguaio, e assinado por Manolo Nieto, O Militante é produzido por Lisandro Alonso. Portenho - nasceu em Buenos Aires, em 1975 -, Alonso tornou-se talvez o mais exigente autor de sua geração e uma alternativa muito interessante a Lucrecia Martel no cinema argentino mais independente. Dirigiu quatro filmes desde La Libertad, em 2001. Quem frequenta festivais internacionais - e a Mostra -, teve oportunidade de ver Los Muertos, Fantasma e Liverpool. O novo longa de Alonso, previsto para o ano que vem, é interpretado por Viggo Mortensen como um estrangeiro que participa da 'campanha do deserto', contra os índios, no século 19, e depois se perde com a filha na extensão desolada.

Todos os filmes de Alonso se apoiam num ritmo mais intimista e emocional - Lucrecia seria mais 'racional', digamos assim. Vale falar do produtor porque sua personalidade também se reflete no filme de Manolo Nieto. O Militante chama-se El Lugar del Hijo, no original, e é disso que trata - um filho busca seu lugar no mundo, após a morte do pai. Universitário, ele milita no movimento estudantil, mas é obrigado a deixar a cidade grande para atender a um acontecimento de foro íntimo. A morte do pai o leva a Salto, no interior do Uruguai, e ele se vê no meio de uma disputa. Herdou uma casa na pequena cidade e uma fazenda em ruínas. Na casa, vive a companheira do pai. Na fazenda, os 'gauchos' colocam o citadino à prova, e o problema é que Ariel, o protagonista - interpretado por Felipe Dieste -, caminha com certa dificuldade e também é meio enrolado para falar.

Tudo isso faz dele um outsider nesse novo meio no qual se encontra, mas Manolo Nieto, à maneira de Lisandro Alonso, não trabalha no registro da simplificação. O militante, na verdade, é deslocado lá (na cidade) como cá (no campo). A privação do pai aumenta essa sensação de que existem camadas nessa busca que ele faz por seu lugar no mundo. Talvez seja o próprio diretor a procurar um lugar. Nascido no Uruguai, em 1972 - é um pouco mais velho que Lisandro Alonso -, ele assinou seu primeiro longa, La Perrera, em 2006, como Manuel Dias Zas. Não deixa de ser motivo de especulação psicológica como Manuel Dias virou Manolo Nieto.

Como o cinema argentino que agrada às plateias brasileiras, o uruguaio é, essencialmente, um cinema urbano, centrado na pauperização da classe média. O Militante introduz o que talvez não seja novidade - o elemento rural -, até porque O Banheiro do Papa, de César Charlone, também se passava na periferia do Uruguai, um país que já é periférico (por mais manchetes que lhe garanta seu atual presidente, tão idoso quanto progressista e carismático). A paisagem de O Militante introduz algo novo no imaginário do espectador brasileiro que tem sido invadido pela produção uruguaia, nos últimos anos. O filme foi muito bem recebido no Festival de Toronto, onde foi sua estreia mundial. O ator Dieste recebeu verdadeira consagração. O Militante também ganhou uma menção da crítica na Mostra, dividida com Lições de Harmonia, de Emir Baigazin, do Casaquistão. La Jaula de Oro, outro filme latino, de Diego Quemada-Díez - do México -, venceu o prêmio e o curioso é que houve uma inversão em relação aos prêmios do júri internacional. Lições de Harmonia foi o vencedor do Troféu Bandeira Paulista e La Jaula ganhou menção honrosa.

PROGRAMAÇÃO

Cinesesc (Rua Augusta, 2.075, telefone 3087-0500)

15 h – Mundial – As Maiores Apostas, de Michalz Bielanski

17 h – Estação Liberdade, de Caito Ortiz

18h50 – O Militante, de Manolo Nieto

21 h – Somos o que Somos, de Jim Mickle

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