Mike Leigh retorna ao Festival de Cannes com ‘Mr. Turner’

Diretor inglês está na competição com filme que reconstrói a época do pintor

Luiz Carlos Merten, Enviado Especial a Cannes - O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2014 | 18h29

Chamados pela maîtresse de cérémonie, a âncora da cerimônia de abertura do 67.º Festival de Cannes – Audrey Tautou –, coube à dupla formada por Chiara Mastroianni e Alfonso Cuarón declarar inaugurado o maior evento de cinema do mundo, na quarta-feira à noite. A filha de Marcello e Catherine Deneuve e o diretor mexicano que venceu o Oscar da categoria com Gravidade falaram em quatro línguas. Francês, inglês, italiano e espanhol. Só ficou faltando alguma língua das grandes cinematografias asiáticas – chinês ou japonês – para selar a diversidade e universalidade de Cannes, mas ambas estão representadas no júri e na seleção oficial dos filmes que concorrem à Palma de Ouro.

Habitué de Cannes – e vencedor de prêmios como a melhor direção (por Naked) e a Palma de Ouro (Segredos e Mentiras) –, o inglês Mike Leigh volta à competição com Mr. Turner. O filme marca o retorno de Leigh ao cinema de época e à biografia, que não são exatamente segredos para ele, veja-se o caso de Vera Drake. Mr. Turner é ninguém menos que J.M.W. Turner, o grande pintor conhecido por suas paisagens – marítimas, principalmente. Turner viveu entre 1775 e 1851 e foi precursor dos impressionistas na França. Na Inglaterra, como integrante da Academia, polemizava com os colegas e os críticos.

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O recorte de Mike Leigh privilegia o terço final da vida de Turner. Ligado ao pai, ele morreu da mesma doença que ele – problemas respiratórios. Não apenas por cobrir um período longo, mas também por abordar muitos temas (a arte e a ciência, Turner e as mulheres, a natureza, etc.), o filme termina sendo árduo, o que não é necessariamente ruim, mas coloca alguns problemas. Leigh disse que não teve muitos recursos para fazer seu filme. Os £ 10,3 milhões do orçamento são mais do que ele costuma gastar, mas insuficientes para um filme de época, e com filmagens caras. Isso o obrigou, como ressaltou, a trabalhar com a imaginação. O filme é visualmente esplendoroso, com particular atenção para a luz. Turner pintou muitos amanheceres e entardeceres. Sua última fala, que o filme reproduz, foi – “O sol é deus.”

O problema maior de Mr. Turner, que outros poderão achar sua qualidade, diz respeito a uma característica particular do cinema de Mike Leigh. Na própria Inglaterra, existem vozes que reclamam dos ingleses estereotipados – caricaturais – que povoam os filmes do diretor. Os de Mr. Turner chegam a irritar, por mais intensas que sejam certas cenas. Uma delas é magnífica – Turner hospeda-se no hotel daquela que será sua mulher, mas ela ainda é casada com um antigo lobo do mar. O cara trabalhava em navios negreiros. O contato com o sofrimento humano o transformou, e seu relato do horror dos navios que conduziam escravos inspira um dos quadros mais famosos do pintor.

No filme, o crítico analisa justamente esse quadro e vê na pincelada de luz que divide o espaço um signo de esperança. Há que acreditar, mas da África veio Timbuktu, do cineasta da Mauritânia Abderrahmane Sissako. O filme inspira-se numa história real – um casal, no Mali, foi condenado a morrer por pedradas. A acusação – embora se amassem e tivessem dois filhos, não eram casados. Viviam em pecado, segundo os jihadistas. O filme é sobre a escalada da intolerância em países dominados pela Jihad. Não adianta o íman dizer que os ocupantes do vilarejo estão distorcendo as palavras do Profeta (Maomé) e negando a misericórdia de Alá. O relato termina em tragédia e, embora nem todas as metáforas da cultura africana sejam de fácil assimilação – mas por que teriam de ser? –, Sissako fez a cena que vai ficar como uma dos mais belas e tristes desse festival. Os fanáticos proíbem o futebol, os habitantes jogam sem bola e comemoram (é maravilhoso) um gol inexistente. Só para lembrar – em 1967, Michelangelo Antonioni ganhou a Palma de Ouro com Blow-Up, que terminava com um jogo de tênis sem bola, mas a intenção e o mundo eram outros, naquela época.

Já que o texto começou com Chiara Mastroianni, que termine com ela. Chiara abriu ontem o Cinema da Praia. Todo ano, Cannes organiza uma programação na praia, ao ar livre, à noite. Ontem, a abertura do Cinema de la Plage foi especial. O filme apresentado integra a seleção de Cannes Classics, que este ano terá Sophia Loren como madrinha. É a versão restaurada de Oito e Meio, o clássico de Federico Fellini que tem Marcello Mastroianni, o pai de Chiara, na pele de Guido Anselmi, um diretor de cinema em crise. Para esta 67.ª edição, o festival selecionou justamente a imagem de Marcello como Guido Anselmi – o plano clássico em que ele ajusta os óculos e olha por baixo deles – para ilustrar o cartaz.

Oito e Meio permanece como um dos mais belos filmes já feitos. Na nova cópia zero bala, é um deslumbramento. A fotografia em preto e branco, a trilha de Nino Rota, a interpretação, tudo contribui para a sua aura. Guido viaja no tempo e atravessa os planos da realidade e da memória em busca de inspiração para um filme que talvez não vá realizar. Na época, o próprio Fellini se dizia em crise e foi assim que resolveu o impasse. Ontem, na praia, naquela tela imensa, ficou ainda mais impressionante ver o menino Guido, com sua capa de escolar, pedindo a Seraghina que dance a rumba. A ogra, como parece ser para o garoto, habita na praia e dança de pés descalços na areia. Bastava seguir a areia da praia de Cannes para cair na da tela. Realidade e fantasia se misturaram, como na obra-prima de Fellini.

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