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Mickey Rooney e o estigma de ter sido astro infantil

Nem quando criou o sádico Baby Face Nelson, ele fez o público se esquecer de que foi um garoto prodígio

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2014 | 02h11

Ele sempre lamentou que sua imagem como ator infantil lhe tivesse pregado uma etiqueta que o perseguiu na vida adulta. Casou-se oito vezes, teve um monte de filhos e filhas, mas seu grande amor parece ter sido o primeiro. Nos anos 1940, Mickey Rooney casou-se com uma jovem contratada da Metro que logo viraria furacão sexual, Ava Gardner. Era demais para o caminhãozinho de Andy Hardy, que ele interpretou em 14 filmes.

Mickey Rooney morreu domingo em Hollywood. A causa da morte não foi anunciada. Tinha 93 anos. A última vez que ocupou o noticiário foi em 2011, quando requereu proteção à Justiça, dizendo-se abusado por um enteado que o maltratava. As vidas de astros infantis quase nunca são fáceis. Além das inevitáveis dificuldades de passagem para a vida adulta, são inúmeros os casos de abuso familiar.

Ele nasceu no Brooklyn, em Nova York. Seu nome, John Yuli Jr. Não soava bem, pelo menos foi o que pensou Louis B. Mayer, e o menino sardento foi rebatizado como Mickey Rooney ao integrar o elenco da série Our Gang. Rooney devia à mãe o fato de ter virado astro. Depois que se divorciou, ela pegou o filho pequeno e rumou para Hollywood, convencida de que ele levava jeito para o cinema. Não se enganou. Rooney foi testado e aprovado para a série de comédias de Hal Roach.

Emprestado pela Metro à Warner, participou de filmes importantes como Sonhos de Uma Noite de Verão, de Max Reinhardt. Mas a Metro reclamou sua propriedade e Rooney voltou ao estúdio para outra série de filmes, agora Judge Hardy's Children. Se há uma coisa de que Louis B. Mayer entendia era de marketing - como moldar o imaginário do público. Ele imaginou esse juiz que trazia a garotada na rédea curta. Rooney encarnava Andy Hardy. Era um anjo feito menino. Casto, piedoso e sempre sorridente. Hoje, seria considerado um porre, mas em 14 filmes Hardy/Rooney moldou o comportamento de toda uma geração.

Ele bem que tentou fugir ao rótulo, ou ao estereótipo, fazendo outros papéis, mas não deu. Em 1957, vingou-se. O próprio diretor Don Siegel deve ter pensado que seria um choque e tanto no inconsciente coletivo apresentar o antigo - eterno - Andy Hardy na pele do mais sádico e sanguinário dos gângsteres, Baby Face Nelson. E ofereceu a Mickey Rooney o papel do protagonista em Inimigo Público Número Um. O ator encarnou o personagem com gosto, explorando sua crueldade, mas evitando transformá-la em caricatura. O que há é uma insólita alegria que Baby Nelson experimenta ao bater, matar, mutilar.

Ele ainda fez o vizinho japonês de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards, em 1961, e foi indicado para o Oscar de coadjuvante pelo treinador de O Corcel Negro, de Carrol Ballard, em 1979. Com o tempo, a cara de bebê de Rooney voltou-se contra ele. Um bebê cheio de rugas é algo inusitado. Mas a verdade é que ele foi um bom ator, mesmo que a ditadura do estúdio o tentasse prender no que havia sido sua imagem infantil.

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