'Mercenários 3' é como uma brincadeira para todas as idades

Filme entrará em 800 salas de todo o Brasil e traz nomes como Antonio Banderas, Harrison Ford e Mel Gibson

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2014 | 15h31

 

Será o maior lançamento da distribuidora Califórnia - a partir do dia 21, 800 salas de todo o Brasil vão exibir Os Mercenários 3. Barney (Sylvester Stallone) e seus amigos estão de volta, e agora com novas parcerias. Uma nova formação e nova atitude. Você vai ouvir que o filme de Patrick Hughes é só diversão. Por mais divertido que seja, e é - grande diversão -, Mercenários 3 está querendo dizer alguma coisa sobre o mundo atual. No original, o título quer dizer outra coisa. Nem é 'mercenários', mas 'expendables', descartáveis. Só para lembrar, em 1946, de regresso da guerra, John Ford fez Fomos os Sacrificados, justamente para honrar os soldados que deram suas vidas ou ficaram estropiados combatendo o nazismo.

A meia-hora inicial de Mercenários 3 é pura pauleira. Uma ação para resgatar Wesley Snipes, carregado num trem de segurança máxima, emenda com outra para tentar prender traficante de armas. Encoberto sob outro nome está Stonebanks/Mel Gibson, o antigo parceiro de Barney/Stallone. Outrora aliados, colocaram-se em campos opostos. O personagem de Gibson até tenta explicar o que os separou. O mundo dos mercenários é podre por natureza, mas Barney insistia em seus pruridos morais. O fracasso da operação para prender Stonebanks em seu novo disfarce leva Barney a dissolver o antigo grupo. Bye-bye, Jason Statham, Dolph Lundgren e os demais velhinhos. A nova operação encomendada por um figurão da CIA (Harrison Ford) exige sangue novo. Entra a nova formação e eles também são 'expendables', mas trazem as novas tecnologias, a nova mentalidade.

Não dá certo e a coisa só vai funcionar quando as duas formações, dos velhos e dos novos, pegarem juntas. Do novo grupo participa um especialista em informática, um jovem que se sente responsável pela morte dos parceiros - atormentado como Barney - e uma garota que bate e arrebenta, e o tempo todo suspira e dá de ombros dizendo 'Homens!' Tem também um tagarela (Antonio Banderas) e o militar (Harrison Ford) que traz seu team (Arnold Schwarzenegger e Jet Li). Todos na caça de Gibson/Stonebanks, que estabeleceu seu QG numa corrupta república do antigho Leste, cujo Exército controla. Para entender o que Stallone e o diretor Hughes querem dizer, é bom prestar atenção no personagem de Gibson, na forma como ele se move.

Sua primeira operação no filme é lançar uma bomba, a segunda, comprar uma obra de arte pós-moderna que desdenha e a terceira ocorre dentro de um museu de arte moderna, onde ele tergiversa sobre Caim e Abel, certamente como referência a seu antigo parceiro e agora inimigo, Barney. Velhos ou novos, a tese sustentada pelos personagens de Mercenários 3 é um pouco aquela que já estava no clássico de ação Os Doze Condenados, de Robert Aldrich, nos anos 1960, e retomadas por Quentin Tarantino no mais recente Bastardos Inglórios. A guerra é um negócio sórdido em que desajustados de carteirinha, podendo liberar seus instintos, sentem-se à vontade. Haja visto o Galgo de Banderas, que proclama que matar é só o que sabe e exulta com as armas na mão.

Mas nesse mundo em que tudo é mercado e tem um preço - a arte como as armas -, ainda existe ética, e ela, como o companheirismo e a amizade, é o que une as duas gerações de descartáveis. Nesse universo 'masculino', o velho amante latino (Banderas) é o único a tentar seus avanços sobre a Luna de Ronda Rousey, que canta e pega junto com os rapazes, mas resiste às manifestações de delicadeza de Smilee (Kellan Lutz). Acabaram-se os gêneros? Ela trata os durões como 'pussys'. Stallone, de tanto botox, virou - com todo respeito por Zilka Salaberry - a velha senhora do Sítio do Pica-pau Amarelo. O filme dura mais de duas horas. Passa rápido, como uma vertigem. Uma brincadeira para garotos de todas as idades, com eventuais links para o mundo real, só para mostrar que, no mundo que virou mercadão, só a mística do grupo nos salva, e essa também era a ideia de outro grande, o Sam Peckinpah de Meu Ódio Será Sua Herança/The Wild Bunch, do fim dos anos 1960.

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