Miami Vice chega ao cinema diferente da televisão

Michael Mann frustrou os executivos da Universal ao jogar no lixo a cena de ação mais eletrizante da versão cinematográfica de "Miami Vice". A suposta seqüência de abertura, em que foram gastos milhões de dólares numa corrida de barco de 15 minutos, virou um mero bônus para o lançamento em DVD. ?Fui chamado de louco, mas ninguém sentiu tanto a dor do corte quanto eu?, contou o cineasta ao Caderno 2. A difícil decisão ajuda a ilustrar o comprometimento de Mann com a história que decidiu contar. ?De tão arrebatadora, a corrida ganhou vida própria, sem acrescentar nada à trama.?Por ter assinado a produção executiva da série "Miami Vice", que revolucionou o formato nos anos 80, o cineasta de 63 anos aproveitou para explorar mais profundamente as marcas que o crime organizado deixa nos agentes infiltrados, os detetives Crockett e Tubbs. ?Na TV nunca avançamos muito no perigo que a identidade fabricada representa.?A intenção sempre foi apresentar nas telas uma visão mais obscura do que a do seriado?Costumava encarar cada episódio da série como um pequeno filme. Mas sofria com as limitações da TV, por mais que tentasse lidar com problemas reais. Só um filme impróprio para menores (no Brasil a classificação é de 16 anos) pode dar a dimensão exata do perigo e da sexualidade na vida dos protagonistas. O fato de o mundo ter se tornado muito pior nas últimas décadas só contribuiu para o tom mais sombrio.O filme parece ter sido concebido como obra independente, apesar de levar o título da série.O programa de TV serve apenas de ponto de partida. Até porque já fizeram adaptações mais fiéis de seriados, que não funcionaram tanto do ponto de vista artístico quanto do comercial. Como "Starsky & Hutch" (que teve seus primeiros episódios escritos por Mann, nos anos 70). Quem quiser ver o antigo "Miami Vice" deve comprar o DVD da série.Como encarou os contratempos de filmagem (o furacão em Miami, a internação de Colin Farrell por overdose no Uruguai, o tiroteio próximo do set na República Dominicana)?Com tema pesado e cenários complicados, sabia que não seria moleza. Mas tudo foi exagerado pela mídia. Nada se comparou à filmagem de "O Último dos Moicanos", em 1992. Como filmávamos no meio do nada, todas as manhãs dirigíamos até uma base, de onde saíamos carregando o equipamento nas costas. E não havia banheiro por perto.Pensou mesmo em filmar trechos de "Miami Vice" no Rio?Sim. Fizemos pesquisa e pré-produção em vários lugares que tivemos de descartar, pois a viagem encareceria ainda mais o filme (de US$ 135 milhões) e dificultaria a logística.Toda a sensualidade de Miami foi traduzida nas cenas de sexo. Como as abordou?Abordei como cenas que dialogam com o restante do filme. O que muda é a linguagem, por envolver movimentos corporais, expressões e uma economia de palavras. Para deixar o elenco à vontade, mando todo mundo embora. Só dois operadores de câmera e eu ficamos. O único casal que não deu trabalho foi Will Smith e Jada Pinkett, em "Ali", de 2002. Por serem casados, riam de tudo.Como foi dirigir a chinesa Gong Li, que não fala inglês?Sua tradutora era tão rápida, suspirando o que eu falava no ouvido de Li, que tinha a impressão de conversar diretamente com a atriz. Foram poucos os momentos surreais no set. Como quando Li desconfiou que a intérprete não traduzia corretamente e as duas começaram a discutir em mandarim. Fiquei lá, parado, sem entender nada (risos).

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