"Metrópolis" passa restaurado e com orquestra

Conta a lenda que H.G. Wells, ovisionário autor de A Máquina do Tempo, não se agüentouquando viu Metrópolis, de Fritz Lang. O ano era 1926, masele arriscou a previsão: "Este será o filme mais louco dahistória do cinema." A utopia de Lang começou a surgir quandoele teve a primeira visão dos arranha-céus de Nova York. Langcooptou sua mulher, Thea Von Harbou, para escrever o roteiro.Criaram um marco da ficção científica, mas tropeçaram naideologia ao propor uma ingênua comunhão do capital e dotrabalho como solução para os problemas sociais da humanidade.Piscator e Bertolt Brecht morriam de rir do filme,considerando-o equivocado. Azar deles. Metrópolis foi oprimeiro filme incluído no registro Memory of the World, dasNações Unidas. Quase 80 anos depois, ressurge em todo o seuesplendor visual - e agora auditivo. Na época do cinema mudo, o filme era exibido comacompanhamento de piano. Em 1986, comemorando os 60 anos deMetrópolis, o compositor Giorgio Moroder recuperou algumasimagens perdidas do clássico langiano, colorizou-o e acrescentoua tudo isso uma música de rock. A poluição visual e sonoraescandalizou os puristas, mas para as novas geraçõesMetrópolis foi uma descoberta. Compararam-no a BladeRunner, o Caçador de Andróides, a fantasia futurista de RidleyScott, cujo impacto era, então, recente (o filme é de 1982).Metrópolis está agora de volta, com o visual antigorecuperado e aperfeiçoado - e com novo acompanhamento musical. Anova versão desembarca domingo no Brasil, numa iniciativaconjunta da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, doTeatro Municipal e do Instituto Goethe, depois de integrar aretrospectiva de Lang no Festival de Berlim do ano passado. No domingo e na segunda, o maestro Frank Strobel sobe aopalco do Municipal para reger a nova partitura encomendada aocompositor Bernd Schultheis, o mesmo que, há dois anos, estreouno Brasil, na Sala São Paulo, a partitura que compôs para outroclássico alemão, o Fausto de Friedrich Wilhelm Murnau. Numencontro no Municipal, na quarta-feira, Strobel, Schultheis eThomas Schadt, diretor de Berlim, Sinfonia de uma Metrópole,recriação da obra famosa de Walter Ruttman, nos anos 1920, queintegra a programação do 7.º É tudo Verdade - FestivalInternacional de Documentários, reuniram-se, a pedido dareportagem, para discutir cinema, música e urbanismo. Strobel justifica a iniciativa da Fundação Murnau, quefinanciou a recuperação do filme e a criação da nova trilha,dizendo que Metrópolis representa um aspecto muito importante dacultura cinematográfica alemã (e da República de Weimar). Langformulou uma das primeiras utopias urbanas do século 20.Influenciou toda a ficção científica do século passado. A visãourbana de um cult como Blade Runner seria impensável sem aobra pioneira de Lang. Ainda hoje, os croquis do filme sãoconsiderados laboratórios da modernidade cinematográfica earquitetônica. Criou-se um mito em torno de Metrópolis, maso filme, desde a estréia, foi sendo sucessivamente remontado,reduzido e desfigurado. Para preservar sua integridade, aFundação Murnau lançou o projeto de restauração, com a ajuda dediversos arquivos cinematográficos ao redor do mundo. Não é o Metrópolis ideal, anuncia Strobel, que dizque muitas cenas foram irremediavelmente perdidas. Mas é o quede mais próximo se pôde chegar da versão de Lang. Foram anos detrabalho e só mais recentemente Schultheis integrou-se àoperação de resgate. "A restauração pedia uma nova músicasinfônica à altura da reconstrução da obra", diz o maestro. Eele acrescenta que Schultheis conseguiu o mais difícil: "Suapartitura traz no bojo um comentário crítico aos excessos econtradições do filme, que sempre foi admirado pelo visual, masnunca foi uma unanimidade ideológica." Schultheis funde a sonoridade complexa da nova música ea funcionalidade necessária à dramaturgia cinematográfica. Eleexplica o conceito: "Aplico a concepção do ´concerto grosso´,oriunda do período barroco, às necessidades de uma sociedademoderna." Acrescenta que a partitura abre uma perspectiva doséculo 20 tardio sobre o filme. "A linguagem visual de Lang éde uma clareza que dispensa comentários; o que eu faço com minhamúsica é servir de mediador entre o público de hoje e o filme,criando uma ponte no tempo e no espaço." O resultado dessetrabalho poderá ser conferido amanhã e segunda no Municipal.Thomas Schadt, diretor de Berlim, opera em outro conceito: elenão faz um remake da obra clássica de Ruttman. Propõe umarecriação, acaso uma releitura. Schadt filmava e os compositoresIris Ter Schipshorst e Helmut Oehring trabalhavamsimultaneamente na música. A Berlim de Schadt não é obra de umvisionário como Lang, mas sua sinfonia da metrópole também querfazer dialogar cinema, música e arquitetura.Serviço - Metrópolis. Domingo, às 11 h; segunda, às 21 h. De R$5,00 a R$ 20,00. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azedo, SãoPaulo, tel. 222-8698

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.