Guillaume Schiffman
Guillaume Schiffman

'Meu Anjo' traz a infância em perigo, no novo trabalho de Marion Cotillard

Atriz consegue instilar nuances dramáticas mesmo a essa personagem chapada

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2018 | 06h00

Há um tema que vem se impondo no cinema contemporâneo, um olhar da infância sobre o mundo adulto. Não que isso seja novidade, mas a intensidade atual revela certo clima angustiado em relação às nossas crianças – que tipo de mundo lhes estamos dando e legando?, parecem se perguntar os cineastas e artistas em geral. Recentemente, entrou em cartaz na cidade o tocante Minha Filha, de Laura Bispuri. Nesta mesma edição do Caderno 2, destaca-se um filme da Mostra de Cinema, A Rota Selvagem, sobre o mesmo tema. E hoje entra em cartaz no circuito comercial Meu Anjo. O primeiro filme é italiano, o segundo norte-americano dirigido por um britânico, o terceiro, francês. A preocupação com as crianças pipoca em toda parte. 

“Meu Anjo” é a maneira como Marlène (Marion Cotillard) trata sua filha Elli (Ayline Aksoy-Etaix). É anjo para cá, anjo para lá, mas o fato é que, em contraste com o tratamento carinhoso, Marlène parece distante de ser uma mãe modelo para a garota. Logo nas primeiras cenas, Marlène chega em casa bêbada e acorda a criança para que esta lhe faça cafuné. Em seguida, temos a sequência em que Marlène, de vestido de noiva, se prepara para seu casamento, para finalmente ter uma vida estável. No decorrer da festa, o futuro marido a pega atracada a um garçom do bufê, o que coloca tudo a perder. 

Enfim, com uma mãe com tal comportamento, a garota não poderia escapar incólume. Apresenta problemas na escola, sofre bullying dos colegas e, para cúmulo, começa a experimentar as bebidas que tanto atraem sua mãe. Tudo antes de ser abandonada. 

Do ponto de vista cinematográfico, não há tantas sutilezas assim na maneira como a história é contada. Marion Cotillard é uma grande atriz, e tomamos um susto inicial ao vê-la totalmente loira e com aparência vamp, encenando uma personagem que seria uma espécie de clichê da irresponsabilidade materna. 

No entanto, Cotillard consegue instilar nuances dramáticas mesmo a essa personagem chapada. É uma grande atriz e artistas desse nível costumam ter bom conhecimento da natureza humana através da empatia. Sabem que, na maior parte dos casos, as pessoas não agem mal por vontade própria ou deformação de caráter, mas por fraqueza pura e simples. São muito mais dignas de compaixão que de ódio. Mas vá explicar esse tipo de sutileza no Brasil contemporâneo…

De qualquer forma, a intenção da diretora francesa Vanessa Filho parece ser não a de desculpar de maneira acrítica, mas, pelo menos, tentar compreender a personagem de Marlène. A câmera sempre próxima ao rosto busca desvelar traços de tristeza escondidos sob a capa do egoísmo e da irresponsabilidade materna. 

Dito isso, é verdade que a maior parte do tempo, em especial na segunda metade, será o olhar da criança o dominante sobre a história. O que ela tem de comovente é a maneira como também procura seu ponto de referência. Elli, que não tem pai, e nunca o conheceu, procura de certa forma uma figura paterna substitutiva. Meu Anjo é filmado na região da Côte d’Azur, no Sul da França. Um panorama paradisíaco como pano de fundo para seres em desagregação. 

 

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