Mestre de "O Rio" volta com "O Buraco"

Nesta sexta-feira estreiam, somente no Rio de Janeiro, O Buraco, de Tsai Ming Liang e O Que a Lua Revela, de Christine Carrièrre. O primeiro é mais uma obra-prima do malaio Liang, vencedor do Leão de Ouro, de 1994, do Festival de Veneza com Vive L´ Amour e diretor de O Rio, mais conhecido no Brasil e também premiado no Festival de Berlim de 1994. A outra estréia, O Que a Lua Revela, é uma produção francesa, o segundo filme de Christine e uma interessante comédia disfarçada de drama.O nome de Tsai Ming Liang foi apresentado ao público brasileiro com O Rio, de 1997. A cena mais marcante do filme, e uma das melhores do cinema, é o encontro entre um rapaz e seu pai, numa sauna gay. Assim segue a maneira de filmar de Liang. Um cinema explícito, porém contido. Explícito nas imagens e na apresentação de uma dureza do cotidiano. Contido na narrativa, tensa e quase sem diálogos, e na fotografia, escura e bem delimitada. Em O Buraco, selecionado para o festival de Cannes de 98, ele conta sobre os últimos dias do final do século, em Formosa, Taiwan. Sob uma chuva que não diminui, há uma epidemia na cidade e um bairro terá de ser evacuado. Mas alguns residentes recusam-se a sair. A umidade destrói as estrutura de um prédio. O dono de um dos apartamentos chama o encanador, que não consegue consertar um vazamento e ainda deixa um enorme buraco no meio da sala. A partir daí, passa a haver uma estranha relação entre o morador do andar de cima e a moradora do apartamento abaixo. Eles passam a se vigiar pelo buraco e ela começa a criar situações imaginárias com o rapaz.Os diálogos praticamente não existem. O espectador é ambientado pelo som da TV da mulher, que noticia as mazelas e doenças que afligem a população. O homem é dono de um pequeno mercado, que ele abre todos os dias para nenhum comprador. Uma das raríssimas vezes que se escuta a voz dos personagens é quando ele chama o gato para dar-lhe comida. O bairro está abandonado. O vírus, criado por Liang, tem uma conotação metafórica. Os contaminados ficam com pânico do mundo, arrastam-se e escondem-se em buracos e cantos escuros. Analisado de forma ampla, são os mesmos males que acometem o homem contemporâneo nas grandes cidades: o medo e o anonimato.O ritmo tenso do filme, de ambiente frio, chuvoso, escuro e decrépito, é quebrado com os delírios da mulher, que se imagina em cenas de musicais bem peculiares, com direito a plumas e paetês. Em performances incríveis, ela dança com o extintor de incêndio e se imagina rodeada de homens, estilo Marilyn Monroe em Os Homens Preferem As Loiras.Mas Liang não se distância da contestação e do cinema crítico e deixa bem claro seu estilo franco de filmar no primeiro "encontro" do casal: cada um na sua área de serviço, com o temporal e os sacos de lixo dos vizinhos dos andares de cima caindo ao fundo. Os personagens, assim como os amantes de Vive L´Amour, protagonizados pelos mesmos atores do filme anterior, Yang kuei-mei e Lee kang-sheng, são tristes e frustrados.Francês - A outra estréia do circuito carioca é O Que A Lua Revela, de 1999, um filme simpático que traz à tona sentimentos que estão por trás das ações cotidianas. Ora divertido, ora dramático, o filme equilibra os estágios do sentimento humano. Cristhine Carrièrre assina a direção e o roteiro da história de uma família excêntrica, porém unida. Suzanne e Marie perdem a mãe e devem ocupar-se do pai, que se ressente da morte da esposa. Ele, por sua vez, se preocupa com as filhas, sem se dar conta de que precisa de atenção mais que ninguém. Entretanto, aos poucos a família se desfaz. As filhas crescem e querem seguir seus próprios rumos e o pai permanece solitário e inconformado.

Agencia Estado,

22 de setembro de 2000 | 02h28

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