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Mesmo fora da disputa, cinema brasileiro mostra vitalidade no Festival de Berlim

E se destaca em diferentes sessões e no mercado, com várias vendas realizadas

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2015 | 16h00

ENVIADO ESPECIAL / BERLIM - Embora sem nenhum filme na competição, o Brasil esteve presente, e com participações destacadas, em diferentes sessões da 65.ª Berlinale, que termina neste domingo, 15, quando o Festival de Berlim oferece ao público uma última oportunidade para (re)ver as seleção deste ano. O Brasil foi bem até no mercado. Referendado pelo prêmio de melhor atriz para Regina Casé no Sundance Festival, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, rebatizado como The Second Mother/A Segunda Mãe para o mercado internacional, já desembarcou no Panorama debaixo de muita expectativa. O filme foi vendido para diversos países. Outro brasileiro em Panorama também foi comprado por distribuidores da Europa e Ásia. No caso de Jia Zhangke – Um Homem de Fenyang, de Walter Salles, o livro associado ao projeto – do crítico Jean-Michel Frodon, edição da Mostra de São Paulo – também está na mira de importantes editoras da França e Itália.

Talvez o amor de Wieland Speck, o curador da seção Panorama, pelo Brasil e seu cinema limite um pouco a circulação dos filmes nacionais na Berlinale. Alguns deles, os que ainda não foram premiados internacionalmente, poderiam ter estado na chamada Wettbewerb, a competição. A qualidade não foi inferior e, em muitos casos, era até superior à das obras que competiam pelo Urso de Ouro. Berlim tem a fama de ser o mais político dos grandes festivais. Um olhar sobre a seleção deste ano mostra que, na Competição, ou no Panorama (e nas demais seções), era perceptível um mal-estar, como se os filmes estivessem dando o testemunho de alguma coisa – o fim de uma época?

O cartaz do festival deste ano era ilustrado por uma cortina esvoaçante, o momento mágico antes da exibição de qualquer filme. E, no Panorama, o conceito era “O som da porta fechando-se”. Só que o fato de uma porta se fechar não significa necessariamente o fim, como ressaltou Wieland Speck. Pode muito ser um (re)começo. Anna Muylaert, cujo filme será distribuído no Brasil pela Pandora – e deve estrear em junho/julho –, contou aqui que The Second Mother nasceu de uma sensação que ela sempre teve. Anna era muito ligada à sua babá, mas sabia que ela não era como as outras pessoas da família. Na verdade, não era da família. Seu filme é sobre isso.

A babá é uma faz-tudo na casa, é muito querida por todos – pela mãe – enquanto permanece no seu lugar. Quando sua filha se hospeda na casa e invade o espaço de lazer – chega a banhar-se na piscina! –, o caso muda de figura. A garota é talentosa – passa no vestibular para a FAU, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Representa um Brasil em ascensão social, mas que ainda sofre discriminação. O País que se pretende pujante também está no centro de Brasil S/A, exibido no Fórum. Ao público alemão, no debate sobre seu filme, Marcelo Pedroso conta que a ideia do filme nasceu de uma imagem – a bandeira tremulando lá no alto, como símbolo do despertar do gigante adormecido. O sol é personagem do filme. O Brasil, país de luz. Pode até parecer um ufanismo ingênuo, tantos são os problemas que persistem, mas The Second Mother/Que Horas Ela Volta? e Brasil S/A registram avanços.

Anna não queria ser rósea nem otimista, mas algo se passa com Regina Casé no final do filme – espere para ver – e com certeza é por influência da filha, que tem o pé no futuro. Os outros filmes no Panorama e no Fórum – Beira-Mar, da dupla Filipe Matzembacher/Márcio Reolon; Sangue Azul, de Lírio Ferreira; e Ausência, de Chico Teixeira – podem até tocar em questões sociais, mas estão mais preocupados com sexualidade. Os garotos do filme gaúcho estão se iniciando, e sair do armário não é coisa fácil. Provoca confusão e dor. Sangue Azul aborda o incesto entre um casal de irmãos, também com uma pitada de homossexualidade (nas bordas). E Ausência, que se passa numa São Paulo suburbana, é sobre garoto carente que também fica numa confusão em relação ao professor. É desejo o que ele sente, ou apenas sua necessidade da referência paterna?

Todos esses filmes vão dar o que falar, quando forem lançados. Um Homem de Fenyang será o primeiro, em abril, e o pacote vai trazer cópias novas de filmes essenciais de Jia Zhangke (Plataforma, O Mundo, etc.). E não se pode esquecer do curta de Joel Pizzini, Mar de Fogo, que dialoga com o cultuado Limite, de Mário Peixoto. Com ou sem prêmios, o cinema brasileiro demonstrou sua diversidade, e vitalidade, na 65.ª Berlinale.

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