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Michel Franco: 'Não tenho aquele conflito do profeta em sua terra'

Diretor pede ao público mexicano que não se deixe levar pelo trailer de 'Nova Ordem', que foi criticado como classista e racista nas redes; ele diz que longa denuncia a desigualdade e a corrupção

Berenice Bautista, Associated Press

22 de outubro de 2020 | 20h53

CIDADE DO MÉXICO - Nova Ordem, o novo filme de Michel Franco, premiado em Veneza, tem dado muito o que falar no México antes de sua estreia, e não exatamente por causa de seus feitos. Desde que seu trailer foi lançado no início de outubro para promover sua estreia nesta quinta-feira, o filme tem sido criticado nas redes sociais como classista e racista por mostrar uma reunião de pessoas ricas invadida por agressores da classe baixa.

Em entrevista à Associated Press, o diretor defendeu seu filme, vencedor do Leão de Prata e do Leoncino d'Oro em Veneza, e pediu ao público mexicano que não se deixe levar pelo trailer. "Não tenho aquele conflito do profeta em sua própria terra", disse Franco em uma recente videochamada na Cidade do México. “Eu filmei no México, moro no México e gosto disso.”



Em uma coletiva de imprensa, Franco disse que o termo “whitexican” (mexicanos brancos, ricos e pretensiosos) era racista, o que alimentou ainda mais as chamas. Mas na entrevista, ele explicou que a ideia do filme surgiu há exatamente cinco anos para denunciar a desigualdade e a corrupção que poderiam gerar manifestações massivas no México e que também estão desestabilizando outros países, como Chile e França.

“Não podemos ignorar que há milhões de pessoas sem as necessidades básicas atendidas, sem os privilégios da classe alta que vive em uma bolha e que costuma ser bastante egoísta, que não está interessada ao que acontece a essa grande maioria", disse. “Também é um país com muita corrupção e a mistura desses elementos na minha distopia é uma bomba que explode.”

Em Nova Ordem, uma mulher espera por uma grande cirurgia em um hospital, mas é removida dele quando chega um grupo de manifestantes gravemente feridos. O hospital é tragado pelo caos como o resto da Cidade do México, onde as violentas manifestações devido à insatisfação da classe baixa levaram o exército a impor um estado de emergência e buscar retomar o controle com uma forte repressão para manter a liderança no poder, incluindo aqueles que estão na festa invadida.

Franco, que também recebeu prêmios em Cannes por seus filmes Depois de Lúcia, As Filhas de Abril e Chronic, disse que o Prêmio do júri jovem de Veneza quase lhe deu mais prazer do que o do júri oficial presidido por Cate Blanchett. “São 20 jovens que te dizem o que pensam e por que o filme é tão importante. Diziam-me, 'isso poderia acontecer na Itália', 'isso já aconteceu na França quando os coletes amarelos começaram a aparecer'. Em Veneza, ficou claro que este é um conflito global, não é um conflito que interessa apenas ao México”, disse Franco. “Os governos estão falhando em satisfazer as pessoas.”


 


Ele também é o produtor de Mão de Obra de David Zonana (atualmente em cartaz no México) e Los Herederos de Jorge Hernández, que igualmente abordam o tema da desigualdade brutal e complementam de alguma forma Nova Ordem.

O ator Diego Boneta, que interpreta um jovem de classe alta cuja família é atacada na festa, espera que o filme desencadeie uma conversa produtiva. “Temos que começar com o fato de que isso é um filme”, disse ele. “O que gostaríamos é que gerasse um diálogo e que primeiro víssemos quais são as causas da polarização e o que pode acontecer tanto no México como em nível global. E criar um diálogo e ser capaz de ter empatia um com o outro.”

Apesar de ser uma distopia, o público mexicano perceberá cenas que parecem reais devido à violência na qual o país mergulhou nos últimos anos. Por exemplo, no filme há um cadáver pendurado em um semáforo, como foram vistas vítimas do crime organizado penduradas em pontes, ou em casos de sequestros e assassinatos por dinheiro.

As autoridades também não estão em seu melhor em Nova Ordem: são sinistras, corruptas e repressoras. Após a prisão do ex-chefe do Exército mexicano Salvador Cienfuegos, acusado de tráfico de drogas nos Estados Unidos na semana passada, este é mais um triste ponto em que a realidade supera a ficção do filme.

“Não sei se é uma crítica às instituições”, disse Boneta. “Para mim, é muito importante enfatizar que este é um filme onde não há mocinhos, nem bandidos, isso não é preto e branco... Esse filme vai mostrar esses tons de cinza e nuances, porque, no final, ninguém ganha.”

A atriz Mónica del Carmen interpreta uma das mulheres da classe baixa que experimenta na própria carne os efeitos devastadores da desigualdade e da injustiça exposta por Franco, no caso dela, com uma desesperança que lembra aquela vivida pelos parentes dos desaparecidos.

“Essa distopia representa um arquétipo desta classe social”, disse Mónica. “No entanto, sua honestidade e coragem são intrínsecas a esta personagem e acho que é um assunto para falarmos. É também uma possibilidade de sentir empatia por Marta e estou orgulhosa do presente que Michel Franco me deu ao poder interpretar com essa profundidade essa personagem tão maravilhosa.”


 TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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