Camila Cornelsen/Divulgação
Camila Cornelsen/Divulgação

'Meu Nome É Bagdá' retrata a mulher e o skate no espaço urbano

'Não se deve falar sobre diversidade e representatividade sem coragem de praticá-las', afirma a diretora Caru Alves de Souza

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

19 de setembro de 2021 | 05h00

Caru Alves de Souza conversa com a reportagem do Estadão por telefone, de Madri. Ela está na Espanha fazendo um curso master de pintura no Museu Reina Sofia. O assunto é Meu Nome É Bagdá, longa livremente inspirado no romance de Toni Brandão e que está em cartaz no cinema. Estreou na Berlinale do ano passado e recebeu o prêmio de melhor filme do júri na mostra Generation. Desde então, percorreu dezenas de festivais em todo o mundo – que Caru não pôde acompanhar presencialmente. Ganhou nada menos de 14 prêmios internacionais.

A previsão era estrear o filme ainda no primeiro semestre de 2020, mas aí veio a pandemia. Neste período de isolamento, o que seria a novidade de Meu Nome É Bagdá, a presença feminina no skate, terminou atropelado pelo fenômeno Rayssa Leal, a fadinha que recebeu a prata da categoria em Tóquio, a primeira da história em que o skate obteve reconhecimento como esporte. 

O triunfo de Rayssa pode ajudar na promoção de Bagdá? “Acho que sim, cresceu muito o interesse pelo skate feminino. Eu mesma sigo a Rayssa nas redes sociais”, conta Caru. 

Filha da também cineasta Tata Amaral – e de Francisco César Filho, o Chiquinho, empreendedor cultural –, Caru estreou no longa com De Menor, sobre uma advogada idealista que tem a guarda do irmão caçula, e ele é infrator, tem problemas com a Justiça. Entre um e outro, Caru andou investigando as intervenções de mulheres no espaço urbano. Fez duas descobertas importantes – a do livro de Toni Brandão, Bagdá, o Skatista, e das garotas que praticam skate na Praça Roosevelt. “Quando decidi adaptar o livro, tinha outro entendimento do esporte e da própria realidade. Para início de conversa, Bagdá, no livro, é homem. Poderia ter feito outro filme com personagem masculino, mas as garotas do skate mudaram minha perspectiva. Bagdá, no filme, é a prima do skatista do livro.”

A diretora admite que teve de enfrentar, e vencer, muitos problemas. O menor deles talvez tenha sido a harmonização de atores profissionais e naturais, como Grace Orsato, que faz Bagdá. “Os atores naturais viraram tendências fortes no cinema brasileiro”, reflete. “Já aprendemos a lidar com isso.” Mais complicado talvez tenha sido a consequência lógica da história. Como se filma o skate? “É quase tão complicado como filmar futebol, ou qualquer outro esporte. É imprevisível. Um gol sensacional? Como garantir que será feito para a câmera? Com minha diretora de fotografia, Camila Cornelsen, discutia muito a maneira de filmar. Planejávamos os takes, mas entra sempre o imponderável. Filmamos muito, improvisamos muito.”

E mais – “Todo mundo fala, e sente, a espontaneidade dessas cenas, mas essa espontaneidade é uma coisa preparada. É produto de uma construção muito elaborada, senão não funciona. Começou no roteiro, quando a função de cada cena dessas na história era minuciosamente avaliada. Nesse sentido, o laboratório Novas Histórias do Sesc foi muito valioso. E antes do set, ainda tivemos a preparação do elenco. Marina (Medeiros) foi incrível. Mais do que preparar para a cena, o trabalho foi de criação de laços. As amigas, a família, os garotos.” Na trama, Bagdá se inicia num grupo de garotos antes de descobrir um grupo de garotas na periferia. Ocorre, caracteristicamente, um caso de abuso e discriminação. A coisa toda fica mais complexa. 

Essa identidade de grupo nasceu como conceito de produção. “Estamos contando uma história de gente que não vive exatamente segundo códigos de comportamento ditados pela sociedade. As garotas transgridem, ao buscar seu espaço no mundo antes masculino do skate. Esse avanço feminino vale em toda parte, até no cinema. Temos menos mulheres diretoras, mas não é por falta de capacidade. O discurso machista é que tenta fazer acreditar nisso.”

A equipe toda foi formada desse jeito – mulheres, mulheres trans, homens gays, pessoas negras. “Não se deve falar sobre diversidade e representatividade sem coragem de praticá-las.” Em Berlim, na apresentação de seu filme, Caru já havia encarado um dos aspectos mais libertários da trama, e da personagem.

“No que diz respeito à vida amorosa de Bagdá, a ideia era deixá-la ambígua, ou livre, circulando entre garotos e garotas. Bagdá ainda está nesse momento de afirmação de gênero, da própria identidade. A resposta do público tem sido gratificante. As pessoas, especialmente os jovens, percebem isso.” 

 

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