"Memórias Póstumas" tem pré-estréia em São Paulo

Mais de mil convidados terão, na quinta-feira, o privilégio de assistir ao belo filme que André Klotzel adaptou do romance clássico de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Na verdade, um duplo privilégio, pois o filme inaugura o Arteplex do Shopping Frei Caneca. Será exibido nas nove salas do conjunto que propõe um novo conceito de cinema de arte, não só na cidade, mas no País. Será a primeira exibição de Memórias Póstumas para grandes platéias brasileiras. E no Arteplex, um espaço que se antecipa nobre, verdadeiro santuário para os cinéfilos paulistanos. Desde que foi exibido, fora de concurso, no Festival de Berlim, em fevereiro, Memórias Póstumas passou, também fora de concurso, no Cine Ceará e agora vai concorrer no Festival de Gramado, que começa na segunda-feira. A estréia nas salas será no dia 17, em circuito nacional. Serão ?40 e tantas cópias? rodando o País inteiro, das capitais do Nordeste ao extremo Sul, informa o próprio diretor André Klotzel. Tudo começou há coisa de uns dez anos. Klotzel achou que era tempo de reler os clássicos. Havia lido Memórias Póstumas de Brás Cubas somente no ginásio, quando o romance de Machado era leitura obrigatória para estudantes. Descobriu que era um livro maravilhoso e, de imediato, resolveu que ia adaptá-lo. Não pesou contra sua decisão o fato de Júlio Bressane ter feito Brás Cubas. O próprio Bressane, consultado por Klotzel, exortou-o a ir em frente com o projeto, dizendo que não havia adaptado Machado, mas feito ?outra coisa?. Essa outra coisa tem a ver com a essência do projeto cinematográfico do autor. Bressane não adapta, transcodifica. Seu filme tem a ver com aspectos do livro, mas é fundamentalmente Bressane. Mesmo consciente de que fez um ótimo filme, Klotzel sabe que também não esgotou as possibilidades de leitura e interpretação do livro no cinema. ?Alguém poderá fazer uma terceira versão e eu darei força, pois o texto machadiano é muito rico, muito complexo para que eu tenha a vã ilusão de que fiz a adaptação definitiva.? Ele diz que não é ?gigolô de clássico?. Se foi buscar inspiração no livro foi porque se entusiasmou não apenas com o personagem e seu tempo, mas com o estilo narrativo do escritor. Machado, adotando o ponto de vista de Brás Cubas, que conta suas memórias, diz que elas foram escritas com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. O desafio de Klotzel era preservar a ironia machadiana. Conseguiu. Para captar o frescor do livro, ele disse que escreveu o roteiro de uma só vez, para expressar, da maneira mais espontânea e verdadeira possível, aquilo que lhe interessava. Começou a difícil batalha da captação. O orçamento de Memórias Póstumas foi de R$ 4,5 milhões. Klotzel começou a trabalhar no projeto (roteiro e captação) em meados de 1996. Completou a captação de recursos, por meio das leis de incentivo ? Audiovisual e Rouanet; o Banespa foi o maior investidor ? no fim do ano seguinte. Preparou a produção em 1998, rodou em 1999 e teve a primeira cópia pronta no fim do ano passado. Quando diz que escreveu o roteiro ?de uma vez?, ele talvez induza o leitor a pensar errado. O roteiro pode ter saído da maneira espontânea que o diretor queria, mas ele não parou de enriquecê-lo. Leu toda a obra de Machado, garimpou em livros sobre ele, pesquisou sobre a época em que o escritor viveu. Todo esse conhecimento foi aplicado na realização de Memórias Póstumas. Klotzel destaca um aspecto que considera fundamental em Machado. O livro, rico em observações, não é nem um pouco descritivo. Em nenhum momento há descrições, por exemplo, de como seja o protagonista. Isso lhe deu toda a liberdade na escolha do elenco. Optou por Reginaldo Faria para fazer o velho Brás Cubas e Petrônio Gontijo para fazer o personagem quando jovem. Com seu primeiro filme, A Marvada Carne, ele obteve verdadeira consagração de público e crítica. Cobravam-lhe Marvada Carne 2. Até como reação contrária, ele fez Capitalismo Selvagem. Foi um filme errado: ele concorda; cita seu estado de espírito, a época (o fim da Embrafilme, o início da era Collor). Diz que Capitalismo Selvagem desconcertou porque ?chutava o pau da barraca do espectador?. Klotzel acerta de novo com Memórias Póstumas. Não é fácil fazer um filme sobre um personagem prolixo, mas cuja história e o estilo de narração não são prolixos. Será preciso voltar muitas vezes a esse filme até o dia 17, quando o Brasil inteiro, do Recife a Porto Alegre, vai poder descobrir as delícias machadianas de André Klotzel.

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