Jasin Boland/Paramount Pictures and Dreamworks Pictures
Jasin Boland/Paramount Pictures and Dreamworks Pictures

Michel Reilhac fala dos avanços que vão massificar a VR, Realidade Virtual, nos próximos anos

Especialista francês é uma das maiores autoridades do assunto na atualidade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2017 | 06h00

Michel Reilhac vive e trabalha no circuito entre Paris, Berlim, Amsterdam e a ilha de Lamu, no Quênia, onde pretende estabelecer uma residência permanente para roteiristas. Michel quem? Reilhac é hoje uma das maiores autoridades em realidade virtual do mundo. VR - a sigla torna-se cada vez mais conhecida. Avança. Representa o futuro e Reilhac, como integrante da delegação francesa no recente Festival Varilux, veio dizer que o futuro já chegou. “Em todo o mundo, as grandes companhias investem muito dinheiro em experimentos de VR. Dentro de dois ou três anos, uma empresa dos EUA vai lançar um novo modelo de óculos que vai massificar a VR. Depois disso, nossa experiência de ver e sentir as coisas será radicalmente transformada.”

Coisa de ficção científica. Reilhac admite que se decepcionou com A Vigilante do Amanhã, exceto com os hologramas que saltavam na tela como representação futurista da megalópole de Tóquio. “Vi agora em Cannes uma outra versão de Ghost in the Shell, diretamente adaptada da experiência visual dos comics e era muito mais ousada.” Também no Festival de Cannes o mexicano Alejandro González Iñárritu mostrou seu filme em realidade virtual, exibido numa programação especial, à margem do evento. Quando você ouve a propaganda da Sala Imax, preparando a audiência para uma experiência imersiva - “Você pode ver um filme ou fazer parte dele” -, pode ter uma ideia, meio pálida, do que Inárritu montou.

“O mais impressionante no experimento dele é que combina um cenário real com as sensações que as novas tecnologias oferecem.” Num hangar deserto, Iñárritu montou uma extensão de areia. O espectador é solicitado a tirar os sapatos e, com os pés descalços, vive, por meio dos óculos VR, a sensação de estar tentando atravessar a fronteira dos EUA. Intervém, de forma brutal, a polícia. O espectador sente-se vulnerável. O policial virtual - mas ele é tão verdadeiro - coloca a arma na sua cara. Tem gente que grita, chora. A radicalidade da experiência torna-a visceral.

Reilhac não só pesquisa a VR. Também é diretor. “Comecei fazendo filmes planos (em 2D) e evoluí para essa forma, primeiro como curiosidade e hoje, realmente, atraído por suas possibilidades narrativas. Nossa percepção audiovisual mudará totalmente quando a VR deixar de ser exceção. O que me interessa é provar que se trata de uma ferramenta narrativa, e das mais eficientes.” Por enquanto, os filmes em VR são geralmente curtos. Uma rara experiência de longa é um filme contando a vida de Jesus, filmado nos mesmos lugares em que Pier Paolo Pasolini fez O Evangelho Segundo Mateus. “Do ponto de vista técnico, é muito interessante, mas também é tosco. Atrai muito mais como curiosidade.”

Ele próprio é autor de um pequeno filme que integrou a Mostra Realidade Virtual do Varilux 2017. Viens!, Vem!, correalizado com Mélanie Le Grand, tem 12 min. É um filme de sexo (explícito?) que Reilhac define como seu “poema tântrico”. Ousado, difere bastante de Love, o sexo em terceira dimensão de Gaspar Noë. Sintetiza o conceito do que o autor chama de ‘interactive storytelling’, narração interativa. “Fiz minha primeira instalação em realidade virtual em 1992, em Le Fresanoy, um centro francês que abriga artistas contemporâneos. Naquele momento, estávamos dando só os primeiros passos. A grande mudança veio quando Facebook adquiriu Oculus em março de 2014 e investiu bilhões na pesquisa de um novo modelo mais dinâmico de óculos, que, esse, sim, vai revolucionar a realidade virtual. É coisa para poucos anos. Esses óculos terão hastes não muito distintas das de óculos comuns, mas que serão sensíveis, modificando nossa relação com a realidade ao redor.”

Para Reilhac, o que interessa não é a realidade virtual em si, mas sua utilização na busca por novas formas imersivas de narração. “Desde 2014, quando comecei a me dedicar inteiramente a isso, foi preciso inovar. Como não havia esse tipo de tecnologia de ponta em Paris, na época, comprei 14 câmeras GoPro e me associei a um técnico inglês muito engenhoso, Carl Guyenette. Era preciso começar com alguma coisa, para aprender. Em maio de 2015 fizemos o Viens! E, em junho, Rooftop, com os bailarinos do Centro Nacional de Dança. Fizemos um terceiro experimento em Berlim, Wait for Me. De alguma forma, era preciso mostrar esse trabalho. Foi quando veio o convite do Sundance para apresentar Viens!, em janeiro de 2016. Depois disso, as coisas têm andado mais rápidas.”

Viens! nasceu do desejo de Reilhac de utilizar a VR para experimentar formas de narração íntimas. “Queria criar empatia e forçar os limites da nudez.” Reilhac fala de fluidez entre gêneros e preferências sexuais como ‘forma de libertação dos limites do que é considerado normal’. Não é o tradicional filme de sexo, mas “uma tentativa de compartilhar com o outro o nosso ponto de vista”. E o diretor esclarece - “A VR não é só uma nova plataforma de narração, ela carrega, intrínseco, esse caráter imersivo. De repente, você não está assistindo a uma representação do mundo. Está quebrando a quarta parede e experimentando a sensação de uma nova realidade.” Tudo isso se consegue captando as imagens com muitas câmeras e por meio de uma edição muito distinta da dos filmes planos e, mesmo, de 3D. A grande diferença, Reilhac esclarece, é que nos filmes planos só uma parte da realidade é captada.

“Sempre se disse de certos grandes autores que eram criadores de imagens, porque mostravam ao público só o que queriam. Com a VR, a filmagem é total. O campo visual é de 360 graus e é necessária muita preparação para captar tudo. E, depois, tem a complicação adicional de iluminar, também tudo. O segredo é a preparação, mas, no fundo, tudo depende do olhar do diretor. Muita gente conseguiu criar universos nunca vistos em 2D. Se o diretor é bom, a experiência é forte. Se não, é fraca. O importante é que todo um novo mundo está sendo escancarado para nós.”

Ficou fascinado por São Paulo. “Desci da Sé até a República e me senti dentro de Blade Runner (a fantasia de Ridley Scott). Futurismo déco. O arrojo e a decadência. Daria um filme sensacional” - que ele promete voltar, e fazer.

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