México é destaque da Mostra de São Paulo

Seriam duas das grandes atrações da 24.ª Mostra - os filmes de Arturo Ripstein, Así Es la Vida e La Perdición de los Hombres. Desacertos de última hora impediram que os filmes participassem da programação. Nem por isso o México deixa de ser um dos destaques dessa edição do evento mais importante de cinema que se realiza em São Paulo. O México comparece com diversos filmes da retrospectiva de Luis Buñuel e também com Amores Perros. O filme de Alejandro González Iñarritu é a grande atração de terça-feira, mas você já começa a programar-se amanhã.As atrações da retrospectiva Buñuel são El, uma história de ciúme com Arturo de Córdova que o mestre realizou em 1953 e foi lançada nos cinemas brasileiros como O Alucinado, e também Ensayo de un Crímen, de 1955, que Pedro Almodóvar já citou mais de uma vez em seus filmes. Há outra atração latina muito especial, para amanhã - Lista de Espera é o primeiro filme que Juan Carlos Tabío realiza sozinho, após co-dirigir Morango e Chocolate e Guantanamera com Tomás Gutierrez Alea. E há a retrospectiva do francês Louis Feuillade.Tanta importância está sendo atribuída às retrospectivas de Buñuel e Satyajit Ray nessa mostra que a de Feuillade está sendo relegada a um injusto segundo plano. Ela ocorre na sala UOL, do meio-dia às 17h30, exibindo três filmes da série Vampiros. O Espectro/A Evasão da Morte, Satanás/O Mestre do Espanto e Os Olhos Que Fascinam vão revelar, para quem nunca viu o cinema do pioneiro que os críticos gostam de chamar de "Griffith francês". Com ele poderá ocorrer outra revelação, a da lendária Musidora, sempre com seu collant negro.Ambos são pseudônimos. Feuillade, na verdade, era Lunel Hérault e Musidora, Jeanne Rogues. Ele era um homem de cultura que, no cinema, começou como assistente da primeira mulher a exercer a direção - Alice Guy. Feuillade foi diretor artístico dos Estúdios Gaumont, no começo do século. Criou a série Film Esthétique, quando os filmes de arte entraram na moda, mas nunca deixou de considerar o cinema como um entretenimento das massas. Dele se diz que gostava de servir ao gosto do público. Fazendo-o criou a obra que o consagrou como um dos grandes pioneiros do cinema europeu.Séries - Os primeiros filmes foram cômicos, depois ele fez uma série que batizou como Cenas da Vida Real e logo outra série cômica com o personagem Bébé. Estava aquecendo-se para as séries que fizeram sua glória - Fantomas e Les Vampires. A primeira narrava as fantásticas aventuras do personagem criado em 1911 por Pierre Souvestre e Marcel Allain. Foram feitos cinco filmes. Quando a série entrou em declínio, Feuillade iniciou outra - a dos vampiros. Nela, o papel principal é de uma mulher, Musidora, com sua graça frágil e sinuosa que criou, talvez, o primeiro grande mito sexy do cinema da França. Musidora é uma figura tão importante do cinema francês do começo do século que o crítico Olivier Assayas, passando à direção, dedicou-lhe um filme interpretado pela estrela de Hong Kong, Maggie Cheung, com quem se casou.Por sua vertente popular, pelo tom melodramático e até pelo mau gosto das histórias e situações, Feuillade nunca conseguiu atrair os primeiros críticos, que se pretendiam sérios. A primeira grande revalorização veio com os surrealistas - o grupo de André Bréton tinha-o na conta de gênio. Passaram-se os anos, Feuillade caiu de novo no esquecimento, mas nos anos 40 foi resgatado como poeta da urbe. Desde então, nunca decaiu do seu panteão de cineasta popular fundamental. As estripulias de Musidora no cinema de Feuillade são atrações muito especiais de amanhã. A poesia urbana desses filmes lhes confere um valor quase profético de documentos.Por mais significativos que sejam esses documentos, a Mostra, se abre uma janela para o passado, pretende também, e principalmente, abrir espaço para as perspectivas do cinema mundial atual. O cinema latino reivindica sua fatia. Lista de Espera foi exibido fora de concurso no Festival de Cannes, em maio. Jorge Perugorría faz um dos personagens principais. Ele estava em Cannes mostrando o filme de Ruy Guerra, Estorvo, que participou do concurso. Em entrevista ao Estado, fez saber quanto estava orgulhoso desses dois filmes - o de Guerra por sua ousadia formal e pela crítica do mal-estar contemporâneo, o de Tabío por representar outro tipo de cinema, mais comunicativo, menos ´difícil´, sem prejuízo da qualidade.Essa qualidade, a bem da verdade, foi contestada por diversas vozes em Cannes. Lista de Espera não teve unanimidade de elogios, mas quem gostou, se isso representa alguma coisa, gostou muito. O filme tem ecos de Guantamera. Passa-se em boa parte numa rodoviária, na qual os passageiros esperam um ônibus. Entrecruzam-se as histórias, algumas cômicas, outras dramáticas, de forma a compor um painel sobre a sociedade cubana atual. Tabío é herdeiro de Alea. Pode criticar o país, mas com certeza não é anticastrista. E ama seu povo.Há mais dois filmes que são atos de amor, amanhã. Dois documentários brasileiros. Por ordem de exibição, Nasci Mulher Negra, de Maria Luiza Mendonça e Vicente Franco, e O Sonho de Rose - 10 Anos Depois, de Tetê Moraes, que recebeu o prêmio de melhor documentário no Festival do Rio. Após o segundo, haverá debate com a diretora. Nasci Mulher Negra é um tributo a Benedita da Silva e sua dupla luta, por ser mulher numa sociedade controlada pelos homens, e negra numa sociedade que se diz integrada e miscigenada, mas não é.Logo no começo, o sambista Neguinho da Beija-Flor canta uma música que diz: "Se eu pudesse dar um toque no destino/não seria peregrino/ nesse imenso mundo cão". Benedita diz que aquela poderia ser a sua música. Essa mulher conseguiu dar um toque no destino. Mudou sua vida e está lutando para mudar as vidas de milhões de brasileiras ainda amarradas ao tronco da desigualdade e de uma escravidão que não ousa dizer seu nome.Terra - É um belo filme, na sua polifonia musical e de vozes. O marido (Antônio Pitanga), os filhos, gente simples do morro, lideranças comunitárias, todos historiam a trajetória de Benedita num relato curto (44 minutos) e emocionante. O Sonho de Rose não emociona menos com sua discussão sobre a questão fundiária no País, retomando a vertente de outro documentário da diretora - Terra para Rose. O filme de Tetê Moraes termina com uma canção que denuncia a opressão e desfralda a bandeira da esperança. É lindo demais. E há Amores Perros. Foi uma das boas surpresas do Festival de Cannes deste ano, há de ser também da Mostra. Não por acaso, ganhou o prêmio da importante Semana da Crítica. Se você possui qualquer um dos cartões colocados à venda já pode garantir amanhã o seu ingresso para a sessão de terça. Não arrisque. É um filme de estreante, o que o habilita a concorrer ao troféu Bandeira Paulista de melhor filme da 24.ª Mostra. O diretor González IÏarritu compõe um painel sobre a cidade do México articulando três histórias em torno de um acidente de carro. Por meio dele, entram em contato, entre si, pessoas que, de outra maneira, talvez nunca se conhecessem.Três histórias, de amores e de cães, pois o ´perros´ do título não é acidental. Há cachorros em todas as histórias. A primeira começa justamente no submundo, em meio a combates de cães tão violentos que lembram as rinhas de galos. O treinador de um desses cães é um homem enojado. Quer fugir com a cunhada. As outras histórias tratam de um homem insatisfeito no casamento e que também quer fugir para ser feliz ao lado do novo amor que acaba de descobrir. A terceira história volta ao começo, ao cão ferido que encontra seu anjo salvador. González IÏarritu cria um sugestivo jogo de simetrias e espelhos. Seu filme merece o prêmio que ganhou.

Agencia Estado,

22 de outubro de 2000 | 20h09

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