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Michael Fassbender é o mais guerreiro de todos os Macbeth

Dirigido por Justin Kurzel, ele vive personagem de Shakespeare em filme que conta, ainda, com Marion Cotillard

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2015 | 03h00

Há, no texto de Shakespeare, uma breve referência ao filho morto de Macbeth e sua lady. Justin Kurzel a pinça e intensifica, abrindo seu filme com o enterro. O detalhe é fundamental para a releitura que ele quer fazer de Macbeth, a peça. Estamos acostumados, no teatro e no cinema, a ver a lady insuflar a ambição do marido. No filme do australiano, Marion Cotillard vai até um certo ponto, mas depois recua. Diante das orgias de sangue que o marido promove – e do assassinato de uma família inteira –, ela desmorona. Ele segue, impávido colosso na interpretação de Michael Fassbender. Pode até ser que tenha havido Macbeth melhor no cinema, mas certamente não um mais guerreiro.

Já houve, neste ano que se encerra, o Macbeth de Vinícius Coimbra, A Floresta Que Se Move, com a que talvez tenha sido a melhor atriz da temporada – a mais bela, com certeza –, Ana Paula Arósio, e uma caixa de DVDs da Versátil, reunindo as incursões de Orson Welles pela obra do bardo inglês, já mostrou seu Macbeth feito em condições extremas (produção pobre, filmagens em diversos países, ao longo de um período muito grande). Houve o Macbeth suntuoso, inspirado na tradição do teatro japonês, de Akira Kurosawa, Trono Manchado de Sangue. O trono continua ensanguentado com Justin Kuzel. A pergunta que não quer calar é a mesma que já assombrava Coimbra – Macbeth e sua lady destroem-se por causa da sua culpa, ou do sucesso?

A importância dada ao filho vulnerabiliza a lady. A maternidade a torna mais frágil e Marion possui o segredo de dar intensidade a essas mulheres cujo colapso interno, paradoxalmente, as fortalece. Sua performance de Je ne Regrette Rien era visceral em Piaf. A própria Edith teria tirado o chapéu para ela. Mas os shakespearianos profissionais vão chiar. Independente da razão que possam ter, Justin e Fassbender tinham um partido sólido. Transformar Macbeth em filme de ação, e com respeito, em momentos decisivos, ao verbo clássico. A peça pertence à fase do Shakespeare noturno, anunciada por Otelo. Tem todas as cenas que o público sabe – as feiticeiras, a floresta que se move. Digamos que a feiticeira (uma só) de Coimbra era mais classuda, além de surpreendente (por concentrar várias) e as formigas eram uma sacada (perdão) de gênio. Mas a filmagem em céu aberto, a crueza dos combates, tudo é muito forte no novo Macbeth.

Uma história cheia de som e fúria, contada por um... bobo. Digamos que Macbeth não é o grande filme que texto e elenco autorizavam, mas que é bom ver Macbeth. Nunca, ninguém – nem Roman Polanski com sua versão Playboy, com a famosa Lady nua –, deu tanta importância à paisagem, erigida em personagem, como o casal de protagonistas. Pode até ser que alguém (muitos) se decepcionem, mas esse Macbeth termina sendo um aquecimento (preparativo?) para o próximo projeto do mesmo trio criador. Kurzel, Marion e Fassbender trabalham atualmente numa adaptação cujos direitos foram adquiridos pelo ator, convertido em produtor. A dúvida que só o tempo responderá – Assassin’s Creed será adaptado diretamente do game ou da série de livros de Oliver Bowden? Se for dos livros, e do primeiro, poderia resultar numa obra-prima de aventuras na tradição (renascentista) do grande Riccardo Freda.

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