Messiah: efeito pendular garante diversão e suscita debates

Crítica: Série da Netflix tem como trunfo as incertezas. A cada evidência de que se trata de uma fraude surge o contraponto vindo do inexplicável

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 06h00

O sujeito assinante que assiste à série Messiah chega ao final do episódio 5 convencido de que o melhor lugar para al-Masih, o talvez Messias, é o circuito de shows de magia dos cassinos de Las Vegas. Aí, companheiro, vem o episódio 6, dirigido e editado com extrema competência – e a dúvida volta com força: afinal, ele (Ele?) fez mesmo aquilo? E tome discussão nas redes sociais, no bar, no almoço de domingo. O efeito pendular é com certeza o fator de atração da série que especula com a possível volta do Messias – ano 2020, século 21. A cada evidência de que se trata de uma fraude surge o contraponto vindo do inexplicável. Rápidas inserções, às vezes limitadas à fala do entrevistado que aparece na TV ao fundo de uma cena, destaca que para os muçulmanos, Cristo é só um profeta.

Em outra sequência, ambientada em Israel, judeus ortodoxos de passagem na rua comentam que a era messiânica ainda não começou. Entretanto, cristãos de várias confissões tratam de seguir a estranha figura interpretada pelo belga Mehdi Dehbi, ainda que a Cúria Romana limite-se a informar aos católicos que ainda está conduzindo uma investigação a respeito do pregador, baixinho poderoso que manda uma tempestade de areia castigar Damasco durante cinco semanas, impedindo um massacre que seria provocado pelo choque entre facções envolvidas na guerra civil da Síria. Mas... foi ele mesmo?

Mehdi Dehbi tem 34 anos, e o Ungido que compôs para o personagem criado por Michael Petroni é alternativo em tempo integral. O ator leva jeito de garotão, mais novo do que é na vida real. Seu visual do começo da série, quando parece ter saído de um campo de refugiados palestinos, é inspirado no estilo grunge dos roqueiros ‘sujos’ dos anos 80 – jeans puído, duas camisas, agasalho amarrado na cintura. De repente o doido fala a sério a respeito da humanidade e seu destino. Dispara uma nuvem preta sobre a cidade e fica lá, quietão e na dele, encarapitado no topo de uma torre ou coisa assim. A série, produzida por Mark Burnett e pela mulher, Roma Downey, traz para a pauta questões teológicas a começar da mais básica: Deus existe? O al-Masih só é direto com uma prostituta que o procura para fazer cair em tentação. Cairá? Ou quando fala para os seguidores – muitos. Faz milagres? Sim e não. Ora sim, ora não. Será mesmo? Acredite se puder. Ou se quiser. A menina com câncer terminal que cruza a história é emblemática. A citação ao dilúvio será só retórica?

O estúdio pretendia fazer de Messiah uma minissérie de 13 episódios com começo, meio e fim. O orçamento é médio. O sucesso era esperado, mas acabou superando a expectativa graças aos protestos dos movimentos conservadores. Com isso, o roteiro foi alterado, os capítulos foram reduzidos para 10 e, até março de 2021, estreia uma nova temporada. Haverá um redirecionamento no personagem do presidente americano John Young, um evangélico devoto. A amargurada agente da CIA, Eva Geller (Eva!), que pretende desmascarar o Messias retornado, tem o perfil de quem vai virar crente. Da mesma forma que o brutal agente secreto israelense Aviram Dahan, subitamente cheio de motivos irrecorríveis para aderir. Um dos exercícios interessantes estimulados pela série é esse, o de identificar os novos discípulos – mas de forma curiosa: afinal, 2 mil anos depois do primeiro Advento a história terá de ser necessariamente diferente.

O impacto do final do último episódio não é pequeno e aqui não vai nenhum spoiler. Entretanto, depois de sentir a comoção dos últimos cinco ou seis minutos, é bom lembrar que um dos significados para al-Masih, é ‘o falso profeta’ – em alguns textos, o Anticristo. Bem legal, hein?

Tudo o que sabemos sobre:
NetflixJesus Cristo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.