Melanie Griffith fala sobre jovens diretores e opção de fazer um curta

'Thirst', de Rachel McDonald com a atriz, integra a competição oficial da categoria no Festival de Locarno 2014

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2014 | 07h00

LOCARNO - “É um filme sobre uma mulher alcoólatra. E, sendo eu alguém que já enfrentou este problema, recuperou-se e ainda luta contra isso, achei que era uma boa forma de tirar isso de mim, do meu corpo, da minha mente, da minha psique.”

Foi com esta honestidade que a atriz Melanie Griffith respondeu à simplória pergunta “sobre o que é o filme?” quando questionada sobre seu mais novo trabalho, o curta-metragem Thirst (Sede), de Rachel McDonald, que integra a competição oficial da categoria no Festival de Locarno 2014. 

Thirst conta a história de Sue (Melanie), assídua frequentadora de um bar decadente onde trabalha Billy (Josh Pence). Ele é um barman disposto a acabar com sua vida. Ela uma beldade cujo tempo passou. “É um filme sobre a difícil arte de viver. E o que se constrói entre eles, e na tela, é algo forte. Foi difícil fazer. Aliás, não é porque se trata de um curta (o filme tem 31 minutos) que é um filme menor”, declarou a atriz. “Como diz o ditado, não há papéis pequenos. Apenas há atores pequenos. Não importa se é um curta ou um filme de cinco horas, o que importa é o que ele provoca em nós”, completou a atriz, que, aos 57 anos (completados na sexta), confessa que não vem recebendo muitos convites para atuar nos últimos anos. 

“Depois dos 40 anos, Hollywood simplesmente não te liga mais. Sim, é verdade. Há poucos papéis para mulheres como eu”, desabafou a atriz que recebeu uma indicação ao Oscar e levou o Globo de Ouro por seu papel em Uma Secretária de Futuro, em 1988. Por isso, e pelo belo roteiro escrito por Michael Albanese, Melanie não pensou duas vezes quando recebeu um e-mail “carinhoso e apaixonado” de Rachel, convidando-a para atura em Thirst. “A história é ótima. Senti uma familiaridade tão grande na primeira vez que vi Rachel que decidi fazer. Sabe o tipo de pessoa que você olha nos olhos e sente que conhece há muito tempo?”, explicou a atriz. 

Para Melanie, ser dirigida por uma jovem diretora é diferente. “Já filmei com mulheres e com homens. Não sou feminista, mas feminina. E admito que, a meu ver, a mulher tem um feeling sobre o que quer filmar. Ela sabe racionalmente o que quer, mas, antes de tudo, sente o que quer. Já o homem tem um pensamento sobre o filme que quer fazer”, explicou. “Rachel sabia o que queria, o que pedir ao diretor de fotografia e a mim.” Rachel, a propósito, antes de se decidir pela direção, trabalhou com cineastas como Frank Darabont, Nancy Meyers e Clint Eastwood. 

“Diretores podem ser extremamente sensíveis, mas o mecanismo, na maioria das vezes, é outro. Quero apoiar mais diretoras, pois há poucas. Acredita que, em Hollywood, somente 2% dos diretores são mulheres?”, bradou a atriz, que, apesar de ter iniciado sua carreira ainda adolescente e ter no currículo dezenas de trabalhos, ainda se sente insegura ao iniciar um novo trabalho. “Ainda tenho muito o que provar. E sempre fico nervosa antes de começar a filmar. Jamais vou perder o grande e assustador sentimento: ‘Meu Deus, será que consigo fazer isso?’ E, quando conseguimos, é tão bom.”

É essa postura franca e uma voz levemente macia, que lhe conferem um eterno ar de fragilidade e malícia, e a tornam uma atriz ainda tão fascinante. Mesmo que seu rosto revele os sinais do tempo, ela se torna mais graciosa ao assumir isso. Melanie, que carregou na infância e na adolescência o peso de ser filha de uma estrela de Hollywood (Tippi Hedren, de Os Pássaros, de Alfred Hitchcock), sofreu com a pressão, enfrentou o vício do álcool, em medicamentos e não tema falar de seus percalços. Hoje, é uma mãe segura de seus erros e se orgulha de ter criado duas filhas preparadas para não repeti-los. 

A mais velha, a propósito, a atriz Dakota Johnson, de 25 anos, filha de seu casamento com Don Johnson, é a protagonista Anastasie Steel do aguardado 50 Tons de Cinza, com estreia prevista para o início de 2015. 

“Ela é uma força da natureza. Estou muito orgulhosa. Dakota cresceu vendo meus erros, aprendendo a não repeti-los”, disse Melanie. “Mesmo assim, não vou ver 50 Tons. Visitei o set e vi o suficiente. Dakota não quer que eu assista, mas vou ler as críticas”, confessou a mãe orgulhosa, que, com seu segundo marido, Antonio Banderas, de quem se separou este ano, também teve Stella Banderas Griffith. “Eu me dediquei muito a criar minhas filhas. Agora, crescidas, estou livre. E vou fazer o que eu bem entender”, brincou Melanie, que, em janeiro, estreia novo espetáculo na Broadway. 

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