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'Mia Madre' marca retorno do ator e diretor Nanni Moretti ao tema da perda

Temática já esteve presente no filme 'O Quarto do Filho'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2015 | 03h00

Nanni Moretti possui a fama de irascível e antipático com jornalistas, mas ele nunca esteve tão relaxado como no Festival de Cannes deste ano. Talvez porque Mia Madre, seu longa que estreou quinta-feira, 17, no Brasil, tenha desembarcado na Croisette como um dos mais fortes candidatos à Palma de Ouro. Havia outros dois concorrentes da Itália – Tale of Tales, de Matteo Garrone, e Beauty, de Paolo Sorrentino –, mas desde o início falava-se do ‘Moretti’. No final, nenhum dos filmes italianos da competição ganhou o favor da crítica e do júri. Tale of Tales e Beauty foram espancados. Mia Madre/Minha Mãe chegou a ganhar alguns elogios entusiásticos, mas não influenciaram o júri. À pergunta inevitável – animado para a Palma? –, Moretti, escaldado, respondia. “Ma non è celta mia”, A escolha não é minha.

Moretti só se irrita – a velha chama – num momento da entrevista que reuniu um grupo de jornalistas internacionais. É quando alguém o chama de ‘Woody Allen italiano’. “Ma chi, io?”, Quem, eu? E ele deita a falar que, nesses anos todos de carreira, a única coisa que ainda espera é ser aceito e identificado como ele mesmo. “Na Itália também dizem que eu faço a ponte com os grandes diretores do passado, dos anos 1950 e 60. Também dizem que sou o porta-voz de uma consciência política que ainda resiste na Itália pós-Sílvio Berlusconi. Entendo até que possa ser uma forma de elogio, mas é muito pesado. Sou um diretor tentando fazer meus filmes, e acreditam que isso já não é nada fácil.”

Sete vezes na competição de Cannes, vencedor da Palma de Ouro por O Quarto do Filho, em 2001. Raros sãos os grandes de qualquer cinematografia, não apenas a italiana, que ostentam esse currículo glorioso. O Quarto do Filho era sobre um casal (Moretti e Laura Morante) que tinha de lidar com a perda imensa representada pela morte do filho. Mia Mãe é sobre outro casal, agora de irmãos, Moretti e Margherita Buy, que têm de lidar com a doença terminal da mãe. Moretti faz o filho devotado que se ocupa dela mais diretamente. Margherita faz a filha cineasta que divide a preocupação pela mãe com a da realização de um novo filme, numa fábrica que concentra boa parte dos problemas econômicos e políticos que afligem a Itália (a Europa, o mundo).

Foi em 2010. Moretti estava terminando Habemus Papam quando Agata, sua mãe, uma professora de línguas clássicas, morreu. “Você pode até pensar que a morte da mãe não seja um evento tão doloroso quanto a morte do filho, mas foi um processo muito difícil porque eu era muito ligado a ela. E minha mãe foi decisiva para o homem e artista que me tornei. Isso é uma coisa muito íntima. Estou falando de um universo familiar. Mas aí, no enterro de minha mãe, tive o que, para mim, foi uma revelação. Uma quantidade incrível de seus antigos alunos apareceu. E davam testemunhos de como ela, a mia madre, havia sido importante para todos. Acho que o desejo do filme nasceu ali, mas foi necessário um certo tempo para apurar e decantar a obra que se delineava na minha mente.”

E havia mais uma coisa. “Posso ter amado minha mãe, mas não era muito bom de palavras com ela. Talvez fosse porque as palavras não tinham segredos para ela, mas nunca fui de muita conversa. Pode ser que me faltassem as palavras que, no fundo, sabia que sobravam para ela. Escrever esse filme talvez tenha um processo mais lento que o habitual. Busquei em meus diários coisas que havia escrito enquanto ela estava doente. Eram muito dolorosas. Soube desde logo que não conseguiria usá-las. Talvez como compensação, percebi que teria de me comprometer mais ainda que nos anteriores. Fiz coisas que nunca havia feito. O carro que Margherita dirige é o dela, os livros na biblioteca são da minha mãe, as roupas da atriz que faz seu papel (Giulia Lazzarini) são as que Agata usou no hospital. Entendo que, para muita gente, tudo isso parecerá muito mórbido, mas eu precisava desse comprometimento, dessa espécie de personalização.”

No filme, Margherita, tão centrada nos problemas da realização do filme, perde o foco quando o assunto é a mãe. Não aceita ou não entende o que lhe dizem os médicos, o irmão. “Isso é uma coisa muito minha, que projetei nela”, explica Moretti. “Às vezes, quando tentava falar com os médicos, experimentava esse sentimento de pane. Não sei como outras pessoas e culturas lidam com esse sentimento, mas, para mim, era como se me faltasse alguma coisa. A perspectiva da morte de minha mãe despertava em mim esse sentimento de estar, ou vir a ser incompleto.” O curioso é que, desde o começo, para falar sobre sua mãe, ele sentia que não poderia ser o protagonista. “Queria ter um diretor em cena, mas não queria arcar com a responsabilidade de me dirigir nessas circunstâncias. Dei-me conta de que precisava de uma mulher. Uma diretora daria mais humanidade a todo o processo e o legado de minha mãe, para mim e para seus alunos, foi essa humanidade.”

Desde o momento em que se definiu a diretora, ele sentiu que precisava de mais um vértice. “Não queria contar só a história de mãe e filha. Passei a pensar em três gerações e nos problemas de entendimento entre mãe e filha, e avó. Toda geração tem sua dificuldade. Mia Madre é também sobre isso.” Poderia ser um filme sombrio, amargurado – “Mas não seria digno de minha mãe. Pensei então em formas de aliviar a carga dramática. Um pouco de comédia começou a surgir, e eu creio que terminei canalizando para o personagem de John (Turturro).” O filme tem até essa cena, na fábrica, em que Turturro dança. Se há uma coisa que Nanni Moretti não gosta é de interpretar o próprio trabalho. Nem psicanalítica nem politicamente. “Mas não é minha função. Quem deve fazer isso são vocês – críticos, o público.”

Sua preferência pela dança, presente em outros filmes, ganha uma explicação simples. “Mas é que eu não sei ballare (dançar). Sempre fui tímido, atrapalhado. Adoro essas pessoas que soltam o corpo e dançam. John (Turturro) foi soberano no set. São momentos mágicos. Um filme precisa desses momentos, não é só uma construção racional ou cerebral. (Roberto) Rossellini dizia que o bom diretor é aquele que fica aberto para o que o set lhe oferece. É o que tento fazer.” A grande piada do filme, segundo o próprio Moretti, é a maneira como Margherita, como diretora, tenta dirigir seus atores. “Dizem sempre que tento impor um estilo mais sofisticado aos atores que trabalham comigo. Joguei isso para ela, mesmo que o filme dentro do filme seja mais no estilo (social) de Ken Loach.”

ENTREVISTA - Margharita Buy - 'Nunca senti o filme como espelho do real'

Nem foram tantos filmes assim, mas o suficiente para que Margherita Buy se sinta confortável trabalhando com Nanni Moretti. Em Cannes, o que ela mais teve de responder foi como era ser a versão feminina de Nanni.

E então, como é?

Ser Nanni de saias? Todo mundo me pergunta isso. Ninguém quer saber como é ser irmã dele na ficção. Ele me explicou que o filme seria diferente se minha personagem fosse homem. Ele precisava de uma mulher para adoçar os conflitos.

Como foi ser a diretora do filme dentro do filme?

É uma mudança de perspectiva muito interessante. De repente, diante da câmera, eu tinha de olhar por trás da câmera e dar ordens a um cameraman fictício. O cinema tem sempre esse aspecto de espelho da realidade, mas nunca senti tanto o espelho como nesse set.

E como é receber as ordens de Nanni Moretti?

Já o conheço para intuir o que vai me pedir. Em geral, Nanni escreve sozinho, mas dessa vez teve colaboradoras no roteiro, mulheres que já escreviam numa embocadura feminina. E por mais doloroso que o tema fosse para Nanni, o set foi tranquilo, sem estresse.

 

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