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'Meu Amigo Hindu': é o radical autorretrato de um cineasta

Longa é dirigido por Hector Babenco

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 Março 2016 | 03h00

O impulso memorialístico é forte no ser humano. Ainda mais quando se é artista. Quando se procura incorporar a própria experiência pessoal em ficção e transformá-la em beleza e transcendência, de modo a ser compartilhada com outros seres humanos. Esse impulso é a mola mestra de Meu Amigo Hindu, de Hector Babenco. 

O memorialismo não se faz sem invenção. Quanto de Fellini existe no Moraldo (Franco Interlenghi), de Os Boas-Vidas? Como Moraldo, Fellini foi o único de um grupo de amigos que conseguiu sair da província, de Rimini, para ganhar a cidade grande, Roma, e se reinventar como gente e como artista. Mas Moraldo não é igual a Fellini. Assim como, podemos deduzir, Diego, de Willem Dafoe, não é Hector Babenco, mas um personagem de Babenco inspirado em si mesmo. 

Esse é um paradoxo da autoficção. Falo de mim mesmo, mas de maneira desviada, tratando-me como personagem de ficção, sujeito em parte às exigências do real de uma história acontecida, mas também aos caprichos da ficção. “Eu é um outro”, dizia Rimbaud. 

Daí não fazer tanto sentido comparar a trama de Meu Amigo Hindu com a trajetória real de Babenco, embora as histórias possam se confundir. Fiquemos com Diego. Ele é o cineasta que se descobre portador de um câncer. Está se casando neste momento com a companheira (Maria Fernanda Cândido), que o ajudará a atravessar o tratamento atroz nos Estados Unidos. Curado, mas cheio de sequelas, ele procura voltar à vida. Descobre-se impotente, escreve, luta. Encontra por fim a luz, na figura de uma bela mulher (Barbara Paz). 

Essa trajetória na autoficção não é fácil. É uma corda bamba. Flutua no espaço, sem rede de segurança e vê-se presa fácil da pecha de cabotinismo. Ou de versão autocomplacente de si mesmo. Para o espectador, que vê aquilo como um filme e nada mais, fica mais fácil acompanhá-lo como obra de ficção. Para quem conhece, mais ou menos, o autor, a tentação é sempre comparar a versão do filme com a que se supõe seja mais próxima da “verdade”. Mas de que verdade falamos?

Meu Amigo Hindu tem pontos frágeis. A começar pela improvável situação em que todos falam inglês numa São Paulo subitamente anglófona. Há, depois, as cenas de hospital, exageradas, embora o diretor afirme ter podado 11 minutos do longa. Algumas situações artificiais, nenhuma delas comparável ao inacreditável jantar de família. Pode ter sido assim, mas não parece verossímil. E, na tela, o que conta é a verossimilhança, pelo registro proposto pelo cineasta. 

Esses reparos não tiram a força de um filme construído nessa dialética entre trevas e luz, morte e amor, impotência e criação. Babenco sabe filmar, sempre filmou bem. Mesmo em filmes menos queridos pela crítica, como o também autorreferente Coração Iluminado, soube manter essa fluidez segura da mise-en-scène, não muito comum num país que confunde invenção com desleixo. Os atores parecem bem dirigidos e a energia de certos momentos (em especial do desfecho) compensam a falta de convicção de outros. Quanto ao enredo, como dizem os italianos, “Se non è vero, é ben trovato”. Se não é verdade, é bem contado. 

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