Jasin Boland/Walt Disney Studios Motion Pictures
Jasin Boland/Walt Disney Studios Motion Pictures

Menos cantoria, mais luta: como a versão live-action da Disney de 'Mulan' difere da animação

Onde o novo 'Mulan' se desvia de seu correspondente de 1998, ele encontra espaço para expandir os elementos do filme de guerra conectando-o ao poema original

Sonia Rao, The Washington Post

09 de setembro de 2020 | 11h00

A balada de Mulan (The Ballad of Mulan), um poema sobre uma mulher que finge ser um homem para tomar o lugar de seu pai doente em um serviço militar, data de mais de mil anos. A história do folclore chinês também foi adaptada para as telas inúmeras vezes ao longo do século passado. Mas a versão mais familiar para os americanos tem pouco mais de duas décadas e, portanto, é um elemento básico da infância de muitos millennials.



Essa versão de Mulan se tornou o mais recente clássico da Disney a receber o tratamento live-action, resultando em um filme agora disponível para ver online via Premier Access do Disney Plus. Essas adaptações podem ser um pouco arriscadas, dado o quão carinhosamente o público lembra os originais. Quando o trailer de Mulan estreou no ano passado, lamentos em relação a ausência de Mushu, o companheiro dragão animado de Mulan, ecoaram pela internet.

Onde o novo Mulan se desvia de seu correspondente de 1998, ele encontra espaço para expandir os elementos do filme de guerra conectando-o ao poema original. A crítica de cinema do Washington Post Ann Hornaday descreveu a versão live-action como "um filme que cresceu junto com seu público original".

Aqui estão mais alguns ponto a respeito de como o novo filme, estrelado por Yifei Liu, difere do clássico da Disney.


 

Mushu e Gri-Li não existem mais

Como Timão e Pumba trazem um alívio cômico para O Rei Leão, o Mushu, dublado na versão em inglês por Eddie Murphy adiciona leveza à missão animada de Mulan de ajudar os esforços do exército imperial a proteger a cidade dos invasores Hun. Mas, ao contrário de Timão e Pumba, que apareceram em Rei Leão no ano passado, Mushu foi deixado de lado.

Mushu não faz parte do folclore de Mulan e, de acordo com uma matéria do Baltimore Sun de 1999, contribuiu para uma sensação de ser "Disney demais", o que muitos telespectadores chineses acharam "muito americano". Um espectador disse que estava claro que Mushu "não é um dragão chinês. Posso dizer que as pessoas que desenharam o dragão são dos Estados Unidos". Antes do lançamento do remake live-action, o produtor Jason Reed apontou esta resposta como uma razão para omitir Mushu (e substituí-lo por uma fênix rosa brilhante que voa por cima da cabeça de Mulan, representando os ancestrais dela).

"Obviamente, Mushu é um personagem querido e um dos elementos mais memoráveis do filme de animação. Acontece que o público chinês tradicional não achava que essa era a melhor interpretação do dragão em sua cultura, que o dragão é um símbolo de respeito e é um sinal de força e poder, e esse tipo de uso como um companheiro bobo não funcionou muito bem com o público chinês tradicional", disse Reed a repórteres no set, acrescentando que a equipe consultou outras adaptações de Baladas de Mulan também.

Gri-Li, o grilo que a avó de Mulan deu a ela como amuleto da sorte no filme de 1998, também não apareceu no novo. Mas ele é homenageado por um soldado chamado Cricket, grilo em inglês (Jun Yu).



 


 

As músicas foram cortadas ou transformadas em instrumentais

Muito da popularidade da versão animada de Mulan vem de sua trilha sonora, que conta com Lea Salonga (que cantou em Honor to Us All, Reflection e A Girl Worth Fighting For) e Donny Osmond (I'll Make a Man Out of You), entre outros. Os créditos finais incluem gravações de 98 Degrees, Stevie Wonder e Christina Aguilera, cuja versão comovente de Reflection se tornou seu single de estreia.

Mulan, da diretora Niki Caro, assume um tom mais sombrio e não apresenta nenhuma cantoria. Mas uma versão mais lenta e instrumental de Reflection entra sorrateiramente na trilha sonora e aparece ao longo do filme. Christina Aguilera voltou a gravar uma nova música para os créditos finais, chamada Loyal Brave True.


 

Li Shang foi substituído

Assim como Mushu, o comandante Li Shang (dublado por BD Wong na versão em inglês) não aparece no novo filme. Na entrevista mencionada acima, o produtor Reed explicou que eles fizeram essa mudança em concordância com o movimento #MeToo.

“Particularmente em tempos de movimento #MeToo, ter um oficial comandante que também tem interesse sexual era muito desconfortável e não achamos apropriado”, disse ele. "E pensamos que, de várias maneiras, era uma espécie de justificativa de comportamento de estarmos fazendo tudo o que podemos para sair de nossa indústria."

Shang é substituído por dois personagens: Chen Honghui (Yoson An), um guerreiro no nível de Mulan, e o Comandante Tung (Donnie Yen). Questionado sobre se a equipe considerou o que Shang significa para algumas pessoas da comunidade LGBTQ - os fãs se referem a ele como um "ícone bissexual" - Reed esclareceu que a relação entre Mulan e Honghui ainda era baseada na dinâmica entre Mulan e Shang.


 

As cenas de luta assumem um novo formato

Muitas críticas favoráveis a Mulan de Niki elogiam a forma como ela tratou as cenas de treinamento e batalha. As sequências de treinamento da versão animada são mais leves - como a cena em que se escuta a canção I'll Make a Man Out of You, por exemplo - enquanto a versão live-action apresenta a ideia de Mulan dominando seu chi, ou força vital.

Ann elogiou a forma como Nikki lidou com os elementos de ação do filme: "Mulan é indiscutivelmente impressionante", escreveu ela em sua crítica, "levando sua jovem heroína da vila em chamas de seu nascimento através de um campo acidentado, para campos de batalha e redutos imperiais que a diretora Niki Caro filma com intensidade arrebatadora (assim como os eventuais estranhamentos com imagens geradas por computador e edição superficial)."

Outros críticos, porém, gostariam que Nikki tivesse desenvolvido ainda mais o peso emocional por trás dessas novas adições. Escrevendo sobre o chi de Mulan, o repórter da Vox Aja Romano perguntou "por que o dela é tão mais forte do que o da maioria das pessoas, ou por que ela tem tanta vergonha disso, já que o chi poderoso é um atributo altamente desejável (e sem gênero) na cultura chinesa". Inkoo Kang do Hollywood Reporter questionou se, em uma sala de cinema, "a grandeza épica do filme poderia ter proporcionado uma distração maior de suas caracterizações anêmicas, enredo pouco envolvente e performances atrofiadas".


 

Um novo personagem acrescenta ao tema do empoderamento feminino

Ambas as versões de Mulan enquadram a jornada da personagem como um conto de empoderamento feminino, e a mais recente se inclina ainda mais nisso, apresentando um contraste para Mulan. Xianning (Gong Li), uma bruxa que muda de forma, diz a Mulan que ela uniu forças com os invasores do norte após ser rejeitada por causa de seus poderes. Apesar de lutarem por lados opostos, ela e Mulan compartilham um vínculo estranho formado por seus esforços para desafiar o patriarcado.


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

            

        

 

 

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