Mestre do som no cinema brasileiro ganha documentário

O que acontece quando o cangaceiro da moviola encontra o homem-ruído? Neste caso, o encontro virou um documentário. Aos 60 anos, o pernambucano Severino Dadá, um dos mais ativos montadores do cinema brasileiro, está estreando na direção com o documentário Geraldo José - O Som sem Barreiras. Na frente das câmeras, o mais célebre técnico de som do cinema e da televisão, 73 anos, há 40 conhecido como o "homem-ruído". Os dois são ligados por três décadas de amizade e muitos trabalhos em conjunto. Severino Dadá, carinhosamente chamado no meio de "cangaceiro da moviola", contabiliza em quase 300 os filmes que já montou para diretores como Nelson Pereira dos Santos, Rogério Sganzerla, Ruy Santos, Paulo Thiago e o colombiano Jorge Sanjinés. Foi co-roterista de Crueldade Mortal, de Luiz Paulino dos Santos, e já meteu a cara larga e simpática em diversos filmes como ator bissexto. Em Tenda dos Milagres, por exemplo, ele aparece discutindo a montagem do filme dentro do filme. O capixaba Geraldo José não fica atrás em matéria de filmografia. Sua farta cozinha sonora temperou nada menos que 504 longas-metragens, sem contar uma infinidade de curtas, novelas e séries de televisão, comerciais e institucionais. E ainda os efeitos sonoros de discos de Moreira da Silva, Chico Buarque (lembra das sirenes de Acorda Amor?), etc. e tal. Trata-se, provavelmente, do técnico mais requisitado de toda a história do audiovisual brasileiro. Uma história que, para ele, começou ainda nas chanchadas da Atlântida e chegou até Baile Perfumado, quase na virada do século. Severino e Geraldo estavam juntos ao mostrar o documentário de 52 minutos ao repórter do Estado, na casa do segundo. O ambiente não podia ser mais doméstico. Dona Dalva Burlamaqui, mulher de Geraldo, providenciou saborosos pastéis fritos na hora - segundo eles, combustível essencial em todas as fases da produção, patrocinada por um concurso do Ministério da Cultura e estimulada por Roberto Leite, diretor do Centro Técnico Audiovisual da Funarte. O vídeo, inscrito no próximo Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, combina a simpatia do relacionamento de dois velhos amigos com a clareza no resgate de um ofício que, se antes já era pouco conhecido do público, em tempos de edição digital pode ganhar foros de artesanato superado. Geraldo José discorda com veemência: "Quero ver se nos CDs dos gringos tem o ruído das favelas, de um garimpo brasileiro, de uma usina de cana, de uma bandinha do interior ou o clamor de uma torcida no Maracanã", desafia. Ele foi o responsável pela profissionalização de sua especialidade no Brasil. Chegou a ter um arquivo com 12 mil sons catalogados em fitas magnéticas - de um esfregar de mãos a explosões de gás e sinfonias de abelhas. Uma coleção iniciada apenas como souvenirs de seus primeiros trabalhos no cinema, em fins dos anos 50. O documentário de Severino Dadá aborda sua história desde as origens humildes, em Mimoso do Sul (ES) e Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro. A ponte para o meio artístico foi a Rádio Tupi, onde ele conseguiu um emprego de office-boy do ator Paulo Gracindo, então diretor do departamento de rádio-teatro. Desde cedo curioso pela sonoridade das coisas, Geraldo aprendeu os rudimentos da técnica com o contra-regra Olavo Drummond. Começou a construir pequenas traquitanas de madeira e metal, capazes de reproduzir a marcha de um batalhão, os sons de sinos, a partida de uma maria-fumaça etc. Ainda hoje, ele as manipula com destreza e prazer juvenis. Juntamente com o manejo de objetos, desenvolveu um repertório de sons guturais para aplicar em brigas corporais, histórias de terror como as do programa radiofônico Incrível! Fantástico! Extraordinário!, cenas de intempéries naturais e até de sexo. O cinema se abriu com um convite para fazer sons complementares para a chanchada Aviso aos Navegantes, de Watson Macedo, e Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, o clássico predecessor do Cinema Novo. Nelson não o largou mais. Fosse para as brigas de facão de Mandacaru Vermelho, fosse para o resfolegar da cachorra Baleia em Vidas Secas. Vejam só, Baleia foi "dublada" por Geraldo José! Vidas Secas projetou definitivamente o nome do gênio dos "ruídos de sala" (ou foley, nos créditos de filmes americanos). Nelson resistia contra a opção de colocar música na trilha sonora do filme. De uma conversa com Geraldo nasceria a idéia de usar o ranger distendido de um carro de boi como "expressão do sofrimento e do lamento dos nordestinos caminhando pelo sertão", nas palavras do sonoplasta. Depois disso, a maior parte dos filmes brasileiros passou a cair nas mãos de Geraldo para terem suas lacunas sonoras preenchidas com propriedade, sentido dramático e criatividade. "A gente não pode esquecer que cinema é imagem e som. Um filme, quase sempre, só se torna plausível depois que o sonoplasta cobre os vazios deixados pela filmagem, que geralmente privilegia somente os diálogos", explica. Basta passar algumas horas em companhia de Geraldo José para perceber que o manancial de truques artesanais é inesgotável. Roçar uma caneta entre as palmas das mãos e uma aliança reproduz o tiquetaque de um velho relógio. Manusear toalhas molhadas numa bacia de plástico sugere o caminhar em terreno lamacento. Precisando de um pernilongo impertinente? Experimente alterar a rotação de um motor de aeromodelo, como ele fez para uma cena de Chuvas de Verão, de Cacá Diegues. Com toda essa prática, não admira encontrar o nome de Geraldo José ligado tanto a filmes de Glauber Rocha, Hector Babenco e Julio Bressane, como ao entretenimento infantil dos Trapalhões, a pornochanchadas, filmes policiais, etc. Quando o ator Claudio Cavalcanti tem um intercurso sexual com uma melancia em Vereda Tropical, o episódio de Joaquim Pedro de Andrade em Contos Eróticos, é o punho de Geraldo José que faz o serviço sonoro numa melancia de verdade. Para o épico Batalha de Guararapes, de Paulo Thiago, ele teve de formar sua maior equipe até hoje: seis pessoas para simularem os ruídos simultâneos de estampidos, choques de espadas, galopes, corpos caindo, vozerio, etc. Em Geraldo José - O Som sem Barreiras, ele aparece em plena ação, fazendo a sonoplastia de uma novela radiofônica, especialmente encenada para o documentário, e sonorizando filmes mudos de Humberto Mauro. No ano passado, criou toda uma nova gama de ruídos para o DVD remasterizado de O Descobrimento do Brasil, de Mauro. Mas o "homem-ruído" considera-se aposentado. Alega que o velho e bom ouvido não é mais o mesmo e aponta sucessores como Walter Goulart e Antonio Cesar. Pouco antes de se aposentar, decepcionado com o descaso da TV Globo pelo acervo que ele formou em quase 20 anos de trabalho na casa, Geraldo destruiu boa parte das suas fitas. Hoje possui "somente" cerca de 3 mil sons. Nas estantes de seu apartamento, na zona sul do Rio, repousam troféus de uma carreira gloriosa: a Coruja de Ouro e o Golfinho de Ouro, conferidos ao conjunto do seu trabalho. Severino Dadá gostou da experiência de dirigir e já prepara o roteiro de uma comédia musical de baixo orçamento sobre o submundo da televisão. Em parceria com o filho, o curta-metragista André Sampaio, e o jornalista Luís Alberto Rocha Melo, saiu em campo para captar recursos para outros documentários sobre o crítico e cineasta Alex Viany e o diretor Luiz Paulino dos Santos, hoje afastado do cinema numa comunidade mística do interior de Minas. A produtora Inventarte tem preciosos materiais inéditos sobre ambos. Com a autoridade de "cangaceiro da moviola", Dadá jura que chega lá. Mesmo que seja sem os pastéis da dona Dalva.

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