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'Memórias da Boca' retoma o espírito dos filmes do 'Centrão'

Longa com oito episódios revive as memórias de quem a viveu

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2015 | 20h00

Na abertura de Memórias da Boca, o crítico e montador Máximo Barro faz uma interessante apreciação sobre o cinema ‘industrial’ que era feito no Centro de São Paulo, dos anos 1950 aos 80. Mas, em primeiro lugar, talvez seja bom lembrar que o cinema brasileiro sempre viveu dessas tentativas de industrialização – Cinédia, Atlântida, Vera Cruz, a Boca, hoje as comédias. A Boca deu certo, explica o professor Máximo, porque os produtores enganavam os exibidores na hora de mostrar seus orçamentos, e os exibidores enganavam os produtores na hora de apresentar seus números de bilheteria. Um sistema assim fraudulento deveria soçobrar, mas todo mundo fazia vistas grossas e tudo funcionava. Os diretores filmavam, os exibidores exibiam, o público assistia. E viva o jeitinho brasileiro.

O filme que estreou na quinta-feira, 10, é formado por oito episódios que evocam histórias e reativam o estilo (espírito?) de fazer cinema da chamada Boca do Lixo. Foi lá que sugiram figuras emblemáticas como Carlos Reichenbach, Ozualdo Candeias e José Mojica Marins, o Zé do Caixão. A Boca era um espaço. Abrigava muita gente, múltiplas tendências. Certas regras eram fundamentais. Os filmes tinham de ser de ‘mercado’. Não havia leis de incentivo. O investimento tinha de ser recuperado. Faziam-se filmes baratos com liberdade – a liberdade possível na ditadura militar. Acompanhando o mercado, o sexo, nos filmes da Boca, virou explícito.

Havia autores cinéfilos de carteirinha como Carlão, cineclubistas eméritos e diretores que iam contando suas histórias na marra. Quando a gente não é o melhor, dizia o Bandido da Luz Vermelha na obra cultuada de Rogério Sganzerla, a gente esculhamba. Oito diretores, oito visões da Boca. Memórias – reais e inventadas. Alfredo Sternheim abre a série com Amigas para Sempre, em que Elizabeth Hartmann e Neide Ribeiro ficcionalizam lembranças e terminam partindo para o pau, quando os desentendimentos vêm à tona. Seguem-se mais ficções e documentários. Predomina o cinema de bordas.

Passagem de Tempo, de Mário Vaz Filho, homenageia figuras míticas (Ody Fraga, Jean Garret etc). Bang-Bang, de Valdir Baptista, evoca o faroeste brasileiro, que flertava com o spaghetti. Cenas de filmes e depoimento do crítico Rodrigo Pereira contextualizam a tendência. Entrando pelo Cano, de Tony D’Ciambro, é o momento ‘como era boa nossa pornochanchada’. Um encanador vai parar num bordel e se vê à mercê de uma prostituta armada.

Em Triumpho 134, de Diogo Gomes dos Santos, o diretor Alain Fresnot e o pesquisador André Gatti dão seu testemunho sobre os cineclubes que floresceram na Boca. Experiência Macabra, de Clery Cunha, relata o que ocorreu com o ator Carlos Marques nas filmagens de Joelma, 23º, ‘blockbuster’ sobre o prédio que incendiou. Em Autofilmagem, José Mojica leva o público num tour pela região. E Mil Cinemas, de Diomédio Piskator, encena o que seria hoje uma filmagem na Boca. O tom de homenagem estimula a adesão e a gente também faz vista grossa para os defeitos. Sem eles, o filme não seria da Boca.

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