UNIVERSAL PICTURES
UNIVERSAL PICTURES

Meryl Streep e Tom Hanks falam sobre ‘The Post – A Guerra Secreta’

Atores falam sobre poder, o #MeToo e o filme que é um dos favoritos ao Oscar

Cara Buckley, The New York Times

22 Janeiro 2018 | 06h00

O filme The Post – A Guerra Secreta fala dos tensos dias que precederam a decisão do Washington Post, em 1971, de publicar os Documentos do Pentágono, a história secreta do governo sobre a Guerra do Vietnã. O New York Times teve a história em primeira mão, mas foi proibido de publicar a série completa depois que o governo Nixon ganhou uma liminar judicial. Foi quando o Post decidiu continuar a publicá-la. O longa estreia quinta-feira, 25.

Dirigido por Steven Spielberg, o filme tem Meryl Streep como Katharine Graham, a editora do The Post, que entrou por conta própria no desafio à ordem do presidente Nixon, e Tom Hanks como o lendário editor Ben Bradlee. É também a primeira vez que os três ícones de Hollywood trabalham juntos. Recentemente, conversei com Hanks e Streep sobre os paralelos do filme com a atualidade, o momento Weinstein e o que representou seguir os passos do que é indiscutivelmente o melhor filme sobre jornal, Todos os Homens do Presidente, com Jason Robards como Bradlee. Aqui estão trechos da conversa.

+ Em 'The Post', Meryl Streep é a Mulher-Maravilha de Steven Spielberg

+ 'The Post' é defesa da liberdade, da ética e do poder feminino

Alguém pensou: ‘Pois bem, o filme definitivo sobre o Washington Post foi feito. Estamos contra isso?’.

Streep: Não acho que o filme definitivo sobre o Washington Post foi feito. Foi um ótimo filme, mas negligenciou Katharine Graham e sua posição central. 

Hanks: Havia referência a ela.

(Para Hanks) Você, em especial, tem um papel que foi iconicamente interpretado. Como você o assumiu de forma diferente?

Hanks: Tive a ótima função de interpretar o único aliado que Katharine Graham teve. Você sabe, filosoficamente, o relacionamento deles era baseado em muitos aspectos. Pode chamar isso de amor, respeito, empatia, compreensão, coragem.

Streep: Admiração mútua.

Hanks: Também havia conflito, como quando ele disse: ‘Katharine, tire o dedo do meu olho’. Desde o momento em que ambos lemos e dissemos ‘Não vamos deixar isso escapar’, ele cresceu quanto ao que os Documentos do Pentágono representavam. 

Ela tinha muitas dúvidas. E isso a perseguiu a vida toda. Ela se sentia como se estivesse em uma espécie de ponto de espera, até que seu filho tivesse idade para tornar-se editor. Onde você acha que ela encontrou a coragem de dizer: ‘Vamos fazer isso, vamos publicar?’. Seus consultores estavam contra isso.

Streep: De onde vêm as coisas mais difíceis? Elas vêm do fundo. De seus pais. Katharine Graham era um produto de seu tempo. Foi toda a cultura que minimizou o papel das mulheres, especialmente as que deveriam ter maior ação, entre todas as mulheres ricas e educadas que tiveram todas as oportunidades para entrar em lugares importantes da vida, mas ficaram contidas. Ela era tão meticulosa, com profundos princípios e ardilosa de um jeito que as mulheres tinham de ser quando ocupavam apenas o segundo nível em uma sociedade.

O filme é um modelo para homens e mulheres que trabalham juntos com respeito, o que, quem teria imaginado, é o que precisamos, um bom exemplo.

Streep: Sim, mas imagine se eu fosse o editor-chefe do The Washington Post e você fosse meu editor. E se eu dissesse: ‘Tire o dedo do meu olho’. Seria demitida. É isso que quero dizer sobre desigualdade. 

Há ecos de Nixon no que ouvimos sobre a Casa Branca agora, com a diferença de que a pessoa que está na Casa Branca diz que reportagens reais são ‘notícias falsas’. Foi gratificante fazer um filme que se passa numa época em que as pessoas realmente acreditavam nas coisas?

Hanks: O ataque à Primeira Emenda sob a administração Nixon era a velha escola, uma versão do dia D do ‘Vamos parar com esta história porque é segurança nacional e eles são traidores se a publicarem. Porque se eles se atreverem a publicá-la, descobrirão que nós mentimos. E se souberem que estamos mentindo, não poderemos fazer nosso trabalho’. O que está acontecendo agora é essa guerra de guerrilha contra a Primeira Emenda. Essa ideia agora, que tem sido expressa por várias pessoas no mais alto nível da atual administração, diz que existe algo como um ‘fato alternativo’. Ele dá validação ao que é falso. E nesse âmbito vem algum grau da mesma mensagem: ‘Não os deixe descobrir a verdade, porque assim não poderemos ficar no poder”.

No NY Times, os colegas acham que esta é uma história do NY Times. Eles revelaram os papéis do Pentágono. O que vocês pensam sobre isso?

Hanks: Li um artigo antes de começar a filmar, Como eles se atrevem a fazer esse filme sobre o The Washington Post quando deveria ser sobre nós? Estamos reagindo ao que o NY Times fez. Eles não tinham Katharine Graham. Não tinham essa parte.

Preciso mudar a conversa para os dias de hoje, o assédio sexual. Uma coisa que me impressionou após as acusações a Harvey Weinstein foi que as pessoas falavam: ‘O que Meryl vai dizer?’. Eles estavam esperando por você.

Streep: Descobri isso numa sexta-feira e fui para casa cuidar da minha vida. Então alguém me disse que no Morning Joe estavam gritando que eu ainda não havia respondido. Não tenho Twitter, Facebook. Isso realmente mostrou a minha sensação de falta de clareza e também que pessoa malvada, com duas caras, e ainda assim, um campeão com um trabalho excelente. Você faz filmes, acha que sabe tudo sobre todos, mas não sabe nada. 

O que faz com o fato de as pessoas quererem que você comente?

Streep: Não quero ouvir sobre o meu silêncio. Quero ouvir sobre o silêncio de Melania Trump. Ela tem tanto a dizer. 

(Para Hanks) O que você faz deste momento #MeToo?

Hanks: Após o caso Weinstein ser divulgado, alguém escreveu: ‘Quem disse que nunca é tarde demais para se aprender um novo comportamento?’. Isso pode significar um ajuste de contas que nos tornará uma sociedade melhor.

Streep: Tudo é descarregado nas mulheres, porque esse é o último grupo que é OK menosprezar e degradar. 

Você se sentiu ‘cúmplice’, e essa é uma palavra difícil?

Streep: Honestamente, no que se refere ao Harvey, eu realmente não sabia. Achei que tinha namoradas. Quando ouvi rumores sobre atrizes, pensei que era uma maneira de denegrir a atriz e sua capacidade para conseguir o trabalho. Isso aumentou minha desconfiança. Não sabia que ele estava abusando de pessoas. Ele nunca pediu para me encontrar em um quarto de hotel. Eu não sei como ele levava sua vida sem que as pessoas soubessem intimamente sobre isso.

Hanks: Nunca fui conscientemente cúmplice, mas isso não significa que estivesse alheio.

A crítica do Washington Post disse: ‘Ícones que interpretam ícones’.

Hanks: Oh, céus.

Streep: Uh-oh.

Hanks: Oh droga.

Streep: Ainda bem que não lemos os comentários.

Hanks: Aqui vem a arrogância direto para nos derrubar. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.