"Milagre em Juazeiro" desafia unanimidade de Padre Cícero

Além de entrar em cartaz no circuito normal, em duas salas da cidade, Milagre em Juazeiro, filme de estréia do cearense Wolney Oliveira, será exibido amanhã ao ar livre (às 20h) no Sesc Santo Amaro. Wolney, de 41 anos, tinha 25 quando tomou contato com o universo religioso de Cícero Romão Batista, que os romeiros cearenses chamam de ?Padim Ciço? e têm na conta de ?milagreiro?. O entusiasmo de Wolney foi tão grande, que recebeu indicação do pai, o cineasta Eusélio de Oliveira, para que lesse Milagre em Juazeiro (1976), do brasilianista Ralph della Cava. ?O livro me impressionou e me revelou a beata Maria de Araújo.? Sem saber, o futuro cineasta descobriria, naquela leitura, a sua principal personagem. ?Padre Cícero é conhecido, já Maria de Araújo, mulher do povo, negra e humilde, não tinha visibilidade.?Antes de iniciar, em 1994, o roteiro de Milagre em Juazeiro, Wolney foi estudar cinema na Escola Internacional de San Antonio de los Baños, em Cuba. Lá, fez seus primeiros curtas: Círio em Quadros (87), O Invasor Marciano (88) e Los Regalos de Don José (89). Terminou o curso, casou-se com uma cubana (a cineasta Margarita Hernandez) e permaneceu por mais três anos no país.Ao regressar ao Brasil, em 1992, Wolney retomou o desejo de realizar um filme sobre a beata Maria de Araújo. Escolheu a atriz que a interpretaria: Marta Aurélia, do teatro cearense. Seu trabalho foi reconhecido no Festival de Brasília (melhor coadjuvante) e no de Cuiabá (melhor atriz). Para interpretar padre Cícero, Wolney convocou José Dumont. O grande ator tingiu os cabelos de branco e usou lentes azuis (Cícero Romão Batista era, segundo testemunho de quem o conheceu, ?branquinho e de olhos claros?). Além da parte ficcional, que ocupa 45% dos 83 minutos do filme, Milagre em Juazeiro reúne imagens documentais (de arquivo e atuais). A maior parte delas foi colhida entre romeiros que, três vezes ao ano, vão a JuazeiroVale lembrar que, para a Igreja Católica, padre Cícero (1844-1934) não é santo. Por causa dos milagres atribuídos a ele ? ?na hora da comunhão, hóstias colocadas na boca da beata Maria de Araújo teriam jorrado o sangue de Cristo? ? Cícero Romão foi proibido de rezar missa e ministrar sacramentos. Impossibilitado de exercer sua missão religiosa, Cícero, que morreu com 90 anos, mergulhou na política. Elegeu-se prefeito de Juazeiro e até vice-presidente (na Velha República) do Ceará.Embora Maria de Araújo, a beata, seja o centro do filme, foi o político padre Cícero quem provocou polêmica. Wolney de Oliveira se defende: ?O filme aborda a trajetória de padre Cícero desde o episódio da comunhão da beata Maria de Araújo até a morte dele, em 1934. Está lá a fase em que se tornou uma espécie de coronel do sertão e líder de jagunços. Não emito nenhum julgamento, mas dou voz aos que falam a favor dele e aos que se posicionam contra.?O cineasta confessa não ser fácil encontrar, no Ceará, voz que se oponha diante de uma câmera a padre Cícero. Por dois motivos: ?Medo divino e temor de desagradar à população, que o venera.? Wolney encontrou em d. Nilton, na época bispo do Crato, o depoimento crítico.Milagre em Juazeiro. Drama. Dir. Wolney Oliveira. Br/99. Duração: 83 minutos. CineSesc, às 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30. Unibanco Arteplex 4, às 12 horas e 17h50. 12 anos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.