"Messias" fala da crise das relações

Como tantos outros filmesargentinos contemporâneos, também este Esperando o Messiasdiz o seguinte: tentemos salvar nossa dignidade, mesmo na maisprofunda das crises econômicas. Trata-se de reação salutar docinema. Ele apela para a tradição, para a História e até mesmopara o cotidiano em busca de um sentido de orientação em meio aocaos. No caso de Messias, a estratégia do cineasta DanielBurman é tomar duas histórias paralelas e cruzá-las a partir decerto ponto. De um lado, há o rapaz judeu, Ariel, cuja famíliatem um restaurante e fica arruinada com o fechamento fraudulentode um banco. De outro, há Santamaria, empregado desse mesmo banco,que vai para a rua da amargura e passa a sobreviver de biscates,como tantos outros argentinos. O expediente dele é encontrardocumentos perdidos ou roubados e devolvê-los a seus donos, emtroca de uma pequena recompensa, é claro. Um desses documentosperdidos pertence à mãe de Ariel. Ariel, por sua vez, trabalha na televisão e namora umadocumentarista. Ela procura tipos especiais, representativos dacrise, e Santamaria é um deles. Vidas se cruzam assim mesmo,embora no cinema às vezes isso pareça artificial. Burman é um jovem diretor de talento. Esperando oMessias é seu segundo longa e já fez um terceiro, ointeligente Todas las Azafatas van al Cielo (Todas asAeromoças Vão para o Céu), ainda inédito por aqui. Como jovem,se interessa por esse tipo de recurso narrativo que tende a setornar dominante, pelo menos no cinema independente - históriasparalelas que se cruzam e deixam evidente, nesse cruzamento, opapel do acaso na vida das pessoas. Muita gente anda fazendo filmes assim, do mexicanoAlejandro González Iñarritu (de Amores Brutos) ao espanholJulio Medem (de Os Amantes do Círculo Polar). É uma forma denarrar interessante, que tem seu antecedente mais próximo nocandidato a clássico (ainda não foi batizado pelo passar dotempo), Short Cuts, de Robert Altman. O interessante em Burman é que, como em Iñarritu, essaforma de narrar não encobre o entorno social onde ela se passa.Pelo contrário, contribui para desvendá-lo. Em Messias o quese tem, o tempo todo, de maneira insistente e coerente, são asformas de habitar - e reagir - a um mundo convulsionado pelacrise. Ou: como a crise econômica se converte em crise social,em dramas humanos bem palpáveis, coisa que burocratas daeconomia não entendem, ou, se entendem, fingem que não é comeles. De certa forma, apesar de Ariel (Daniel Hendler) ser ocentro da narrativa, outros personagens se impõem em primeiroplano por sua força. É o caso do carismático Santamaria (EnriquePiñeyro), com sua consciência dramática de haver perdido nãoapenas o emprego, mas seu lugar na sociedade. Todo seu esforço,portanto, será para se reinserir, mesmo que simbolicamente,nesse mundo dos homens, que é também o mundo do trabalho, doconsumo, da residência fixa. Tudo isso lhe foi roubado, juntocom um casamento que desmorona quando perde o emprego. Eletentará se reabilitar também na esfera amorosa, namorando umafaxineira do metrô, interpretada por ninguém menos que aitaliana Stefania Sandrelli (de O Conformista, clássico deBernardo Bertolucci). Entra na receita de bolo de Burman também uma curiosainvestigação sobre o universo judaico de Buenos Aires. O diretordialoga com sua tradição, delimita seu alcance e tentarelacionar esse mundo particular da comunidade com aquele maisamplo da sociedade argentina. Segundo ele, o filme lhe foiinspirado num momento de crise do país mas também de reavaliaçãopessoal da tradição. Depois de tudo, ele, com 20 e poucos anos,se sentia livre para encontrar um destino pessoal. Não esperavamais seu Messias - para ficar na chave simbólica escolhida.Aliás, reiterada, de modo um tanto fácil pelo aparecimento debebê enjeitado, na parte final da história. Essa transformaçãode uma trama enxuta em apólogo natalino não contribui parareforçar um filme já em si interessante. Outro ponto que o enfraquece um pouco é o traço comum amuitas produções argentinas - a vocação literária dos diálogos.Às vezes dão impressão de terem sido trabalhados demais.Tornam-se ideais para serem lidos e nem tanto falados. Essafalta de espontaneidade às vezes se traduz também em estilo defilmagem acadêmico, o que não é o caso desse filme emparticular. Neste se tem a narrativa redonda e ágil, plugada em seumeio. Burman se propôs a um adicional. Queria falar dascontradições de sua formação judaica, da situação caótica dopaís, além dos casos amorosos de dois casais e do destino dovelho pai de Ariel (Hector Altério), que fica viúvo no meio dahistória. Parece muita coisa e ele poderia ter se perdido nomeio da confusão. No entanto, ele consegue organizar todos essesfios e da pluralidade extrai uma narrativa límpida.Serviço - Esperando o Messias (Esperando al Mesias). Drama.Direção de Daniel Burman. Arg-It-Esp/2000. Duração: 98 minutos.14 anos

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