Menina transformada em mulher

Menina transformada em mulher

Para Deborah Secco, passagem em direção à vida adulta torna universal história de Surfistinha

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 05h41

Pergunta clássica: ‘O que Bruna Surfistinha e você, Deborah Secco, têm em comum? "Nada. A não ser o fato de que nenhuma das duas foi a garota mais popular do colégio. Eu era a magrela que queria ser atriz e faltava muito às aulas", responde uma guerreira Deborah ao Estado, em sua derradeira conversa com a imprensa antes da pré-estreia em São Paulo, na última terça. Deborah resistia bravamente à batelada de perguntas sobre sua jornada pela vida de Raquel Pacheco, a ‘garota de programa mais famosa do País’.

Talvez Deborah não esteja tão certa quando afirma que não tem nada a ver com a personagem do filme dirigido pelo estreante Marcus Baldini. Papel que, como a atriz reconhece, é um divisor de águas na sua carreira. E é a própria Deborah quem deixa escapar um dos pontos em comum entre Bruna, Raquel Pacheco e todas as mulheres do mundo: "É a jornada da menina que se torna mulher. Que mulher, em algum momento da vida, não se expôs para se afirmar, para ser aceita. A gente se descobre mulher, mas, ao mesmo tempo, pode começar a se autoflagelar para agradar, para receber amor".

Como você trabalhou essa dualidade da personagem?

Foi sempre delicado. Ao mesmo tempo que a mulher pode sentir prazer em ter poder de atração, ela pode se deteriorar por se vender. É sempre uma relação de prazer e dor. Nunca de prazer pleno.

E essa dor não tem só a ver com a garota de programa, mas com a busca por aceitação.

Exato. Não é a Bruna. É a mulher. Por isso choro várias vezes vendo o filme. Acho que até nós, mais velhas, buscamos amor o tempo todo. É uma busca desmedida que não nos supre. Eu mesma quantas vezes já me expus buscando aceitação?

Bruna Surfistinha, apesar das cenas de sexo, é filme para mulher?

É sim. Para me ver nua, não precisa ir ao cinema, é só dar um google. As mulheres se identificam com ela porque sentem a dor física. Imagine o que é ter cinco, seis homens em cima de você todo dia. Por mais que tenha pesquisado, conversado com garotas de programa, nunca vou entender a dor delas. Para mim parece um terror, mas para essas meninas, é como se já se anestesiassem.

E chegam a sofrer de stress pós-traumático.

Pensei muito nisso. Em como isso deve voltar depois de uns anos. Quando fiz pesquisa na região da Luz, conheci senhoras de 70, 80 anos fazendo programa. E vi que o que é errado para mim é o que ela consegue fazer para sustentar um filho. Que direito tenho de falar: "Não faça"? As pessoas não são o que querem ser. São como conseguem. E isso é triste. E eu parei para pensar que também não sou o que quero. Sou o que consigo. Somos o melhor que conseguimos ser. E se o filme servir para que Raquel volte a falar com a mãe dela, vai ter valido a pena.

"É a história da Cinderella trash" Marcus Baldini descobriu Bruna Surfistinha, a garota e o livro, antes mesmo de chegar às livrarias. Amigo de Jorge Tarquini, o jornalista com quem Raquel Pacheco escreveu o best seller O Doce Veneno do Escorpião, que vendeu 250mil cópias, viu na história da garota de classe média alta que se torna prostituta para alcançar sua independência a possibilidade de um sucesso nas telas. "O grande desafio era fazer um filme capaz de entreter, mas que não deixasse de trazer uma reflexão."

Ao mesmo tempo, fez um filme feminino. "Engraçado que você e outras mulheres estão dizendo isso. Fico feliz. De fato resolvi me atentar às razões dela. Sou fascinado pela amoralidade da Raquel. E quis desde sempre entender esta garota que quer achar seu lugar no mundo. É a própria história da Cinderella Trash", conta ele, que tem longa carreira em direção de videoclipes e filmes publicitários.

Já a direção de atores o preocupou quando decidiu dirigir seu primeiro filme. Para entender melhor ‘o lugar do ator’, fez curso de atuação com Fátima Toledo. "Sempre quis fazer um filme de ator, em que a Deborah estivesse em todas as cenas, que tudo fosse do ponto de vista dela. Das cenas de sexo ao blog, é pelos olhos de Bruna que a história é contada."

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