Meryl Streep interpreta cantora desafinada em 'Florence - Quem é essa Mulher?'

Longa soma-se ao francês 'Marguerite' na decifração do enigma de Florence Foster Jenkins

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2016 | 06h00

Pode ser mera coincidência, mas as circunstâncias de mercado fazem com que estejam estreando ao mesmo tempo dois filmes de diferentes nacionalidades, feitos sobre a mesma personagem, em anos diversos. Marguerite é produção francesa de 2015, Florence – Quem É Essa Mulher? é anglo-americano, e deste ano. Estreia nesta quinta, 7. Xavier Giannoli dirige o primeiro e Catherine Frot venceu o César, o Oscar francês, pelo papel. Stephen Frears dirige o segundo e você pode apostar que Meryl Streep, mais uma vez, será indicada para o próximo Oscar. Poderá até ganhar, mas quem merece o prêmio é Hugh Grant, no papel de sua vida. Ele nasceu para ser St. Clair Bayfield, o companheiro de Florence Foster Jenkins.

Vamos logo acrescentando que os dois filmes são bons, mas o francês é melhor. Giannoli apropria-se da história da socialite norte-americana considerada a pior cantora lírica do mundo – uma espécie de Ed Wood de saias, e do bel canto – e tece uma fábula, muito particular, com ecos de Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles, e Crepúsculo dos Deuses, a obra-prima de Billy Wilder, na qual o personagem-chave é o mordomo. É por meio dele que Giannoli reflete sobre o que é a arte, afinal. O mordomo nem existe na versão de Frears, que fica centrada no triângulo formado por Florence, o marido e o pianista gay que ele contrata para acompanhá-la. Giannoli investe no drama. Frears concentra-se mais nas possibilidades cômicas da história, mas tanto Meryl quanto ele resistem ao que seria mais fácil – o histrionismo, como fator de riso.

Giannoli e a arte – a morte da heroína. Frears e a artista (que Florence, apesar de tudo, é) e a construção da heroína. Em Marguerite, a heroína é uma construção do mordomo. Em Florence, é uma autoconstrução e tem de se impor aos que querem protegê-la de si mesma (o marido), impedindo-a de fazer o célebre concerto no Carnegie Hall. Comparativamente, Frears é mais tradicional e se poderia mesmo dizer – convencional. Tudo converge para o concerto e, depois, para os esforços do marido para impedir que Florence leia as críticas demolidoras. Há mais investimento no quadro de saúde da protagonista e uma personagem secundária ganha relevo – é a mulher, vulgaríssima, do amante de ópera. Ela é capaz de morrer de rir de Florence, mas toma sua defesa numa cena destinada a resgatar a humanidade da personagem.

Esse encontro um dia teria de sair, Meryl Streep e Stephen Frears. Alguns de seus perfis recentes de mulher – Chérri, com Michelle Pfeiffer; A Rainha, com Helen Mirren; e Senhora Henderson Apresenta e Philomena, com Judi Dench – têm permitido ao diretor inglês oferecer grandes papéis a atrizes de talento comprovado. São todas heroínas que se afirmam num mundo adverso. Florence tem uma fala emocionante: “Podem dizer que eu não tenho voz, mas não que não tentei. Eu cantei”. Florence Foster Jenkins entrou para a história por seu amor pela música. Cantava em círculos fechados, em Nova York, nos anos 1930 e 40 (e inspirou a mulher cantora de Charles Foster Kane). Milionária, fazia saraus regados a comes e bebes. O marido pagava a claque para que fosse aplaudida. Seria uma farsa inócua, se Florence não tivesse o sonho de cantar no Carnegie Hall e dominar uma plateia de 3 mil pessoas. Ela também quis registrar sua voz, e fez gravações. O letreiro final informa que os registros de Florence são os mais requisitados da história do Carnegie Hall.

Qual é a surpresa em ver Meryl Streep exceder, mais uma vez? Meryl não é coloratura, mas canta bem, e muito afinada. Grande como é, entende essa mulher que abriu mão de tanta coisa por sua doença, mas não do seu amor pelo canto. Marguerite tem um colapso ao ouvir a própria voz. Florence distribui seus discos – é a crítica que a mata. A surpresa de Florence é Hugh Grant. Como o marido, ele faz um ator shakespeariano canastrão. Pensa que está representando o bom marido, mas leva o papel a sério. Não representa coisa nenhuma. Ama de verdade aquela mulher. Hugh Grant faz essa passagem de forma muito digna. E não é que o galã, que ele não é mais, pode ser um verdadeiro ator?

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