Mickey Rourke, favorito ao Oscar, estrela em 'O Lutador'

O filme venceu o Festival de Veneza do ano passado e deu a Rourke o Globo de Ouro de melhor ator

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

12 de fevereiro de 2009 | 20h49

Dando e levando pancadas, Randy "Carneiro" Robinson atravessou a vida. Mais apanhando do que batendo - se a contabilidade for justa e bem-feita. É o que comove nessa biografia de um loser, um perdedor magnificamente interpretado por Mickey Rourke em O Lutador, de Darren Aronofsky. O filme venceu o Festival de Veneza do ano passado. O consenso entre jornalistas que cobriam o festival é que a atuação de Rourke era responsável pelo Leão de Ouro, mas essa quase unanimidade foi insuficiente para derrotar o candidato italiano Silvio Orlando, que ficou com o prêmio de interpretação masculina pelo filme Il Papà di Giovanna. Veja também: Trailer de O Lutador Não se trata nem de "injustiça" porque o trabalho de Orlando é mesmo muito bom. Mas o de Rourke talvez tenha alguns ingredientes a mais, um especial: certa similitude simbólica entre a vida descrita pela ficção na tela e a existência real do ator, toda ela também marcada por acidentes de percurso, para usar uma expressão pudica. Rourke exibe no rosto gasto os altos e baixos de uma existência conturbada, e usa esse rosto, com generosidade, para dar viço a Randy. Vida a serviço da arte.  Esse personagem é o desacerto em forma de gente. Lutador de telecatch famoso nos anos 80, envelheceu e agora exerce a profissão em ringues decadentes, localizados em porões e e frequentados por poucos aficionados, sedentos de sangue e emoções baratas. Randy tem o rosto marcado pela idade e o corpo em luta constante (e inglória) contra a ação do tempo. Bombado por esteroides, bronzeado artificialmente, cabelos oxigenados, é todo ele um combate constante da natureza contra a decadência. Randy forma par com a não menos comovente Marisa Tomei no papel da stripper ainda desejável, mas já no limite superior da idade para o exercício desse métier. Ela e Randy são seres fora do mundo. Dois falidos de um clichê que atende pelo nome de "sonho americano".  Nos primeiros planos do filme, Aronofsky segue o lutador veterano com a câmera na mão, pelas costas. Não revela seu rosto que, mesmo em tomadas de perfil, permanece na sombra. Como que desvelando seu personagem aos pouquinhos. Para mostrar o que aquela vida havia feito com aquele corpo, aquela face. Em outros momentos, não poupa o espectador das cenas mais sangrentas das lutas. Lutas encenadas, mas que se tornam violentas justamente para que essas encenações ganhem verossimilhança. É curiosa a posição do público de telecatch. Todos sabem que as lutas não são "para valer". Mas exige-se que elas contenham um grau de violência encenada que as leva às vezes além dos limites de uma hipotética violência real. É nesse teatro do absurdo que Randy se exercita e garante o sustento. E é lá que ganha, ou perde, a sua vida.  Relações humanas truncadas, sadismo, a solidão, a absoluta ausência de solidariedade social - tudo isso está num filme de parentesco óbvio com A Noite dos Desesperados, Touro Indomável, Perdidos na Noite. Sobras do que restou do grande cinema social americano, escanteado pelo cinema videogame de entretenimento. Rourke, rosto icônico de filmes como O Selvagem da Motocicleta e Nove e Meia Semanas de Amor, ressurge aqui numa espécie de cerimônia sacrificial. Expõe-se sem qualquer autopiedade. Merecia o prêmio em Veneza e mereceu o Globo de Ouro que ganhou. Pode repetir a dose no Oscar.

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