Membro do júri, Murilo Salles exibe dois filmes na Mostra SP

Estão na programação 'Aprendi a Jogar com Você' e 'O Fim e os Meios'; ele também realizou série de curtas sobre o artista Tunga

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2014 | 03h00

Afirmar que Murilo Salles é um diretor múltiplo é, no mínimo, consenso. Raro exemplo de realizador que transita entre a ficção e o documentário com desenvoltura, ele vê no documentário a possibilidade de exercitar a arte de dar um roteiro, e um sentido ficcional, ao imponderável que se desenvolve na frente da câmera que registra o real. 

Ao mesmo tempo, Salles também aprecia o desafio de criar roteiros que tratam desde temas intimistas, como Nome Próprio (2007) até de assuntos mais que urgentes e atuais, como a corrupção que permeia o longa O Fim e os Meios (2014). Para completar, ainda realizou há pouco quatro curtas sobre o trabalho do artista plástico Tunga, feitos para o Instituto Inhotim, em Minas. 

É uma amostra da produção de Salles que está em cartaz na 38ª Mostra, em que o diretor exibe o documentário Aprendi a Jogar com Você, que tem sessão na terça, às 20h30, no Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 3 e na quarta, às 16h40, no Reserva Cultural; e o longa de ficção O Fim e Os Meios, que tem sessão na terça, às 18h30, no Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca, e na quarta, às 14h, no Espaço Itaú de Cinema. “São dois projetos diferentes, no tema quanto na forma, mas que me complementam. Em um deles, Aprendi a Jogar com Você, fui registrar a viração, a luta de um personagem real, DJ que sonha e vive de música na periferia. No outro, quis tratar de algo que já é tão explorado no Brasil, a corrupção”, comentou o diretor em conversa com o Estado, logo após apresentar seu Filmes da Minha Vida, atração da Mostra em que personalidades falam das produções que marcaram suas trajetórias.

Para completar sua participação múltipla na 38ª Mostra, Salles também é membro do júri e, ao lado de nomes como a produtora Marianne Slot e a diretora Mariana Rondon, que vai escolher o filme vencedor do Troféu Bandeira Paulista. “Não é fácil ser júri, mas o formato da Mostra, que traz uma pré-seleção do público, para que o júri escolha entre os mais votados, é interessante.” 

De volta a seu novo documentário, que já passou por diversos festivais, Salles observa: “o Duda (DJ e personagem principal do filme, ao lado de sua mulher Milka) fala para a câmera o tempo todo, ele age de olho nela. Mas este jogo é interessante para mim, como diretor. É genial isso, porque me descontrola. Todo diretor de ficção é controlador. No documentário, não há tempo para se estudar a fotografia, o set – tem de ser mais dinâmico e aberto ao momento”, diz, que começou na carreira dirigindo documentários. “Meu primeiro filme, rodado na África, foi documental. Em seguida, fiz duas ficções (Nunca Fomos Tão Felizes, 1984, Faca de Dois Gumes, de 1986) e depois outro documentário (Todos os Corações do Mundo, de 1996). Sou muito permeável”, relembra. 

Já sobre sua mais recente ficção, O Fim e os Meios, o diretor disse ter decidido “enfrentar o Minotauro”. “É sobre um casal que se muda para Brasília. Ela é jornalista e ele, publicitário, que vai conduzir a campanha eleitoral de um senador. A relação revela como mídia e política convivem de forma perigosa. É um assunto que não domino, fui pesquisar, falar com jornalistas. E um deles me disse para ter cuidado porque as pessoas odeiam o assunto da corrupção. Ele disse: ‘As pessoas querem ver dinheiro. Não necessariamente de denúncia, mas de ver o montante.’ Incrível, não?”, conta. “Quando escrevi este roteiro, em vez de recorrer aos grandes lances deste jogo, quis trabalhar os detalhes, o simbolismo dos gestos, cada ação, um beijo, um abraço, um olhar, um aperto de mão. São reveladores.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.