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Silvana Garzaro
Silvana Garzaro

Miguel Falabella se prepara para estrear filme 'Veneza'

Entre vários projetos, como a tradução de um livro infantil e a criação de uma série, diretor mostra sua 'ode aos sonhos' a partir do dia 17

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 05h00

Em junho de 2020, Miguel Falabella deixou a Globo, depois de 40 anos de casa. E, ao invés de se lamentar, ele aproveitou o horizonte aberto para se diversificar: quando completa um ano sem contrato fixo, o ator, diretor e roteirista enumera uma série de projetos realizados ou próximos do ponto final, como a tradução de um livro infantil, a criação de uma série para o streaming, a versão filmada de uma de suas peças e, finalmente, a estreia de sua obra mais acarinhada, o filme Veneza.

“É o trabalho que marca minha maturidade artística”, comenta ele, emocionado. De fato, se sua estreia como cineasta em 2008, com Polaróides Urbanas, foi um primeiro exercício com a linguagem cinematográfica, agora Falabella dá um salto qualitativo, realizando um longa marcado por uma sofisticada narrativa, com inspiração em mestres como Federico Fellini e Luchino Visconti. Com estreia prevista para o dia 17, Veneza se concentra na história de Gringa, dona de um bordel no interior do Brasil que, mesmo cega e doente, sonha em viajar para a cidade italiana, onde acredita que vai reencontrar um amante que ela abandonou na juventude. Com a impossibilidade financeira de realizar tal desejo, seus amigos simulam a viagem com a ajuda de artistas de circo, usando a fantasia e deixando-a feliz.

“É um filme poético, inspirado nas fábulas latinas, que permite encher a vida de metáforas”, conta Falabella que, para escrever o roteiro, partiu de uma peça do argentino Jorge Accame. “O original é curto, então fiz algumas adaptações, criando, por exemplo, uma trama paralela sobre uma garota de programa que se apaixona por um rapaz que sonha ser trans e tem ereção quando se veste de mulher.”

Veneza tornou-se um produto bem acabado por conta da conjunção de talentos envolvidos. A começar pelo elenco – Dira Paes vive a administradora do bordel e conta com o auxílio de um rapaz interpretado por Eduardo Moscovis. Já os papéis das prostitutas são distribuídos para Danielle Winits, Carol Castro, Laura Lobo e Maria Eduarda de Carvalho. Mulheres que lutam para sonhar e que vivem cenas voluptuosas, com as quais Falabella homenageia as divas, especialmente as italianas. “Os seios significam uma ode ao prazer”, conta ele que, para o papel da Gringa, necessitava de uma atriz estrangeira.

“Como trabalhei muito na Argentina, minha primeira opção foi Norma Aleandro, uma verdadeira diva, mas, na época (2019), com 83 anos, ela não se sentiu à vontade e sugeriu uma colega com quem divide o mesmo agente artístico: a espanhola Carmen Maura”, relembra Falabella que, embora descrente, enviou o roteiro para a atriz que marcou o início da carreira de Pedro Almodóvar. “Para minha surpresa, ela telefonou dias depois dizendo aceitar o papel. Carmen foi encantadora, e ainda traz nos olhos o brilho da Movida Madrilenha”, observa ele, sobre o movimento de contracultura que sacolejou Madri nos anos 1970, na transição pós-franquista.

Apesar do elenco de primeira linha, o projeto não encontrava financiadores, a maioria temerosos com o fato de o filme ter prostitutas como protagonistas. Quem revelou sensibilidade artística foi Julio Uchôa, que abraçou a empreitada. Mesmo assim, com produção reduzida – foram apenas 28 dias de filmagem, distribuídos em locações como Quissamã (RJ), Montevidéu (Uruguai), Rio e Veneza, propriamente, na qual filmaram durante três noites. 

O filme, no entanto, traz magia nas cores fortes da fotografia de Gustavo Hadba, especialmente nas cenas de magia em que Gringa imagina estar passeando de gôndola em Veneza, uma simulação feita pelos amigos que sua cegueira não permite descobrir. “É um mundo colorido em meio a uma vida cruel”, observa Falabella que, além de Fellini, trouxe referências de outro grande cineasta italiano, Luchino Visconti, especialmente de seu longa Senso – A Sedução da Carne. “Quando hoje revejo Veneza, tenho a impressão de que todos os personagens já estavam mortos, era apenas a recordação de uma fatia da história. São muitas camadas, o que me deixa orgulhoso desse trabalho e me dá mais certeza de que vai ganhar reconhecimento com o tempo.”

Enquanto prepara a estreia do longa, Falabella divide-se em outros projetos. Como o da criação da série O Coro para a Disney+, sobre jovens talentos que buscam o estrelato no teatro musical. Serão nove protagonistas e o elenco já conta com nomes do quilate de Sara Sarres, Guilherme Magon e Daniel Rangel. “Quero homenagear a música brasileira e cada episódio será dedicado a temas como Jovem Guarda, festivais da canção, rock dos anos 1980, sertanejo.” O início das gravações está previsto para agosto. Na agenda do ator/roteirista, há ainda brecha para cuidar da adaptação de sua peça O Som e a Sílaba, que montou com Alessandra Maestrini, em outro projeto para a Disney+

Paralelamente, Falabella busca os últimos detalhes para finalizar Marrom – O Musical, espetáculo produzido por Jô Santana sobre a vida da sambista Alcione. Já foram várias conversas para ajudar no roteiro, em viagens para o Maranhão. “Alcione é fascinante, mas também não é fácil – alguns detalhes ela não deixa escapar”, diverte-se Falabella, referindo-se aos amores da cantora.

 


Na agenda do ator/roteirista, há ainda brecha para cuidar da adaptação de sua peça O Som e a Sílaba, que ele escreveu especialmente para Alessandra Maestrini e Mirna Rubim, cantoras-atrizes com registro lírico, em 2017. Será outro projeto para a Disney+, que a transformará em uma série de 10 episódios.

O gosto por desvendar os mistérios do idioma também o convenceram a fazer a tradução de As Travessuras de Pedro Coelho (Ciranda Cultural), clássico infantil da inglesa Beatrix Potter, cuja trajetória inspirou o filme Miss Potter. Embora o texto seja direcionado para crianças, a autora criou diversas armadilhas linguísticas. “Foi trabalhoso porque ela brinca com a língua em seu universo infantil – há rimas internas e um ritmo muito particular”, explica Falabella que, atualmente, se ocupa de mais um projeto, intitulado Querido Mundo e do qual apenas diz ser um “passeio nos gêneros”. Para ele, o tempo não tem limites.

Crítica: Filme cheio de beleza e encanto, que não se assemelha a nada

A morte de Paulo Gustavo, por covid, causou comoção no País. Paulo foi comparado a Leila Diniz – o que ela fez pelas mulheres de sua geração, ele fez pela população LGBTQIA+. Foi redefinido como artista. Muita gente (re)descobriu a qualidade que passara despercebida quando Minha Mãe É Uma Peça 3 passou como um trator pelas bilheterias. Miguel Falabella também tem sido referência como artista popular, no teatro e na TV. 

Como ator de cinema, trabalhou com o mais erudito dos autores brasileiros, Júlio Bressane, em Cleópatra. Tentou a direção, mas Polaróides Urbanas não empolgou. A comédia centrada em personagens femininas foi meio que descartada como exemplo da troca de estéticas entre cinema e televisão. Algo ocorre agora com Veneza, seu longa que concorreu em Gramado, em 2019. Veneza ganhou dois míseros Kikitos, o de melhor direção de arte e o de atriz coadjuvante para Carol Castro – esse, dividido. 

É pouco provável que Veneza esteja entrando para uma carreira vitoriosa nas telas. As pessoas ainda estão muito temerosas de voltar às salas de cinema. A aposta deve ser nas demais janelas. Se Veneza tivesse de ser comparado a algum outro filme poderia ser com Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes, pela explosão de estéticas. Mas a verdade é que Veneza não se assemelha a nada no cinema brasileiro atual. É um óvni, um filme cheio de encanto e beleza. O mago de suas imagens é Gustavo Hadba. 

De cara, o filme, adaptado de uma peça, já revela seu sortilégio. Subindo pelos pés de uma mulher na grama, a câmera chega ao rosto transtornado de Carmen Maura. Ela é a Gringa, velha prostituta e dona de bordel. As pensionistas vêm resgatá-la. A Gringa, meio demente, e cega, berra – “Quero ir a Veneza!”. No passado, ela foi amante de um italiano, Giacomo, a quem traiu. Ele, por amá-la, promete que vai esperá-la – em Veneza, para onde ela agora quer ir. O problema é a falta de dinheiro. 

Falabella, com certeza, viu muita comédia italiana. Menos que de Federico Fellini, seu bordel tem muito da representação das p... de Lina Wertmüller. O circo, sim, é uma representação felliniana. É lá que Du Moscovis, agregado da casa, que troca pequenos trabalhos pelo sexo de graça, mata a charada. A peça dentro do circo – o velho melodrama de Madame X, a mulher que abandonou a família e será acusada pelo filho advogado, sem que ele saiba quem é ela. As p..., de bom coração, choram. Du visualiza a forma de ir à Itália. 

Ele é ligado a Dira Paes e, entre as demais garotas, estão Carol Castro e Danielle Winits. Carol tem um affair com um garoto que se veste como mulher para fazer sexo gostoso com ela. Esse jovem tem um pai autoritário e machista, o toque bolsonarista na trama que perseguia o diretor há mais de dez anos. A viagem a Veneza vira artifício, ilusão. Uma jornada de amor e sexo. Tudo é representação. Outro teatro – melodrama – no circo. Falabella, dessa vez, acertou. A almodovariana Carmen Maura é gloriosa na pele da Gringa, um papel que – permitam ao repórter delirar – poderia ser feito por Fernanda Montenegro. Quanto a Veneza, dá sorte no cinema brasileiro. Em 1957, a cidade dos canais foi recriada em estúdio, por Fernando de Barros, num veículo para Dercy Gonçalves, Uma Certa Lucrécia. / Luiz Carlos Merten

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