Mermoud, um filósofo da tela, filma as necessidades do corpo

Cúmplices foi boa escolha do público para concorrer ao troféu Bandeira Paulista

Luiz Carlos Merten

04 de novembro de 2009 | 05h13

 

Antes mesmo que o espectador saiba qualquer coisa sobre o personagem de Cyril Descours (Vince), o cordão umbilical já foi cortado em Cúmplices. O filme de Frédéric Mermoud foi um dos 12 selecionados pelo público para concorrer ao Troféu Bandeira Paulista, como melhor da 33ª Mostra. Logo no começo, o corpo de Vincent - Vince - é pescado da água. Poucas vezes uma câmera fez uma descrição tão brutal de um corpo humano brutalizado, aviltado. É um pouco sobre isso de que fala o filme de Mermoud. Vince era garoto de programa, um corpo para o prazer, mas na sociedade violenta o rumo pode ser inesperado e o prazer pode virar horror, dor.

 

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Em Cannes, em maio, Bong Joon-ho, falando sobre Mother, outro filme da Mostra, disse que em seu cinema - e, num sentido, mais amplo, no mundo - existem apenas duas classes de pessoas. As que fazem e as que não fazem sexo. Joseph Losey, o grande autor norte-americano exilado na Europa pelo macarthismo, acrescentaria a essa divisão uma dimensão mais política. O sexo, ele dizia, engloba relações de poder. Existem os que dominam e os que são dominados. A luta de classes na cama.

 

No catálogo da Mostra, o espectador descobre que o diretor Mermoud fez mestrado de filosofia. Seu filme segue o formato de thriller, não convencional. Existe a dupla de policiais - um casal - que investiga a morte de Vince e o desaparecimento de sua copine, Rebecca. Vince trafega nas águas turbas da prostituição masculina. Na era da internet, a rede é o meio pelo qual ele se oferece aos clientes. E é na lan house que Vince conhece Rebecca, a quem introduz neste universo.

 

O filme tem cenas fortes. O policial - Hervé - interroga essa mulher dominadora, altiva, que lhe confirma que o marido e ela usavam os serviços de Vince. Sem detalhes. Em outro momento, Rebecca, que, por amor ou curiosidade, acompanha Vince na sua atividade profissional, deixa de ser o objeto para virar observadora no quarto do hotel, onde ele faz sexo oral num cliente. O que passa no olhar da garota? Náusea? Mais tarde, também no exercício da sua profissão, o policial se faz passar por cliente e sofre o assédio do garoto que avança sobre ele.

 

Durante todo o filme, o que está sempre em tensão é, por assim dizer, a dicotomia entre vida pessoal e profissional, entre o sexo e o sentimento. Existem as necessidades do corpo. Vince prostitui-se, mas se banha. Só que a água não consegue lavar tudo. A internet está presente o tempo todo - sites pornográficos, de relacionamentos. As carências dos personagens das duas histórias chegam a um ponto de intersecção e, talvez, equilíbrio. A parte ‘thriller’ é menos excitante que a existencial e o casal Gilbert Melki e Emmanuelle Devos - os tiras - renderiam, quem sabe, uma telessérie. São restrições pertinentes, mas menores. Cúmplices não é um grande filme, mas foi uma boa escolha do público.

 

 

Serviço

Cúmplices (França-Suíça, 93 min.)

Res. Cultural 1 - Hoje, 17h20

Espaço Unibanco Pompeia 10 - Amanhã, 22h20

 

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