Memórias de Uma Gueixa impressiona pelo visual

Memórias de Uma Gueixa estréia hoje nos cinemasbrasileiros emoldurado pela profusão de indicações que recebeu para o Oscar. São seis, a começar pela de roteiro adaptado e também fotografia, direção de arte, figurinos, montagem e música Gueixa pode ser melodramático, mas com certeza é uma experiência visual e tanto. Steven Spielberg gostou. Durante anos, o cineasta teve como um de seus projetos a adaptação do romanceMemórias de Uma Gueixa, de Arthur Golden, que ficou mais de dois anos na lista de best sellers do The New York Times.Quando, finalmente, deveria iniciar a pré-produção, Spielberg preferiu realizar Guerra dos Mundos e, logo em seguida, Munique. Seus produtores, Douglas Wick e Lucy Fisher, não precisaram procurar muito para arranjar um diretor substituto. Depois de assistir ao premiado musical Chicago, chegaram à conclusão de que Rob Marshall era o homem. O próprio Spielberg aprovou a escolha e, depois de assistir ao filme pronto, deu um telefonema a Marshall. "Ele foi muito simpático. Disse que não teria feito um filme melhor, o que, vindo de Steven, foi um grande elogio", comenta o diretor.Marshall, Golden e também Zhang Ziyi, Michelle Yeoh eKen Watanabe participaram das entrevistas realizadas no Waldorf Astoria, durante o junket de Memórias de Uma Gueixa em Nova York. O junket é esse encontro que as distribuidoras organizam para promover seus filmes. É uma oportunidade e tanto parapassar alguns momentos com diretores, roteiristas, atores. No junket de Gueixa houve uma inesperada defecção. Gong Li, que também deveria participar, teve de correr para Miami para rodar uma cena adicional de Miami Vice, o novo longa de Michael Mann que transpõe para o cinema a série que criou na TV. Gong Li interpreta uma cubana de origem chinesa, o que, em princípio, pode parecer loucura do diretor, mas Mann sabe o que faz. Em Chicago, baseado no musical que o lendário Bob Fosse criou na Broadway, Rob Marshall centrou sua narrativa na rivalidade entre duas mulheres, as personagens interpretadas por Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones. Também recriou um mundo- o dos gângsteres e suas dolls, bonecas - com grande riqueza de detalhe e colorido. Ele sabe que foi por isso que Douglas Wick, Lucy Fisher e Steven Spielberg o escolheram para contar as memórias da gueixa. Pois o filme, que conta uma história de escravidão e redenção por amor, estrutura-se na rivalidade entre Sayuri e Hatsumono, as personagens de Zhang Ziyi e Gong Li, recriando com esplendor visual a era das gueixas. "Essas não são as memórias de uma imperatriz nem de uma rainha. São memórias de um outro tipo", adverte Arthur Golden no livro e ele ainda coloca as seguintes palavras na boca de Sayuri, a sua gueixa - "Meu mundo é tão misterioso quanto frágil; sem os seus mistérios não conseguiria sobreviver."Rob Marshall admite que ficou seduzido pelo exotismo do mundo no qual se situa sua história, mas também confessa que foi arrebatado pela universalidade da experiência de Chiyo, a garota que é vendida para trabalhar numa casa de gueixas e, ao cabo de muitas dificuldades, vira a deslumbrante Sayuri. "Essa história se refere a um mundo muito específico, mas o triunfo do espírito humano contra a adversidade não pertence à cultura japonesa. Pertence a todas asculturas. O fato de que essa garota tenha sido retirada de sua casa e vendida como escrava e, ainda assim, tenha conseguido sobreviver e encontrar o amor, me comoveu muito e acredito que poderá comover o público em qualquer lugar do mundo. O que há demais tocante na experiência de Sayuri é que o amor, inicialmente é proibido para ela."Quando Zhang Ziyi deu a entrevista em Nova York, elaainda não sabia, mas logo em seguida uma campanha seria deflagrada na internet, na China. Os internautas queriam que sua cidadania fosse cassada, porque ela teria envergonhado seus compatriotas ao interpretar uma prostituta japonesa. "Sayuri não é uma prostituta, mas uma artista de si mesma", ela já haviadito à Agência Estado. O convite para o papel lhe chegou com uma cópia do roteiro e outra do livro. "Confesso que custei a acreditar que esse mergulho tão profundo na alma feminina tivesse sido escrito por um homem. Me surpreendeu mais ainda saber que era um americano. De onde ele tirou tanto conhecimentosobre uma cultura que permanece misteriosa para os próprios japoneses?"Exatidão Arthur Golden diz que o cinema japonês foiuma ferramenta importante nas suas pesquisas para escrever o livro, mas confessa que não conhece tanto quanto gostaria o maior de todos os diretores japoneses que investigaram o mundo das gueixas (e das mulheres em geral), Kenji Mizoguchi. RobMarshall conhecia Mizoguchi menos ainda, mas conta que também se preparou muito. "A primeira coisa que fiz, ao ser convidado, foi ler o livro novamente e, desta vez, fazendo anotações." Logo em seguida, viajou para o Japão, a primeira de uma série de viagens que não apenas ele, mas quase toda a equipe técnico-artística do filme, fez para pesquisar tudo - história, quimono, dança, maquiagem. "Já que a história de Sayuri se refere a um lugar e a um tempo muito específicos, senti que precisava saber tudo sobre eles para poder recriá-los com exatidão na tela."Marshall visitou fábricas de quimonos, academias dedança, museus em Tóquio e Kyoto. Numa deferência toda especial, foi-lhe permitido assistir a algo que raros (e, menos ainda, estrangeiros) podem ver - a preparação do lendário ator e dançarino Tamasaburo Bando para uma apresentação de kabuki. Marshall descobriu logo que, na Tóquio moderna, o velho distrito das gueixas havia desaparecido com elas. A solução foi recriar tudo em estúdio. O filme foi rodado em três estúdios de Los Angeles e num rancho em Ventura County, na Califórnia, onde foram construídos ruas, prédios e até um rio artificial. Zhang Ziyi e Michelle Yeoh foram escolhidas porque o diretor precisava de atrizes que também fossem dançarinas. Gong Li impôs-se naturalmente porque ele também precisava de uma mulher de grande carisma e glamour para fazer a pérfida Hatsumono, a gueixaveterana, que não tolera a ascensão da garota que foi sua criada. "Não queria que duas atrizes interpretassem Sayuri", diz o diretor. Sua busca por uma atriz que pudesse ser convincente como garota de 15 anos e mulher de 30 acabou quando ele viu as imagens de Zhang Ziyi nos filmes de Zhang Yimou. Marshall nãoconsidera um problema ter chamado atrizes chinesas para fazer japonesas. "É um filme caro; precisava de nomes e também de figuras carismáticas para interpretar personagens de muita força Você se incomodou? Não acreditou na sinceridade dasperformances delas?" Michelle Yeoh, que já foi bondgirl (em 007- O Amanhã Nunca Morre) e co-estrelou O Tigre e o Dragão, de Ang Lee, tem experiência de trabalhar em grandes produções. No caso de Gueixa, elogia o desenho das personagens feito por Marshall. "Nunca vi um diretor tão cuidadoso na expressão das figuras femininas." Ao saber que o repórter da Agência Estado é brasileiro, dispara - "Meu sonho é conhecer o carnaval do Rio e as belas praias que sei que vocês têm." Em vez disso, ao deixar Nova York ela teve que voltar a Londres para terminar sua participação no novo filme de Danny Boyle. Todo esse cuidado implicou um lento trabalho depreparação das atrizes. Durante semanas, elas ficaram em Los Angeles apenas aprendendo a caminhar com os pesados quimonos e as perucas que compunham o figurino das personagens. "Não se pode usar todas aquelas roupas como se fossem um vestido leve ou um jeans. E o sentido de uma gueixa é a elegância", explicaZhang Ziyi. Ela admite que tomou o maior susto quando o diretor lhe mostrou as plataformas que teria de usar numa cena decisiva, a dança de Sayuri, que transforma a ex-criada numa superstar, a maior das gueixas. "Achei que não conseguiria", diz. Não só conseguiu como a cena, à base das lentas fusões que Marshallabsorveu de seu mestre Bob Fosse, enche os olhos do espectador. Nenhuma surpresa, claro. A origem de Marshall está mesmo no musical. Memórias de Uma Gueixa (Memoirs of a Geisha,EUA/ 2005, 145 min.). Drama. Dir. Rob Marshall. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Regular

Agencia Estado,

03 de fevereiro de 2006 | 10h02

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