Memória do cinema nacional cabe num AP

Imagens preciosas da história cinematográfica brasileira ocupam quase todo o espaço de um apartamento no bairro de Laranjeiras, no Rio. São fotos como a que mostra a curiosa visita, na década de 50, da italiana Giulietta Masina, mulher de Federico Fellini, ao zoológico de São Paulo, onde também devorou um sanduíche de mortadela. Ou negativos de O Craque, primeiro filme nacional com temática do futebol. O material, porém, não está guardado sob as condições necessárias de conservação. "Há anos que venho tentando reunir recursos para recuperar e preservar o que ainda resta deste bem cultural precioso", comenta a publicitária Patrícia Civelli, moradora do apartamento carioca onde é obrigada a dividir espaço com a obra de seu pai, o cineasta italiano Mario Civelli.Ele foi um dos principais industriais a investir no cinema brasileiro, tanto participando da criação de companhias (a Maristela, em 1950) como também fundando a sua própria (Multifilmes, em 1952). Ao todo, nessas duas produtoras, Civelli rodou mais de 30 filmes, entre curtas e longas. Obras marcadas pelo pioneirismo, como o primeiro filme colorido brasileiro (O Destino em Apuros) e o primeiro sobre futebol (O Craque). "Os maus-tratos na conservação, porém, provocaram a perda de 60% desse material", lamenta Patrícia que, nomeada herdeira do espólio, há três anos vem catalogando o acervo que abriga em sua casa: 4 mil negativos, 50 roteiros, 700 livros e mais de 4 mil fotos.Neste período, ela conheceu o descaso. Além de enfrentar a burocracia exigida para a inscrição do projeto nas leis de incentivo, Patrícia enfrentou empresários que estavam mais dispostos a investir em peças teatrais estreladas por atores globais. "Claro que não tenho nada contra o teatro, mas fico revoltada com a desconsideração com a nossa história documental", afirma. "Se não se preserva a memória nacional, as pessoas adotam a cultura estrangeira, especialmente a americana."Patrícia prega uma legislação específica para a restauração de documentos e obras visuais, com a fixação de uma alíquota maior no desconto do Imposto de Renda. O único sinal verde foi dado pelo presidente da Funarte, Márcio Sousa, que auxiliou na restauração de O Grande Desconhecido, filme de 1956 cuja cópia nova será apresentada em maio. Trata-se do registro de oito meses de filmagem nas selvas brasileiras, começando pelo Pantanal, passando pela Amazônia até chegar à Bahia, período em que registraram tribos indígenas que não existem mais. "Eles abriram picadas, improvisaram balsas e construíram pontes sobre precipícios", conta Patrícia. "Tamanho empenho garantiu a medalha de ouro no Festival Internacional de Karlovy Wari, na Checoslováquia, e impressionou o marechal Rondon, que se tornou amigo do meu pai", conta Patrícia.A amizade progrediu e Rondon, pioneiro na demarcação das fronteiras brasileiras, forneceu-lhe os direitos exclusivos de filmar sua vida. O projeto empolgou Mario Civelli, que convidou Federico Fellini para vir ao Brasil e realizar a filmagem. "Ele recebeu uma carta da mulher do cineasta, Giuletta Masina, lamentando a impossibilidade de Fellini vir para cá", lembra Patrícia.A amizade de Civelli com intelectuais italianos remonta à sua origem. Filho de um general do Estado-Maior de Mussolini, ele trabalhava com diretores de cinema quando eclodiu a 2.ª Guerra Mundial. Contrário ao fascismo, Civelli escondeu-se no Vaticano e deixou a Itália disfarçado de padre, engajando-se no US Psychological War Departament, que produzia documentários de guerra.Terminado o conflito, Mario Civelli voltou à Itália, onde foi contratado pelo produtor Dino de Laurentiis para vir ao Brasil pesquisar locações para uma biografia cinematográfica de Anita Garibaldi. A falta de condições obrigou a produção a cancelar o projeto, mas Civelli decidiu não retornar ao seu país - preferiu radicar-se em São Paulo, onde logo se entrosou com outros italianos ligados à cultura.Na década de 50, São Paulo era o centro de expansão comercial do País, o que permitiu a Civelli unir-se a seu cunhado, Ruggero Jacobbi (diretor do Teatro Brasileiro de Comédia), e ao empresário Mário Audrá Jr. para fundar, em agosto de 1950, a Cinematográfica Maristela, que se propunha a uma aventura bem diferente das pretensões hollywoodianas da Vera Cruz, criada dez meses antes, pelo industrial Franco Zampari. "Foi a oportunidade das obras de Monteiro Lobato (O Comprador de Fazendas) e Nelson Rodrigues (Meu Destino É Pecar, sob o pseudônimo de Suzana Flag) finalmente chegarem ao cinema", comenta Patrícia.Depois de realizar seis longas, Civelli desligou-se da Maristela, disposto a defender suas idéias. "Ele preferia apostar mais na idéia que na grandiloqüência, na simplicidade neo-realista que no preciosismo técnico, enfim, mais na temática brasileira que na história importada", conta Patrícia, lembrando que o pai, em 1952, fundou então uma nova companhia, a Multifilmes, cujos galpões hoje estão completamente abandonados, no município de Mairiporã, restando apenas a estrutura de quatro estúdios.

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