Miles Davis assina a trilha do filme

Foi o primeiro filme que Louis Malle dirigiu sozinho. Antes de Ascensor para o Cadafalso ele co-dirigira o documentário O Mundo do Silêncio, com Jacques Yves Cousteau, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Malle tinha um carinho todo especial por Ascensor e não apenas por ser sua primeira ficção. Adorava o fato de ter criado uma trama criminal, adaptada de um livro em que a personagem de Jeanne Moreau quase não existia, em torno de um casal de amantes que só se encontra no fim, numa foto.Malle dizia que tentou fazer a síntese de Robert Bresson com Alfred Hitchcock. A filiação a Hitchcock vem pela via do policial. Bresson, que Malle considerava o maior diretor do mundo, é citado nas cenas em que Maurice Ronet tenta sair do elevador, no qual ficou preso. É uma referência explícita ao bressoniano Um Condenado à Morte Escapou. Mas o que o diretor gostava de destacar era mesmo a importância da música em seu filme. Miles Davis compôs uma partitura que não dura mais do que 18 minutos corridos. São fundamentais. O filme não seria a mesma coisa sem esse comentário jazzístico. Cabe destacar que o filme é de 1957 e, naquela época, as trilhas com os grandes nomes do jazz não eram freqüentes em Hollywood. O jazz aparecia aqui e ali, mas só depois Robert Wise, com Quero Viver!, e Otto Preminger, com Anatomia de um Crime, recorreram a Johnny Mandel e a Duke Ellington para fazer do jazz o suporte dramático de suas narrativas.Paris, nos anos 50, vivia a sua era do jazz. Malle gostava tanto de Miles Davis que colocou a capa de um disco dele no apartamento da namorada de um dos jovens transviados (que eram chamados de blousons noirs na França). Por acaso, o músico foi apresentar-se em Paris. Por meio do escritor Boris Vian, Malle aproximou-se dele, tentando cooptá-lo. No começo, Davis foi reticente. Estava em Paris para duas semanas de shows, apresentando-se sozinho, sem seus músicos. O diretor mostrou-lhe o filme montado, mas ainda sem música. Davis topou e a trilha foi gravada numa única noite, num estúdio parisiense. Talvez seja a única trilha, em toda a história do cinema, inteiramente improvisada. Pois foi o que Davis fez. Em cima das imagens de Malle, ele improvisou com seu trompete mágico. Criou a moldura musical perfeita para as andanças noturnas de Jeanne Moreau.

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