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Milionário debate 'A Estrada da Vida' na retrospectiva de Nelson Pereira dos Santos

O resgate da música sertaneja de raiz marcou um momento importante do diretor, pouco compreendido em 1980; mostra ocorre no IMS São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de junho de 2019 | 12h30

Haverá neste sábado, 8, um programa muito especial no IMS, na Av. Paulista, que apresenta a retrospectiva de Nelson Pereira dos Santos, o grande diretor brasileiro que morreu em abril do ano passado. Às 16h30, será exibido A Estrada da Vida, seguido de debate com o cantor sertanejo Milionário, a produtora Dora Sverner e José Raimundo, empresário da dupla Milionário e Zé Rico. Foram necessários quase 40 anos – o filme é de 1980 -, mas A Estrada da Vida está sendo, enfim, resgatado, como o filme importante que é. Mestre Nelson nunca considerou-o uma obra menor. Sabia o passo que estava dando em sua filmografia. A crítica é que torceu o nariz.

Contextualizando – o objetivo dos autores do Cinema Novo sempre foi colocar o povo brasileiro na tela. A Estética da fome foi a ferramenta que o próprio Nelson utilizou para fazer, em 1963, Vidas Secas, sua primeira adaptação de Graciliano Ramos. Vinte anos depois – na verdade, 21 -, veio a outra, Memórias do Cárcere. Ambos os filmes foram premiados em Cannes. No intervalo, e para fugir à pressão da censura do regime militar, Nelson refugiara-se em Paraty para a sua fase tropico (de tropicalista)-alegórica, com filmes como Azyllo Muito Louco e Meu Nome É Beta. Ambos foram precedidos, em 1968, pelo poema revolucionário Fome de Amor, que também foi um tanto incompreendido na época.

Era uma fase em que os críticos reclamavam – o Cinema Novo colocava o povo na tela, mas não enchia cinemas. Afugentava o público. Foi então que, em 1974, Nelson iniciou outra fase, que se poderia defginir como 'gramsciana', a dos filmes nacional-populares. O Amuleto de Ogum foi seguido pela primeira adaptação de Jorge Amado feita pelo cineasta, em 1977, Tenda dos Milagres - houve outra, dez anos mais tarde, a de Jubiabá. Entre elas surgiram A Estrada da Vida, o curta Missa do Galo – que o IMS também apresenta neste sábado à tarde, às 15 h – e o premiado Memórias do Cárcere. No fim dos anos 1970, Nelson dera-se conta de um fenômeno que estava ocorrendo no País, a música sertaneja tornara-se “um dado cultural importantíssimo, pela quantidade de pessoas que movia, pela tradição e a história que carregava”, conforme declarou, numa entrevista em 2012, à revista Arte Brasileira.

Com a dupla Milionário e Zé Rico, ele fez A Estrada da Vida, e embora o filme talvez seja irregular, possui duas cenas antológicas. Nelson olha o artista como trabalhador. Milionário e Zé Rico, fazendo trabalhadores da construção civil, trabalham numa loja quando ouvem seu primeiro disco. Era a fase em que a música, mesmo sonhada, ainda era um bico para eles. A outra é o despertar de São Paulo na madrugada, quando a massa humilde se movimenta da periferia para os locais de trabalho. É uma cena que, em si, daria um curta, lindamente filmada e montada. Com o recuo do tempo, esse interesse de Nelson pela música sertaneja e pelo artista brasileiro estava retratando outra coisa que ele, como cidadão, percebeu – em fevereiro de 1980, após as greves do ABC, terminaria por surgir o Partido dos Trabalhadores, que colocaria, após diversas tentativas, um metalúrgico na presidência do Brasil.

Apesar da popularidade da dupla, A Estrada da Vida não fez, nem de longe, o sucesso alcançado, nos anos 2000, por Breno Silveira, quando fez Dois Filhos de Francisco, sobre outra dupla. Zezé Di Camargo e Luciano fazem a grande apoteose de seu filme cantando É o Amor. Milionário e Zé Rico cantam a adversidade, a dureza – Nesta longa estrada da vida/vou correndo e não posso parar/na esperança de ser campeão/alcançando o primeiro lugar. Zé Rico morreu em 2015, mas a mensagem foi captada até na China, onde ambos se apresentaram. Como remanescente da dupla, Milionário poderá lembrar tudo isso. E mais – Nelson descobriu Jofre Soares e Maria Ribeiro para o cinema, ao escalá-los para fazer Vidas Secas. Ele, um-marinheiro, era palhaço de circo e fazia teatro amador. Maria Ribeiro, homônima da atriz de Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, era técnica nos laboratórios Líder, quando Nelson viu nela a sua Siá Vitória. Milionário poderá ajudar a desvendar o mistério sobre como ele conseguia ser tão bom com não atores. Neste sábado, o cinéfilo já sabe – o IMS é o point.

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