"Melinda e Melinda" transita entre comédia e drama

Woody Allen mantém o ritmo e continua produzindo um filme por ano. Este Melinda e Melinda, que chega agora aos cinemas do Brasil, já foi sucedido por outro longa, Match Point, apresentado há pouco em Cannes. Melinda e Melinda surge da conversa em mesa de restaurante entre dois escritores, Max (Larry Pine, que trabalhou no Brasil em Como Nascem os Anjos, de Murilo Salles) e Sy (Wallace Shawn). Eles discutem sobre dramaturgia, quer dizer, sobre vida. Um prefere a comédia, outro a tragédia. E passam a imaginar a vida de uma certa Melinda (Radha Mitchell). A história contada pelo filme será a dessa Melinda, ora sob a chave trágica, ora sob a cômica. As duas versões da história de Melinda se sobrepõem. E, claro, Allen tem de inventar uma personagem de vida confusa o suficiente para suportar duas leituras, uma cômica e outra trágica, em circunstâncias basicamente semelhantes, senão a coisa perderia graça. Convenhamos, a idéia é brilhante. Falamos o tempo todo que a vida humana é feita de choros e de risos, que se trata de uma tragicomédia, etc. Pois bem, Allen explora essa premissa, simplesmente desdobrando o destino da personagem. Mas se a premissa é boa, seu desenvolvimento deixa um tanto a desejar. Na parte cômica da existência de Melinda, Allen não consegue os efeitos de riso que costuma lograr em suas comédias em estado bruto. E, na parte trágica, não alcança a altura de, digamos, Crimes e Pecados, para alguns o seu melhor mergulho no lado escuro da alma humana. O que não quer dizer que não consigamos rir com ela, ou, eventualmente, compadecer-se com alguns dos seus percalços. Melinda e Melinda não vai figurar entre os seus grandes filmes, ele que já fez 35 deles.

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