Memória e esquecimento no cinema alemão

Como realizar o trabalho da memória, sobretudo quando ela é muito pesada, envolve milhões de mortos e cai como fardo sobre gerações inteiras? Essa pergunta de fundo orienta a mostra O Cinema Social da Alemanha, que começa amanhã, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Sob curadoria do pesquisador Jorge Roldan, 12 longas-metragens foramselecionados. Alguns falam do pós-guerra em um país devastado epor reconstruir. Outros, da difícil cicatrização de uma ferida -o país, dividido pelas superpotências no final do conflito, sereunificou apenas com o fim da guerra fria.Assim, a curadoria agrupou os filmes em torno de duasdatas-chave, 8 de maio de 1945, a rendição incondicional daAlemanha aos Aliados, e 9 de novembro de 1989, a queda do Murode Berlim. Os Assassinos Estão entre Nós, O Ponto Zero,Entre Trilhos, O Casamento de Maria Braun e Alemanha,Pálida Mãe falam do pós-guerra. Igreja São Nicolau, NemPerdas, Nem Ganhos, Figuras da Noite, Nenhum Lugar paraIr, Caminhos da Noite, Depois da Queda e A Lenda deRita comentam a reunificação.São filmes de vocação autoral, expressam a preocupaçãodos diretores com uma situação dada. Quer dizer, a Alemanha éposta não como cenário ou ambientação, mas como problema. Aliás,um senhor problema, pois os artistas se esforçam por digerir nãoapenas o desafio material de reconstruir um país deixado emruínas por uma guerra que ele próprio começou, como tem deenfrentar a presença incômoda da culpa coletiva poucas vezesassumida como tal. A presença desses dois eixos faz do cinemaalemão caso à parte, diferente do cinema do pós-guerra italianoou francês.Alguns desses filmes já eram conhecidos, como OCasamento de Maria Braun, de Rainer Werner Fassbinder, eAlemanha, Pálida Mãe, de Helma Sanders-Brahms. Ambos usamtramas ficcionais para falar do custo humano da guerra. No filmede Fassbinder, o casamento de Maria dura apenas um dia porque omarido é mandado para o front russo e dado como desaparecido. Node Helma, situação parecida, com a personagem dando à luzdurante o conflito, enquanto o marido permanece no pelotão defrente. É a guerra - que nos acostumamos a ver pelo ponto deobservação americano - vista pelo outro lado. São dois filmesfortes, tanto pela densidade do drama proposto quanto por essavariação do ponto de vista habitual.Mas o mais impressionante, e mais raro, é OsAssassinos Estão entre Nós, de Wolfgang Staudte. Aqui estamosem plena Berlim arruinada. A situação dramática é composta peloencontro entre a egressa de campo de concentração e o ex-oficialque tentara impedir um massacre durante a guerra e nãoconseguira. Estamos aqui, de pleno direito, nos temas da culpa eda destruição - tratados sem autocomplacência.Já no capítulo reunificação, vale destacar odocumentário Depois da Queda, de Frank Sandig e Eric Black,que retrata o desaparecimento do "Muro de Berlim". Aliás, ofilme não se detém sobre a queda do Muro em si, esseacontecimento de grande simbolismo na história do século passado, mas das suas repercussões sobre a sociedade berlinense e alemãde um modo geral.A história é contada por intermédio de algunspersonagens, como um historiador americano, um bávaroespecialista em demolições, um ex-oficial da Alemanha Oriental,um reverendo, uma aposentada. Todos moradores do antigo setororiental de Berlim.Em filigrana a esses depoimentos passa a questãorecorrente - o que fazer da memória histórica? Os fatos: quandoo filme foi rodado, dez anos depois da queda do Muro, quase nadaresta dele. Um furor coletivo de demolição tomou conta doshabitantes da cidade. "Ouvia-se o martelar dia e noite, duranteanos", conta um morador. Era como se houvesse um projetoanônimo, nunca declarado, de apagar a presença física daquelesímbolo. Lembra um pouco a destruição da Bastilha, varrida dapaisagem de Paris depois da Revolução, pois como símbolo maiordo ancien régime teria de ser varrida do mapa. Lembra também onosso Ruy Barbosa, ao propor que se queimassem todos osdocumentos relativos à escravidão para que o País se esquecessedessa ignomínia. Para muita gente essa seria a forma mais fácilde se desvencilhar de problemas, empurrando suas partes visíveispara debaixo do tapete.Essa discussão em torno da lembrança e do esquecimento éo centro duro do documentário. O Muro simboliza tudo isso: aguerra, a divisão geopolítica do mundo e seu fim. Do Muro físico, preservou-se pequeno trecho, de dez metros, para os turistas.Fragmentos foram espalhados pelo mundo e vendidos como souvenirse pesos de papéis. Homeopatas moeram o concreto e descobriramque pó de Muro, misturado com lactose, dava excelente remédiocontra variados males orgânicos e espirituais. Enfim, o Murovirou pop. E a memória, onde fica?O Cinema Social da Alemanha. Terça esábado, às 14 horas, Entre Trilhos, de Wolfgang Staudte; terça às 16 horas, sábado, às 18 horas, Os Assassinos Estão entreNós, de Wolfgang Staudte; terça, às 18 horas, sábado, às 16horas, O Ponto Zero, de Edgar Reitz. Quarta e domingo, às 14horas, Nem Perdas, nem Ganhos, de Eoin Moore; quarta, às 16horas, domingo, às 18h15, Figuras da Noite, de Andreas Dresen;quarta, às 18 horas, domingo, às 16 horas, O Casamento de MariaBraun, de Rainer Werner Fassbinder. Quinta, às 14 horas,Nenhum Lugar para Ir, de Oskar Röhler; quinta, às 16 horas,Caminhos na Noite, de Andreas Kleinert; quinta, às 18 horas,Alemanha, Pálida Mãe, de Helma Sanders-Brahms. Sexta, às 14horas, Depois da Queda, de Frank Sandig e Eric Black; sexta,às 15h45, Igreja de São Nicolau, de Frank Beyer; sexta, às 18horas, A Lenda de Rita, de Volker Schlöndorff. De terça a dom.R$ 8,00 (válido p/ todos os filmes). Centro Cultural Banco doBrasil. Rua Álvares Penteado, 112, em São Paulo, tel. (11)3113-3651. Até 9/2.

Agencia Estado,

27 de janeiro de 2003 | 16h37

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