'Meteora' tem fino artesanato trabalhado em luz e sombras

Meteora é um filme feito de climas. Estamos na Grécia central, em que monastérios são erguidos em escarpas quase inacessíveis. Dois conventos se enxergam, como dois pares opostos, ou como inimigos - um masculino, outro feminino. Monges e freiras.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2014 | 21h34

O filme de Spiros Stathoulopoulos é fino artesanato. O registro fotográfico trabalha em luz e sombras. Os semblantes, à luz natural de velas, lembra sequências famosas de Barry Lyndon, de Stanley Kubrick. Além disso, o diretor trabalha com sequências de desenho animado em algumas cenas. É tudo muito bonito e sugere a iconografia ortodoxa, com seus tons de ouro e cores escuras. Austero, porém não soturno.

Em meio a essa austeridade, os dois protagonistas, Theodorus e Urania, que dedicam suas vidas ao ascetismo, à mortificação do corpo, à meditação. No entanto, essa disciplina espiritual não basta para calar o chamado da carne. Ah, a carne humana... essa antiga adversária das religiões, da rigidez dos costumes e dos dogmas, e que ensejou tantos combates inúteis entre o desejo e os imperativos morais.

Desse material é feita a história, que não se escancara aos olhos do espectador contemporâneo, esse voyeur apressado e insaciável. Ela segue lenta, escandida em planos longos e silenciosos, acompanhando o dilema em que os jovens religiosos são colocados. Há como uma imersão no cotidiano dos mosteiros, erguidos como torres antagônicas nos pilares de arenito. Aspiram ao céu, mas estão presos à Terra, sutis metáforas da condição humana, frágil em sua vontade e poderosa em seu desejo.

A câmera segue também o cotidiano do vilarejo que circunda os mosteiros. Nele, a vida é bem terrena. Há o trabalho cotidiano, a relação com os bichos e com as colheitas, o velho agricultor que toca flauta e dela tira melodias ancestrais, como vindas da aurora do mundo. A vida é áspera, meio ancestral. Sente-se quase o aroma da Grécia imemorial, cheiro de olivas, carne de ovelha, vinho.

O filme se coloca no plano de uma beleza austera, quase religiosa, ela também. Nesse ponto, pode causar algum incômodo, como se manejasse demasiados clichês do cinema dito "de arte". Este se caracteriza por um certo exibicionismo artístico, uma afetação que, em casos extremos, pode beirar ao cabotinismo.

Por sorte, não é o caso de Meteora. Há, nele, elementos que corroem essa austeridade que às vezes sentimos como forçada, ou fechada demais em si mesma. Por exemplo, há uma sequência em que Theodorus e Urania fazem um piquenique embaixo de uma árvore, na imensidão deserta. Nesse momento, apesar das vestes religiosas, estão sós - e quase nus, metaforicamente falando. Os diálogos circundam o desejo amoroso e são apenas alusões, cada vez mais diretas, à situação em que vivem. Brincam com a diferença de sotaques da palavra "desespero" quando pronunciada em grego ou em russo. Riem, mas estão falando do que vivem, do desamparo e do desespero.

Por outro lado, há uma catarse violenta no que seria a liberação do pecado e da culpa - as chagas do Cristo sangrando a ponto de tudo e a todos envolver numa maré vermelha. Isso é feito em animação - e funciona muito bem. Como se, enfim, as barreiras caíssem, os diques cedessem sob a pressão mais poderosa do desejo e da promessa de felicidade. Como se a Terra vencesse o céu. 

Tudo o que sabemos sobre:
Meteoracinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.