REUTERS/Suzanne Plunkett
REUTERS/Suzanne Plunkett

Michael Keaton: 'este personagem é uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida'

Em entrevista, ator comenta a experiência de viver uma história muito parecida com a sua própria em 'Birdman'

Cindy Pearlman, The New York Times

20 de fevereiro de 2015 | 08h49

“Gosto de dificuldade”, disse Michael Keaton. “Este personagem é uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida.” Era um meio-dia chuvoso e tristonho em Nova York, e o ator de 63 anos estava sentado, nervoso, na fileira dos fundos de um cinema de Manhattan, assistindo a alguns minutos de uma pré-estreia de Birdman, o filme que muitos acreditam que revigorará a carreira de Keaton e o levará, enfim, ao palco do Oscar.

Vestindo calça escura, suéter preto e camisa branca, o cabelo claro e curto, Keaton parecia, bem ... nervoso.

“Honestamente, estou passando exatamente o que o personagem está passando no filme”, admitiu. “Eu penso, ´Ah, você se acha o maioral?` E aí alguém diz, “Você é o maioral, você é maravilhoso`. Aí, 20 minutos depois eu penso, ´Não, você não é nada disso. É apenas o Michael Keaton`.” Ser Michael Keaton é um excelente negócio hoje em dia. Birdman – o título completo em inglês é Birdman: Or The Unexpected Virtue of Ignorance – recebeu críticas generosas após ser exibido em festivais de cinema em Nova York, Telluride (Colorado) e Veneza e diversos prêmios importantes.

Em Birdman, Keaton faz Riggan Thomson, um astro de cinema decadente mais conhecido por interpretar um super-herói na telona. Riggan tem dinheiro e fama, mas não preza nenhuma delas. Ele quer desesperadamente reinventar sua vida criativa depois de sair de “Birdman 4”.

Infelizmente, seu alter ego alado continua falando dentro da cabeça de Riggan, oferecendo conselhos de vida e direção para a carreira. “O personagem claramente quer que vê-lo novamente emplumado, a qualquer custo.

Riggan decide então dirigir e estrelar uma peça na Broadway escalando uma atriz necessitada (Naomi Watts) e um ator destemperado (Edward Norton). Riggan, por sua vez, precisa lidar com as camadas de culpa infligidas nele por sua filha distanciada (Emma Stone) que é uma adulta agora, mas gosta de lhe recordar que ele estava mais interessado no estrelato do que em ser um pai quando ela mais nova.

Há ressonâncias óbvias da carreira de Keaton, que continua mais conhecido como o astro de Batman (1989) e Batman Returns (1992), mas o diretor e coautor Alejandro González Iñárritu, mais conhecido por 21 Gramas (2003) e Babel (2006), o vê como um retrato mais amplo dos conflitos de um artista.

“A ideia deste filme veio da batalha que todo artista tem na vida, que é uma batalha pessoal”, disse Iñárritu numa entrevista separada. “Você toma consciência de como o ego funciona; e eu sei que meu ego é um enorme conquistador e um tirano que às vezes pode ser muito enganador.

Eu posso estar fazendo alguma coisa que considero brilhante e aí eu penso, ´Seu idiota, esta coisa é um lixo e ninguém liga para ela`.

“Essa é a luta que Riggan está travando nesta história.” Essa luta é familiar a todos que estão nesta linha de trabalho, disse Keaton.

“Nós atores passamos por isso”, ele disse. “À medida envelhecemos, essa culpa não vai embora. Eu acredito que ela nos alimenta quando perguntamos, ´Poderia realmente fazer isto?`” “O personagem é de fato uma das coisas mais difíceis que já fiz”, prosseguiu Keaton, “e não em termos do personagem, mas em termos de como o filme foi feito. Na maioria das cenas, eu tinha cerca de 30 a 49 segundos para transitar por muitas emoções diferentes.” Keaton tem uma cena em que critica violentamente uma crítica de teatro que ameaça demolir sua peça com sua resenha, antes mesmo de tê-la visto. Será que o astro, que teve sua dose de malhação ao longo dos anos, encontrou um atrativo especial nessa cena? “É onde eu sou uma verdadeira besta”, ele admitiu. “Eu não leio realmente nada a meu respeito. É aborrecido ler, por isso não o faço.” “No começo da minha carreira, eu acreditava que precisava ser corajoso e ler toas as coisas que escreviam a meu respeito”, ele acrescentou.

“Depois, eu li algumas e decidi que não leria nunca mais.” Bem, quase nunca.

“Se alguém diz que eu tive uma crítica realmente muito positiva, eu a leio”, admitiu o ator. “Estou disposto a me sentir melhor.” Durante seu apogeu nos anos 89 e 90, Keaton teve sua dose de atenção dos tabloides, que o prepararam para fazer Riggan, cuja vida foi arruinada, ao menos em certo grau, pela imprensa. Mas ele disse que não via muito de si no personagem, ao menos a esse respeito.

“No geral – e a menos que eu esteja sendo realmente estúpido aqui, e isso pode ser verdade – sinto que fui tratado muito bem”, disse ele.

Desde seus dias de fama, acrescentou Keaton, a natureza da celebridade mudou.

“Acho que todos são uma espécie de celebridade agora”, explicou.

“Qualquer um pode ser qualquer coisa, graças à internet. De repente, o cachorro correndo para uma parede é uma enorme celebridade com milhões de vistas.” “É a vez de cada um”, prosseguiu Keaton. “Por causa do YouTube, muita gente está circulando por seus próprios filmes. Decorre daí que ser celebridade já não é grande coisa. Eu nem acho que as pessoas ainda fiquem fissuradas com celebridades. Acho que cada um é uma celebridade em sua própria cabeça.”

Nascido Michael John Douglas, Keaton cresceu em Coraopolis, Pensilvânia, o filho caçula de sete irmãos. Seu pai era um engenheiro civil e supervisor, e sua mãe uma dona de casa. Depois de dois anos estudando oratória na Kent State University em Ohio, Keaton largou a escola e se mudou para Pittsburgh para tentar a vida com apresentações de stand-up.

Um período como cinegrafista na estação local da PBS o levou a fazer bicos de atuação – ele fez sua estreia na tela em 1975 como um dos Flying Zucchini Brothers na série de TV Mister Rogers`s Neigborhood – e trabalhou também em teatro antes de se mudar para Los Angeles e entrar no mundo do cinema. Isso foi quando, pelas regras do Screen Actors Guide, a presença de outra pessoa usando o mesmo nome o transformou de Michael Douglas em Michael Keaton.

Foram cinco anos de batalha e papéis pequenos até Keaton pegar sua grande chance em Corretores do Amor de Ron Howard (1982), mas dali em diante sua ascensão foi rápida. Primeiro em comédias como Dona de Casa por Acaso (1983), Fábrica de Loucuras (1986) e Os Fantasmas se Divertem (1988), e mais tarde em dramas como Marcas de Um Passado (1988), Minha Vida (1993) e O Jornal (1994), Keaton se tornou um pau para toda obra em Hollywood.

Tudo culminou, porém, quando o diretor Tim Burton o contratou para fazer Batman. Décadas depois as lembranças ainda estão frescas.

“Fiz toda a parte do Bruce Wayne primeiro”, recordou Keaton, “e isso foi fundamental para mim. Eu sabia como fazer aquela parte.” “No início, eu não sabia o que fazer com Batman”, ele admitiu, “e sabia que tinha que entrar no traje, o que não era fácil. Sou claustrofóbico, por isso eu honestamente achei que teria problemas. Mas resolvi que tinha de enfrenar a coisa.” No seu primeiro dia no traje de Batman, prosseguiu o ator, houve um problema técnico.

“A máscara grudou no meu rosto”, disse Keaton. “Metade daquela borracha parecia implantada na minha pele. Aí eu virei e a máscara rasgou, formando um grande buraco.” Ele riu.

“Não foi fácil”, disse. “O resto do dia eu fiz aquele velho truque de Hollywood em que eles usam uma tábua de madeira de verdade. Era uma tábua reclinável, porque eu não podia tirar o traje. Quando precisava descansar, eu me recostava na tábua. Por outro lado, gosto de tomar café, água, vitaminas, e não podia fazer nada disso como Batman porque isso me levaria a viagens indesejadas ao banheiro.” “De modo que comecei a ter pequenos ataques de pânico com a coisa toda e sem saber como fazê-la”, continuou Keaton. “Estava realmente assustado, até o dia em que tive a sacação de que aquilo era perfeito.

Uma situação de vida real destinada a submeter um cara incomum a coisas estranhas que estavam se passando. O que poderia ser mais estranho do que esta situação? Use-a.” Ele não entrava num traje de super-herói desde Batman Returns, mas quando vestiu o traje preto pesadamente emplumado de Birdman, ele o sentiu completamente diferente.

“Eu curti totalmente”, disse Keaton. “Sem medo. É um pequeno regalo para o público e para mim ... Há uma dose de super-herói de ação para vocês no filme, e ele realmente vem de um céu azul. Os efeitos são extraordinários.” É possível, claro, que alguns fãs possam ir ao cinema esperando ver um filme sobre Birdman, e não sobre o artista torturado que o interpreta. Isso não parece perturbar Keaton.

“John Huston dirigiu Os Vivos e os Mortos (1987) baseado numa história de James Joyce”, disse o ator com um sorriso. “Eu me lembro de ter ido ver o filme e me sentado perto de três garotos novos que achavam que iam ver um verdadeiro filme de horror trash. Os garotos ficaram esperando, e esperando para o filme ficar realmente sanguinolento. Eu os cronometrei, e cerca de 10 minutos depois eles resmungaram ´que droga` e caíram fora.” “Imagino a mesma coisa ocorrendo com Birdman”, concluiu Keaton. “Os jovens comparecerão e dirão ´que droga é essa?` Mas se eles ficarem, espero que terminem dizendo, ´que maneiro`. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Tudo o que sabemos sobre:
Oscar 2015Prêmio OscarMichael Keaton

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.